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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

25
Abr21

No dia da Revolução

Rita Pirolita
No dia da Revolução lembro-me que o meu pai queria ir comprar tabaco nem que fosse a Cacilhas que naquela altura ficava no fim do mundo. 
A minha mãe descabelava-se que "era muito perigoso", que "era uma revolução e que estaria tudo fechado em todo o lado". 
O meu pai deixou de fumar por umas horas ou talvez um dia, deixou de fumar por um mês por causa da maldita operação à vesícula e depois finalmente deixou de vez depois dos 50, agora está feito hamster atleta de passadeira de ginásio.
O meu fumar começou por curiosidade, todos começam assim já sei, mas comigo foi por ficar especada aos 7 anos a olhar para o meu pai a fumar, ele não vai de modas, “queres?” e espeta-me com o cigarro nos beiços que até embacei, ainda por cima aquilo parecia mata-ratos, SG Filtro, curto e forte, primo directo do SG Gigante, longo e forte. 
A minha mãe salvou-me do vício, com a frase, "o que estás a fazer à menina?"
09
Ago20

Pretos Benetton e brancos Hip-Hop

Rita Pirolita
 
 

Nem sempre vivi no mesmo sítio, mas fiquei sempre pela margem sul. Tinhamos a Torre da Marinha e o soweto do Fogueteiro, o famoso JAMAICA, mesmo coladinho à escola dos betos. Se entrasses neste sítio por engano rezavas para que o carro não avariasse, a pé nem pensar saías de lá deitado e pálido, nem a Polícia lá punha os cotos com miáufas, mas tinha andares à venda sem janelas e portas, é claro que compravam uns aos outros ou eram ocupados por gabirus corridos a tiro de outros bairros semelhantes. 

Como já deduziram, eu é que vivi numa zona de enclave, qual Médio Oriente, pff.

Nunca foi fino viver na margem sul.
Retornados, pessoal do Alfeite, putas e marinheiros nunca faltaram naquele lado do rio bem como pessoal que vinha da térrinha com uma mão à frente e outra atrás, viver na capital era muito caro. 
Ficamos no entanto com o melhor daquele lado da ponte além do Cristo Rei, as praias! 
Na altura pouca gente tinha carro, não havia filas, demorava-se menos de 10 minutos até à Fonte da Telha e 20 minutos até à Costa de Caparica. 
Agora a Fonte da Telha tem mais gabirus que retornados e pescadores e a Costa de Caparica tem brasileiros a dar com um pau, estão à beira mar para não se esquecerem da terra deles.
Os lisboetas estão sempre a dizer mal da margem sul mas no verão são os responsáveis pelos engarrafamentos no acesso às praias. Se a capital é assim tão boa vão para Carcavelos para a praia do cagalhão se não gostarem sigam sempre para norte. 

Passou a ser 'finesse' viver na margem sul quando os jogadores da bola se mudaram para a Aroeira e o PCP comprou a Quinta da Atalaia. 
Os da Quinta da Princesa além de poderem vender mais droga por altura da festa do Avante, passaram a sentir que viviam na Quinta da Rainha em condomínios de luxo. Se ciganos já haviam em barda a esses juntaram-se os pretos, estes grupos viviam mas não conviviam claro, eu como branca tinha o melhor de dois mundos, amigos de um lado e de outro.
Lembram-se da altura em que os pretos vestiam Benetton como os brancos? Por acaso ficavam bem o raio dos miúdos, o preto contrastava com o rosa, verde alface, amarelo e... sapatinho de vela à surfista para rematar, mais tarde fartaram-se e mudaram o estilo, então os brancos imitadores passaram ao estilo hip-hop, botas Timberland e calças ao fundo do cu a mostrar a cueca comprada no cigano marca Gregório Armando. 
Só uma coisa amiguitos conguitos não façam tatuagens, não se vê nada na vossa pele a não ser que sejam galão clarinho. 
Já nada é como dantes, agora os pretos e ciganos ganham o ordenado mínimo e tiram cursos no Centro de Formação Profissional, no pouco tempo livre que têm entre entradas e saídas da prisão, uma coisa é certa, passaram a ter casas de jeito para assaltar na margem sul, as dos futebolistas.

19
Jul20

TinTin e o Templo do Sol

Rita Pirolita
Ando a rever as aventuras de TinTin, desta vez os episódios estão dobrados e não têm legendas, não podendo ouvir o sonante francês em versão original que seria uma recordação mais fidedigna. 
O moço disse que os desenhos animados na altura, eram mais despretensiosos, embora seja uma palavra cara demais para a faixa etária de quem via estes bonecos de TV, assenta muito bem esta definição! 
Na altura, para além de ser criança vivia numa época definida por valores, tradições, atitudes e modas um pouco diferentes e verifico o quão tudo mudou, não forçosamente para melhor.
O Capitão Haddock dos mil trovões estava sempre mal disposto, fumava cachimbo, bebia alcool, às vezes demais até ficar grogue, isto tudo à frente de crianças e passado num só episódio, o Templo do Sol. 
Já não me lembrava destas coisas que nunca me fizeram confusão nenhuma, mesmo quando as vi pela primeira vez no écran a preto e branco lá de casa.  
Nessa altura muitos homens fumavam cachimbo, fumava-se em todo o lado, até na televisão em entrevistas, directos ou mesmo noticiários, em locais públicos e o meu pai em casa também fazia bem de chaminé. 
Antes de entrar para a primária já eu ia sozinha, sem medo que me raptassem, ao café da minha rua buscar doses de caracóis com muitos oregãos e garrafas de litro, não de 7 e meio, de cerveja ou vinho branco ou tinto à pressão. 
O café cheirava a petiscos, cerveja entranhada no balcão de madeira, que a ASAE ainda nem sonhava em existir e fumo, muito fumo que pairava por cima das cabeças e de um chão repleto de cascas de amendoim e tremoços, beatas, pastilhas Pirata ou Gorila e mais que viesse colado aos sapatos das dezenas de pessoas que passavam por ali todos os dias para beber um copo à pressa depois do trabalho e antes de jantar, assim as mulheres não chateavam muito, ou fazendo sala e ficando noite dentro, esparramados nas cadeiras de pau desconfortáveis que nem sepos ou encostados a segurar o balcão, para não cairem eles e o balcão! 
Todo este filme se passava em frente à minha futura escola primária! 
Ninguém ficava ofendido com esta promiscuidade e eu muito menos fiquei traumatizada, achava piada àquele ambiente confuso de tasca, com barulho de fundo de apitos de jogo da bola! 
Aos fins-de-semana e mais por altura do bom tempo, todos se sentavam na esplanada de olho em nós que brincávamos nos passeios ou no meio da estrada de uma rua sem saída, que era só das gentes daquele bairro do Feijó. 
02
Mai19

Samouco

Rita Pirolita
Com o pretexto de almoçarada na zona ribeirinha, ali para os lados do Samouco, restou a inclinação para fazer asneira da grossa, dificuldade em dar com os sítios, em acertar com um local de jeito, nem que fosse para tomar um café e dificuldade novamente em sair dos mesmos sítios, que depois de revistos me deixaram...

Um amargo de boca, um cheiro distinto por zonas, a porco, vaca, cavalo e lixo que não se podia, poluição que baste de Famel Zundapp, cartazes de tourada a cair de tanta cola sobreposta, desgraça, abandono e desleixo, prédios inacabados da crise, gente velha a atravessar estradas a passo de caracol, lojas fechadas, casas caídas, desordem continuada na construção, entremeada por bairros sociais, os mais organizados e habitados, ruas cortadas, armazéns abandonados, uma praça de touros digna da mais perigosa fronteira mexicana, um terminal de barcos onde nem Judas perderia as botas!

Estes locais quase de uma só rua, calmos e saloios, depressa se transformaram num fim de mundo poeirento, sem gosto, apagado e sem carisma.

Enfim, naquela manhã nada profícua e muito assaloiada, vi coisas que cheguem para mais um ano de vistas lavadas noutros sítios.

Fiquei triste por esta gente abandonada e definhenta por arrabaldes e baldios.

Cheguei à conclusão que há dias que mais vale não sair de casa e não há melhor lugar para almoçar que no conforto do nosso doce lar!... 

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