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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

04
Set22

Cogumelos, lavanda e amoras

Rita Pirolita
 
Ter uma vida acolhedora, conforto, família, ser senhora de lar, ter filhos que amo todos os dias de um lenhador que me acolhe em braços firmes, viver no campo, ter pássaros a comer à minha mão, um lagarto que me aparece dia sim dia não e nunca se deixa apanhar, ser normal na alegria, no sofrimento, na perda, na morte e na doença, deixar-me chorar e rir nos momentos que me apetece sem culpa ou arrependimento. 
Não sentir necessidade de sair e viajar porque o mundo está na minha casa e faço breves passeios ao pinhal ou à praia, mesmo ali à mão de semear, em forma de piquenique ou simples apanha de cogumelos, lavanda ou amoras.
Tudo é tépido e caseiro, debaixo das minhas unhas cheira a cebola e alho, o corpo a louro, o cabelo a fumo de lenha, os vestidos são de flores desbotadas mas não murchas, o fim dos longos dias quentes de verão são de um silêncio morno e envolvente com cheiro de pão-de-ló domingueiro no ar.
O outono cai pesado nas folhas, o Inverno mal-vindo prova ser necessário com as chuvas para que a Primavera se imponha com multiplicação desenfreada e mais tarde se deixe queimar e mirrar pela canícula do Verão.
As manhãs raiam ao som de galo acordado por ele próprio, os dias corremusculados de calma e compassados de preguiça, as noites são de paixão, jantares regados de vinho morno e aconchegados com ginja ou ponche quente.
E se depois de tudo isto não sentisse nada de especial queria dizer que era uma mulher feliz com uma vida normal sem saber? 
É que agora e desde sempre sinto desconforto e inquietação constante de alma, queria descansar um pouco da vida sem ter que morrer ainda, fazer um curto intervalo neste filme. 
09
Ago20

Casar sem gastar tostão

Rita Pirolita
Quem se está a preparar para dar um passo tão importante na vida como o casamento não deixe de ler este artigo de opinião, será de grande valor acrescentado! 
Para mim casar é como ir ao circo e não gostar de palhaços.
Vou resumir em algumas sentenças sábias o que vi ao longo da vida:
As noivas chegam sempre ao memorável dia a dizer - 'Estou tão cansada!', se é assim para quê casar? 
É o catering! A banda! O fotógrafo! O padre! A decoração da igreja e do copo de água! Não faço puta ideia porque se chama assim? Imagino sempre os convidados a comer, beber e dançar todos nus, enfiados numa piscina gigante em forma de taça.
"Less but not least"...O VESTIDO!!!
Para quê gastar um balúrdio numa indumentária que depois não dá para ir a funerais ou baptizados, nem ao centro comercial, que vai fazer comichão o dia todo, que não deixa respirar, porque não é o vestido que deve estar à medida da noiva, a noiva é que se deve enfiar nele. Com sorte até ao memorável dia não engorda e a coisa até corre bem, mas depois da lua-de-mel...cortado em quadradinhos serve para limpar coisas delicadas
Normalmente o noivo, anda mais ocupado a organizar a despedida de solteiro. Onde? Em Espanha? Vai ter romenas e brasileiras?
Para que a coisa não seja pobretanas que com sorte o pessoal não se divorcia e volta a casar, haja alguém que pague isto tudo e quem são eles? Os pais e os convidados, os pais infelizmente não podemos escolher ficamos com o que nos calhou na rifa da vida, quanto aos convidados, escolher sempre os que têm graveto claro, quais amigos íntimos e familiares, muitas vezes estão chateados, não se falam e se não forem ainda melhor, não confusão nem trombas.
Tudo isto para ir de lua-de-mel para um sítio barato e ranhoso como a República Dominicana, assim sobra mais dinheiro para a criança que virá de certeza a caminho.
O que levas do registo civil como prova é um pedaço de papel A4 ranhoso que não acrescenta amor para além do que existe ou nunca existiu!
14
Jul20

Se assim fosse...

Rita Pirolita

Morava na casa onde minha mãe nasceu, os pais foram-me deixando ficar, por protecção e ajuda em início de vida, mudei-me para a rua abaixo, ao pé dos avós maternos. 

O primeiro namorado foi do largo do mercado, ao cimo da rua, depois de coordenadas quezílias e amuos, acabamos por ficar juntos com forte aval da família. 

A mãe avisava para a vida com alguns espinhos mas nada que não se ultrapassasse com muito carinho e dedicação! 
Assim o fiz a quem vi fazer!
Íamos jantar a casa dos avós todos os dias, aos fins de semana ficávamos em casa dos pais a vegetar, a ouvir os canários e periquitos a palrear, o cão deitado de barriga ao sol a giboiar em cima de nós, tinhamos ovos e galinhas caseiras até não poder mais, bolos doces como a família, cheirava a comida de forno, cobertores em sofás de afundar, TV a reunir todos em frente aos Jogos sem Fronteiras, Festival da Canção ou Miss Portugal, tapetes em soalho para não arrefecer os pés, casacos para todos para o resto do corpo, música para a alma, clássica ou portuguesa, luz cálida de abundância remediada, névoa de sonho à hora das refeições.
Os avós adoravam-me e faziam qualquer coisa por mim, os pais desdobravam-se em sacrifícios para me darem todos os mimos possíveis, sem medo de me estragarem, nunca sem desrespeitar ou abusar do amor, aproveitei toda a união familiar, era eu o seu orgulho.
Fazíamos praia combinada com demorados piqueniques, visitávamos e eramos visitados pelos primos e tios, sempre de cesta plantada de iguarias da terra, cobertas com panos alvos de linho a serem levados de volta para a próxima visita, repleta de chouriças, azeite luminoso, couves doces, nabiças amargas e fruta picada, castanhas já livres de ouriço, nozes e avelãs sem ranço.
As festas populares eram de presença obrigatória e combinado convívio, os feriados religiosos com passagem pela igreja mas sem grande aparato, em nome da tradição.
Um dia o avô morreu de ataque fulminante, o coração explodiu, a avó disse que foi de tanta bondade, chorou o amor de uma vida de forma tão bonita e doce em homenagem de lágrimas e cerimónia simples.
Continuamos a viver todos juntos, perto em ruas, casa e coração, os Natais e aniversários eram celebrados com alegre parcimónia e saudade recordada e contida. 
Casei, depois de estudos concluídos e trabalho arranjado por conhecimentos do pai, lá nas finanças, o avô já não estava nem viu netos, dois lindos gémeos que romperam para a vida, um casalinho sonhado por todos de feições suaves e calma beleza, meninos de sua mãe, dóceis, sem sobressaltos ou traumas, mimados pelos avós e bisavó, mostrados a babar elogios no bairro onde todos respeitavam a família pela antiguidade e nada a apontar! Perfeita!
A avó foi deixando de andar, tratamos dela em casa, recusamos o lar de idosos, recorremos ao médico em domicílio, fizemos tudo para seu conforto, morreu feliz rodeada por todos, com dor minimizada pelo aconchego e amor verdadeiro e inocente. 
Os pais foram envelhecendo, os doces gémeos botaram corpo, orgulho meu e do pai que tanto os protegia, homem caseiro, ganhador, dócil de gestos contidos, não se bebia nem fumava em casa limpa e arejada todos os dias, não se levantava a voz, não se discutia com gritos de mãos agarradas à cabeça, tudo exemplar, sem trauma ou segredos.
Os pais partiram, deixaram a casinha de suas alegrias, naturalmente a mim, filha única, genro e netos adorados, ficamos algum tempo em desabafo de luto, os gémeos mostraram-se à altura da séria morte, choraram o que deviam, controlaram a dor e a vida continuou sem extravaso, sem sobressaltos de outro planeta. 
Fui sempre feliz, não dei desgosto aos pais, mereço os filhos que tenho, fui talhada para ser abençoada!
 
Se assim fosse...eu era outra que não esta, tão imperfeita pela mágoa, tão avessa a que me agarrassem para me destruir, sempre atraí sentimentos de desprezo, sempre fui cavalo para espicaçar e besta a abater, a culpar pela minha força, para domar, porque a liberdade natural é invejada, quase tanto como a riqueza ou a beleza!
10
Ago19

52 semanas

Rita Pirolita
Porque falam as grávidas em semanas em vez de meses, se querem mesmo baralhar, falem em dias ou horas. 
Eu sei que 52 semanas equivalem a um ano e isso é o tempo de gestação de um burro!

Dá-se música clássica às barrigas para parirem génios?!... 
Eu não tive nada disso e reparem na sumidade que sou!
 
Amor e educação dos progenitores não são garantidos, a vida, a escola ou a escola da vida que façam esse trabalho.
 
Crescemos em moralidade imposta, nunca compreendida ou explicada por quem nunca a praticou.
 
Não sou parecida com ninguém de família mas todos me dizem que conhecem alguém parecida comigo.
Se calhar sou fruto de (a) parição espontânea.
 
Gostava de ser melhor todos os dias por intuição e não por oposição aos que me alimentaram a quem peço que não me humilhem e não me deixem dívidas.

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