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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

05
Ago20

Férias de sonho

Rita Pirolita


Vou falar do tuga veraneante e outros viajantes.Começo por gritar bem alto, AEROPORTO PARA ALCOCHETE, para não ter que atravessar a ponte sempre que quero ir para o estrangeiro ou ilhas. 

Comecemos as férias!

Passada uma hora de sol os alemães viram flamingos de pele inflamada, falam aquela língua de cão e cospem-se uns aos outros, não me aproximo nem falo alemão. 
Os ingleses adquirem a mesma cor de lichia madurinha e ao falar enrolam a língua como se tivessem a sofrer uma trombose, também não sou enfermeira nem veterinária e não falo inglês técnico de emergências.

Os franceses é raro vê-los, não sei onde se metem em altura de férias, também ninguém quer saber. Eu falo francês mas eles não podem saber.

Os espanhóis juntam-se aos portugueses, mesmo que visitem Cuba quinhentas vezes cada 'mojito' é uma novidade digna de experiência.

Também vou para fora cá dentro e sempre de barraca armada.

Todos os parques de campismo estão cheios de beatas, amigos, não custa nada pôr no lixo, os filtros demoram colhões de tempo a desaparecer na natureza.
Com espaço de sobra há sempre um casal de enconados que monta a tenda em cima da tua, têm medo de quê?

Os únicos ursos nas redondezas são eles!  
Arriscam-se a ouvir o que não querem à noite. 
Numa praia deserta põem sempre a toalha perto demais. 
Eu sei que as pessoas sentem-se atraídas pela minha beleza mas por favor, menos...e não dou autógrafos! 

20
Jul20

Nostalgia da memória

Rita Pirolita
Por vezes dou comigo envolvida em sensações e energia que tento recuperar ao visualizar determinado local e situações que me fizeram rebentar de alegria e bem estar. 

Quase sempre coisas tão simples como andar numa rua que gostei, ver um pôr-do-sol na costa alentejana ou a lua por trás do Pico, quase nunca na interacção com gente a não ser na infância com outros miúdos da mesma idade.

Infelizmente os relacionamentos adultos são sempre complicados, previsíveis a descambar para o péssimo, entediantes, enfadados, monótonos até estagnados, ao ponto da única mudança positiva ser o terminus das relações! 

Pessoas que vou deixando de contactar até que se esqueçam de mim, nem sempre se esquecem tão rápido como gostaria e irritam-me ao ponto de ter que ser drástica e me zangar, coisa que não gosto de fazer, já que consome energia e tempo para fazer outras coisas mais importantes na vida, não gosto de perder tempo com outras merdas...de pessoas que não percebem que o meu silêncio é um afastamento suave porque detesto discussões, gritaria e guerras descabeladas, onde nunca me controlo mas quando tem que ser não me acanho!

Voltando ao tema que gosto porque já todos estão carecas de saber que não simpatizo com gente, cada vez mais tenho recorrido a esta nostalgia alegre, se é que existe tal coisa, a esta memória de sensações que tenho a certeza ainda vou repetir a overdose again and again, como uma droga que me impede de ficar triste, me renova a capacidade de sentir e ser feliz com o mais simples da vida, que de tão grande não tem preço, que me enche a alma mais que os filhos que não tive ou a família que não me acolheu e amparou, que me faz sentir não precisar de comer para sobreviver, porque tudo está ali quase como se vivesse do ar, do orvalho, da luz do sol e da lua, das manhãs acordadas na tenda a ouvir a passarada, das noites a ver a raposa que já passa próximo demais, no perverso apetite de comida fácil que ofusca a sua selvagem condição!  

Brincar nas férias de Verão mais de 8 horas por dia, com interrupções atabalhoadas para rápidas refeições para voltar à adrenalina das caricas, da macaca, de esfolar joelhos e mãos, de cortar minhocas aos pedaços ou queimar formigas em agonia, debaixo de um pedaço de vidro ao sol.

Sentir-me em casa na Austrália, vá-se lá saber porquê e ainda bem que não sei até hoje, só senti!

Ter a certeza que a melhor refeição até hoje foi um pão alentejano com atum de lata, degustado num carro com mais de 20 anos a ver o pôr-do-sol alentejano com a melhor companhia do mundo, a que gostei até hoje!

Repetir a cena do outro lado do mundo mas a comer fast-food, o sol era o mesmo, a comida não foi a melhor mas a companhia continuou a ser a melhor de sempre!

Se calhar sou maluca, sei que não estou só mas sou única nas minhas recordações e sua nostalgia!
23
Set19

Arrepio

Rita Pirolita
 
 
Sabem aquelas pessoas com quem somos obrigados a conviver por questões laborais mas que nunca deviam ter tropeçado na nossa, já de si, errante vida? Quanto mais desejarmos que sejam nossas amigas, vizinhas ou até conhecidas do café, mas acabam por gostar de nós, porque somos as únicas com quem conseguem soltar uma gargalhada aqui e ali e até sentem uma invejazinha por sermos descontraídas, destravadas e irreverentes como elas nunca serão.  

São aquele tipo de pessoa que é tão oposta à nossa forma de ver e viver as coisas, que em vez de atracção existe repulsa, arrepio e pouca tolerância à sua presença mesmo à distância do horizonte, mais ainda na versão feminina, que tenta fazer concorrência directa aos seres do mesmo sexo, tempo perdido claro, mas também precisa de fazer amigos e não desgruda quando há rambóia ou simples mexerico. 
Mal elas sabem que são o tema principal da bisbilhotice e galhofa nos nossos momentos de descontração.
 
Pela descrição, até parece que me estou a referir a pessoas com comportamentos muito desviantes, tais como assassinos, políticos, palermas, estúpidos, etc. 
Mas não, estou apenas a referir-me a pessoas que para mim são sociopatas e psicopatas encobertos, para esta minha conclusão basta uma pessoa não saber estar sem trabalhar, ser sovina, convencida que é o cúmulo da pontualidade e profissionalismo, não saber falar de mais nada a não ser de trabalho, orgulhar-se de não gozar férias há 2 anos, ser peganhenta ao ponto de falar tão próximo da nossa cara que parece que nos vai passar aquele bafo negro de peçonha dos filmes de terror, para nos rendermos à sua seita de adoração e submissão lambe-botas ao patrão e ao Deus dinheiro, não aguentar uma relação por muito tempo e já quase se ter convencido que está sozinha porque é boa demais, mas continua a deitar a rede a tudo o que mexe e se não põe a hipótese de virar fufa, devia pensar seriamente no assunto e também não pensar mais em mim.
 
Eu trabalho para ganhar dinheiro suficiente para gozar a vida, não me esforço mais até ao próximo momento de necessidade e não disfarço esta relação interesseira com o trabalho. 
O trabalho por mais aprazível que seja é uma obrigação escravizante na visão de uma boémia contemplativa como eu. 
O amor próprio deste tipo de gente só subsiste com os elogios ao seu irrepreensível comportamento laboral e relação de fachada com os colegas, colegas que se forem como eu, escondem atrás de um sorriso amarelo, peninha da criatura que se esfola para mostrar que é a melhor e porque sem essa bajulação não é nada na vida nem põe um pézinho que seja, no adorável mundo da diversão e alegria.

Ainda existe um subgrupo desta espécie que também me põe os cabelos em pé, aqueles que nunca fizeram nada de jeito na vida, aos quais nunca pedi dinheiro emprestado mas a quem as minhas férias fazem muita impressão e são sempre demais!  
 
Ora dito isto, eu gostava de ter nascido já reformada e rica, sem saber que esta gente existe.

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