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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

19
Jul20

A mãe

Rita Pirolita
Podem não comentar nada sobre o que vou escrever, para sofrimento alheio não temos tempo nem paciência e se não nos toca não precisamos de tomar as dores dos outros lá longe, já temos que chegue dado na proporção da nossa força em ultrapassar ou até podem comentar e criticar a crueza da exposição.
Eu sou um colosso de sentimentos, aguento quase tudo até morrer, a partir daí para a frente...aguento mesmo tudo, na certeza porém que mais me dilacerou a imposição desta vida que tenho, sem ter justificação de castigo que podia sempre ser pior, mostrar aqui as cicatrizes de animal golpeado que nunca se pôde distrair a lamber feridas. 
Não serei a única nem a última.
Pouco antes de Abril de 74 existia eu em casa destruída, todas as noites azulejos eram partidos por panelas com comida pelo ar, colados de manhã por mim na inocência da esperança de passar e pela mãe em lágrimas de adulta destruída, entre surras e gritos, a fugir durante a noite de faca apontada aos gorgomilos, aos 7 anos disse à mãe que fugíssemos daquele Inferno que ia trabalhar para a sustentar, a esquizofrenia quedou-a na dependência de amor obsessivo, não tinha capacidade para lidar com o mundo e as pessoas lá fora, recusava-se a trabalhar para se poder entregar ao abrigo tresloucado de um lar desfeito desde o primeiro dia.
Cresci a pensar que o mundo era só isto sem ajudas, no silêncio, puseram-me o fardo à nascença de colar cacos de destruição, de aproximar vidas que nunca se deveriam ter cruzado.  
Maluqueira de sangue, de primos e tios que pressentem, que ouvem almas do além, que enlouquecem de lucidez, que se isolam tal como eu. Irei acabar assim?...
Não fui educada nem deseducada, foi a mãe mostrando o caminho da submissão e que a vida tinha que ser dura, abafada, sem espasmos ou queixumes.
Um pai ausente de amantes, que gastava o dinheiro em putas e me deixava à mingua.
Depois de guerras diárias que nunca consegui travar a mãe desapareceu no mês do meu aniversário, deixou um bilhete a pedir perdão, procurei-a com a angustia de não a encontrar mas que estivesse viva, fugida do que tinha, suicidou-se, deixando-me sem intenção uma culpa para a qual não fui talhada. 
Chorei durante dois dias e duas noites com a palavra mãe na boca.
Fui de branco, escrevi no caixão a cremar, 'Agora que o teu corpo se transformou em milhões de estrelas, quem olhar para o céu vai-se apaixonar pela noite', deitei as cinzas ao mar, veio uma irmã das bruxarias com quem não falava há muito por causa de avessas partilhas, acompanhar a minha desgraça, queria ver o local onde encontrei o corpo, não deixei, disse-me para não ter filhos por o espirito dos suicidários se encarnar mal em recém-nascidos, não permiti que me desse ordens, disse ela que não a podia cremar, era pecado, teria que ser consumida pela terra, não a ouvi. 
Não quis padres nem flores, cruzes ou vestidos de preto. Ninguém de família me telefonou quanto mais apareceu, só pensaram no choque que devia ser e não em apoiar a viva que restou, tiveram vergonha de não ter coragem, apenas um primo de Angola me deixou palavras de conformados pêsames e agradeci do fundo do coração mas também nunca mais disse nada, tive o moço firme e à distância que exigi, a mãe era minha, uma sogra que não pode ver mortos nem gosta de funerais, quem gosta? Uma cunhada que nem apareceu e desejava ter sido a feliz contemplada com tremenda tristeza que a salvaria de admitir que não queria falar mais com a mãe por dinheiros que exigia, assim teria logo herança, sem ser necessário desejar-lhe a morte, como fez em palavras, vizinhos curiosos, amigos que não tiveram oportunidade de me consolar por estarem pior que eu, não sabiam como aguentava eu ou como reagiriam se tivessem no meu lugar.
Pouco antes, de prenúncio, o vizinho do fundo da rua tinha-se atirado da ponte ao rio Tejo e a vizinha da frente tinha herança repleta de suicídios jovens.
Hoje em dia não gosto de matas densas, foi lá que a encontrei em banho de sangue e olhar vidrado no vazio.
Tenho nojo do meu pai a quem já culpei, culpo-me a mim por sempre ter sido obrigada desde muito cedo a viver distante deste horror e não ter estado por perto para me aperceber e impedir a tempo.
Depois de assim filha não quis ser mãe de alma prenha de uma desgraça que a mim se agarrou, passo agora o tempo a fugir do infortúnio para que a segunda metade da vida me faça encaixar de melhor agrado na morte, com revolta mais desbastada!
Podem dizer que sou rude e intrépida mas a minha força de arestas vivas apenas cresceu com a escolha negada de poder ser humanamente vulnerável, empedernida, já não sei existir de outra maneira!
19
Jul20

Contos da vergonha

Rita Pirolita
Era uma vez uma menina que gostava muito de histórias para adormecer mas nunca teve ninguém que lhas inventasse. 
A menina-adulta manteve o gosto de ouvir para embalar e os mesmos adultos chatos continuaram sem imaginação.
Não perdeu a esperança mas todos lhe diziam que já não tinha idade para tal, ficou com vergonha de escutar de outras bocas, começou ela a imaginar histórias, cansada de ouvir a sua própria voz muitas vezes adormecia sem ir para lá do 'era uma vez...'
15
Jul20

Sem aviso

Rita Pirolita
E eu a pensar que a vida ia só ser atribulação de pão seco, mealhas desgarradas, agora espalho dourada manteiga, levo colherinhas de geleia à boca que me entretenho a penicar com pequenos beijos.

Os dias começam em esperança de pequeno-almoço alvorado, os músculos do tempo esticam em turpor de cama.

Sem a espera de dias melhores, apenas vivo sem fazer contas ao que me espera ou resta.

Quando morrer não aviso, enquanto viver vou deixando de avisar.
01
Fev20

Um Deus qualquer

Rita Pirolita
O crédito em religiões ou doutrinas enfraquece a alma, faz depositar esperança em forças exteriores que vampirizam a fé individual para um fim comum definido. 
Até hoje sempre agradeci a mim própria por sobreviver à morte, mas se o incontrolável atentasse contra a minha vida, não teria a impensável necessidade de rezar a um qualquer Deus para me salvar???
30
Nov19

Causa-efeito

Rita Pirolita
Tenho lido muitos textos de gente que se considera informada e esclarecida, a pensar fora da caixa no domínio das politiquices, seus roubos e compadrios, o suficiente para se indignar contra os que querem calar as suas vozes reacionárias ao regime instalado de corrupção. 
 
Até hoje a humanidade passou um atestado de burrice e incompetência a si própria ao nomear lideres, porque está mais que provado que somos ingovernáveis e dependentes de controlo mesquinho ao mesmo tempo, qual estado paternalista que instala a ilusão de cuidar de nós, apenas para sobrevivermos e permanecermos no limiar da felicidade.

Gostava de saber como vamos impor uma renovada Ordem Mundial, que aposte em cada homem como um estado em si próprio, que não precisa de parasitas, de abusadores e abusados??? Para isso seriamos semi-deuses, condição da qual me parece, nos viemos sempre a distanciar desde os primórdios da sobrevivência desta raça, que insiste em se reproduzir e destruir pelas próprias mãos. 

Resta-me imaginar um mundo de Deuses, Dragões e Unicórnios, no qual preferia viver, não sendo tão céptica e realisticamente desiludida. 

Não acredito em dias melhores, mas a ilusão da luta entretem e traz alguma luz a este meu quotidiano real e entediante de tanta malvadez humana. 
Acima de tudo ansiamos com esperança, porque já não resta mais nada de bom além disso. 

Continuemos os próximos capítulos sem sentido nem missão, porque apenas temos curta existência num Universo organizado no seu caos, que não se compadece com vidas humanas, valores, riqueza, engano, altruísmo ou ética, é apenas e somente de natureza causa-efeito.

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