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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

21
Mar20

Spirit in the Sky

Rita Pirolita
Altamente recomendável ler este texto ao som da "minha música", é só clicar no video abaixo! 
O moço deu-me cabo da cabeça.
Além de ter mais roupa que eu, é um viúvo antecipado, veste quase sempre de negro.
 
Antes de irmos para uma homenagem fúnebre a uma amiga nossa, que se passou para outro lado qualquer que não este, pediu-me em tom de adolescente desesperado que o tinha que ajudar a escolher roupa e que não tinha quase nada para vestir, armado em gaja. 
Tem péssimo gosto para combinar cores e padrões, neste caso só tinha o preto como escolha e não havendo nada na lavandaria, tudo o que tinha estava disponível.
Já lhe disse que se morrer antes dele, não quero ninguém vestido de negro, só para contrariar a sua viúva indumentária, bem pode ir com bolas e riscas que eu não me importo, não vou ver mas se pudesse até me ria!
Vistam-me de branco ou rosa, dancem ao som brutal desta música e espalhem as cinzas no mar!
I'm an atheist but maybe if someone played this in church, i'd be born again!
 
 
Esta nossa amiga morreu de uma espécie de cancro raro que provoca aparecimento expontâneo de tumores em qualquer parte do corpo, podendo estar numas alturas adormecido e logo a seguir surpreender. 

Viveu mais tempo que os médicos tinham augurado. Algumas vezes fui visitá-la, inclusive no hospital, nunca lamechas, enfermeira de crianças, fazia parte do coro da igreja local e uma das vezes perguntei-lhe se acreditava em Deus e ela respondeu-me a sorrir, "tem dias!"
A cerimónia foi simples e como era de esperar, preparada por ela própria com o padre da paróquia que a acompanhou.
Apesar de eu não acreditar num Deus feito à nossa imagem e num livro escrito pelos homens, deixei-me envolver pelas suas palavras deixadas em discurso, foram de uma sinceridade, teve ela tempo de sobra para planear as exéquias e pensar a morte. 
Estive o tempo todo a conter as lágrimas, porque detesto chorar, choro muito pouco e então à frente de alguém para mim é uma vergonha mas a determinada altura não me contive e pensei eu que até daria uma boa carpideira profissional. 
Projectaram fotos que marcaram momentos de uma pessoa que estava sempre a rir, seguido de comezaina nas catacumbas da Igreja, depois do aperta-mão aos familiares mais próximos, já eu via gente com pirâmides de comida em pratos de papel, sem uma cervejinha ou tinto a acompanhar. Está-se na casa de Deus e aquilo de transformar água em vinho foi só para atrair crentes e vender mais Bíblias.
Não me levem a mal mas eu tinha acabado de sair de uma cerimónia de contenção de lágrima e depois espetam-me com mesas corridas, a transbordar de comida e jarros de limonada...tenham dó, a meu ver não fui à Igreja neste dia para me empanturrar de sandes com maionese, haja respeito e recorde-se a defunta num sítio mais descontraído, uma tasca por exemplo, a bem ver, se as houvesse por aqui, não havendo que fossem todos comer a casa! 
Aqui um funeral já é um balúrdio, ainda ter que dar de comer a gente lambona...Não me parece bem! 
De qualquer maneira a pessoa que se finou, sabia que esta comezaina se ia passar, fazendo parte da tradição por estes lados das américas nortenhas.
Alheia aos hábitos dedicou umas breves palavras escritas aos que estariam presentes neste dia, deixou a ideia que à altura que estivéssemos por ali que por acaso até foi no St. Patrick's Day, o seu próprio dia de aniversário, já ela estaria num sitio tão maravilhoso, que nunca poderia ter imaginado ou sonhado em vida! 
É assim que também penso, como é que a morte pode ser imaginada em vida? Não pode, nem eu quero. 
Se for muito bom do outro lado que me surpreenda, se for muito mau ou nada, nem quero saber! 

PS - O moço para castigo por me ter chateado logo de manhã, ficou com uma bela dor de cabeça ao fim do dia.
Eu calculo que deve ter sido também da emoção, embora se tenha feito de forte e dito que foi de ter conduzido durante 2 horas! Homens...
03
Jan20

Inocência canina

Rita Pirolita
A minha mãe tinha uma perfeita noção do tamanho certo de recipiente para cada quantidade, bem como uma noção quase matemática do tempo de espera. 

Eu sou uma perfeita anormal para esses cálculos humanos e tenho a inocência típica de um cão! 
Estar longe dos sítios ou coisas que gosto, seja por 15 minutos, uma semana ou um mês, provoca-me sempre a mesma emoção no momento do reencontro. 

Quanto aos recipientes, opto sempre pelo maior, onde cabe pouco e um pouco mais.
23
Set19

Olhos húmidos

Rita Pirolita
 
 
Ando muito preocupada com os meus olhos húmidos...e o esforço que faço para que não se transformem numa torneira que depois de aberta tenho medo de não conseguir fechar? Desperdiçar água não é o meu género.
 
No meu tempo os homens não choravam e esta mulher não tinha tempo nem permissão. Nunca fui habituada a lamechices e dramas de princesa.
 
Tudo na vida foi aceite a engolir em seco e não a engolir lágrimas, lamber as feridas a um canto sem ajuda de pensos. Fui adulta na infância, por mim assim que nasci tinha logo saído de casa. 
O crescimento rápido e imposto não deixa lugar para a esperança de algum dia sermos muito gostados, seremos sempre secundários na vida de outros.
 
Agora e depois dos 40 a humidade vem-me aos olhos com muita facilidade e com as imagens mais estúpidas deste planeta, é tão estranho para mim que nem me permito chorar, aperto os lábios e limpo logo os olhos sem dar tempo que uma única lágrima caia
Apesar de ser humana, chorar é uma actividade estranha e rara na minha vida. 
Será que por nunca ter estado grávida tenho agora o castigo da emoção hormonal inexplicável com momentos palermas e inesperados? Perco quase o controlo e isso irrita-me porque não sou prefeita mas gosto de caminhar para lá.
 
O que se passa comigo que não percebo, depois de velha é que me dá para chorar?...Não aguento, não tenho dó nem piedade de mim. 
Quero ser uma velha arrebitada e o queixosa ou chorosa, nem mesmo debaixo dos lençóis.
 
E se isto forem tudo lágrimas de crocodilo?...
Depois da menopausa passa.

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