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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

26
Jul20

Bando do biberão

Rita Pirolita
Hoje vou falar de política mas num modo mais doméstico, não gosto muito de abordar estes assuntos com a seriedade que às vezes não merecem ou com a leviandade de quem vive à custa da política e pobreza dos outros e nunca para bem gerir um país.  
Este assunto atrai sempre exaltações, bem como religião e clubes de futebol.
Digo já que não sou seguidora de nada nem muito menos fanática, simpatizo com um clube mas não morro por ele, não tenho religião mas vou acatando umas máximas budistas aqui e ali, não tenho nenhuma tendência política nem entro em discussões sobre ideologias, porque todas até hoje foram bem escritas e muito mal praticadas, em proveito próprio por loucos cuja doutrina lhes subiu à cabeça, com excessos, fundamentalismos e milhões de mortes!
Vou antes politicar em jeito de trazer por casa. 
Nasci na década de 70, embora não goste nada da época que estou a viver agora e não me importasse até de já ter morrido, desde que a minha adolescência tivesse caído em cima da década de 60, com todas as suas revoluções, tumultos e mudanças culturais e sociais. 
Era nesse tempo de esperança e sonho que gostaria de ter estado presente, do mal o menor, ainda apanhei resquícios de uma ditadura, que infelizmente se prolongou num país mais conservador e amedrontado, pouco culto e iliterato, renitente à mudança e pouco dado a revoluções, salvo o regicídio na implantação da República ou a conquista aos espanhóis mais lá atrás, sempre fomos um povo pacifico de cravos no cano.
Na minha casa, na Margem Sul do rio Tejo, os meus pais de sangue e vivência transmontana aterraram nos arredores de Lisboa um pouco antes da Revolução de Abril, nasci no ano a seguir à morte de Salazar, em pleno 11º governo da ditadura e 3º do estado Novo, liderado por Marcelo Caetano debaixo da herança abafada do assassinato pela PIDE do General sem medo, Humberto Delgado, a mando do ditador e em preparação para a mudança que tardou mas veio.
Lá em casa o meu pai desde que me entendi como gente sempre me disse que Deus não existia nem o Pai Natal, que as prendas e comida na mesa apareciam em casa não por milagre mas fruto do suor dele, a minha mãe indignava-se pela minha pequenez ao ouvir estas coisas tão adultas mas não muito, porque no fundo sabia que tudo era verdade mas também não precisava de ser apresentada à minha inocente pessoa tão nua e crua! 
Mais valeu ali que mais tarde, nem nunca nem para sempre, porque a vida é mesmo assim, real e dura mas com muito riso, aprende-se em defesa a achar graça à desgraça! 
Lá por casa o meu pai esquivava-se às investidas da minha mãe em descortinar em quem tinha ele votado em dia de eleições, ele acabava logo ali com a conversa, apelando ao secretismo do voto, mesmo para os mais próximos. 
Viveriam ainda reminiscências do não se pode falar nem andar em ajuntamentos, do pagar taxa de televisão que agora vem na factura, quer tenhas ou não, do pagar licença para uso de isqueiro, qual cocktail molotov que poderia incendiar multidões e levar à queda do regime!? 
Coisas salazarentas. 
Desconfiava eu que lá por casa era tudo marocas-bochechas por oposição aos comunistas que eram todos uns aproveitadores mas íamos todos os anos à festa do Avante, no Alto da Ajuda em Monsanto e eu andava mais empenhada em convencer a minha mãe a deixar-me ir para os escuteiros, só para andar na galderice a acampar livre de olhares progenitores, mal eu sabia que corria o risco de ser controlada por falsa doutrina e gente louca, tanto que a primeira vez que me tentaram mostrar que a coisa não era assim tão boa, enfiaram-me numa missa, provei o corpo de Deus e não gostei do sabor, além daquela porra se ter agarrado ao céu da boca porque não se podia trincar!
Não gostei do levanta e senta a mando do padre, já nessa altura era arisca à obediência e nunca mais lá pus os pés nem fui para os escuteiros porque a minha mãe não queria que fizesse parte das estatísticas vergonhosas de gravidezes na adolescência. 
Já que não me deixaram ir para os escuteiros também não tiveram a lata de me obrigar a fazer o crisma e 1ª comunhão. Livrei-me dessa palhaçada mas assisti à dos meus primos, coitados, vestidos de entrefolhos de renda até às orelhas e a passo de marcha fúnebre em dias de calor, com direito a desmaio por desidratação, até a vela que levavam na mãozinha coberta de luva branca, perdia a tesura!
Reconheço desde há muito tempo que não foi nem de perto nem de longe a pior decisão dos meus pais em relação à minha educação! 
Também nunca tive nenhuma situação de me perder no mato e precisar de recorrer aos feitos de sobrevivência e já acampei mais na vida que muita gente.
Fui a tempo de tudo, livrei-me da comunhão e nunca engravidei!
Como estava a dizer, sobre política lá por casa as coisas eram como os escuteiros, existem mas não fazem tanta falta, nem merecem tanta discussão assim.
Por estas e por outras é que de vez em quando me questiono sobre as gentes novas de linhagem mais antiga que o cagar que surgem que nem cogumelos não comestíveis, qual injecção renovadora de veneno e que fazem carreira pelos sucessivos governos.
Se nasceram em famílias modestas como a minha, não tiveram nenhuma informação privilegiada ou estimulo para a política, que sempre foi assunto quente mas abafado como as castanhas assadas. 
Ou será que esta gente pertence toda a classes privilegiadas e iluminadas e não sabem do que falam, porque a dificuldade nunca lhes bateu à porta e continuam a fazer leis para amigos, baseadas em pensamentos egoístas e atitudes mimadas de meninos da mamã que são. 
E assim vai o meu país, adultos infantis desgovernados por um bando de biberão que mama que se farta!  
19
Jul20

Coitadinhos, enconados e demais aleijadinhos

Rita Pirolita
Nunca sei como começar mas depois de o fazer lá sai enxurrada de coisas certas ou desacertadas, umas loucas outras quase insanas mas nunca nada contido.
Reunam-se à volta da fogueira das vaidades e vejam lá a quem serve a carapuça! 
Como se distingue uma pessoa enconada?
À distancia, a grande distância, até cheira a chamusco mafarrico. 
Costumam ter um ar social-benevolente, na intimidade são mimados e egoístas e a cada par de cuecas que não é passado a ferro, clamam pela mãe que lhes valha e vá fazer aquele bacalhauzinho à Brás como só ela, que os consola e ainda arruma a casa ao mesmo tempo. 
Dizem que não sabem fazer nada fora do horário de trabalho que envolva algum esforço e criação, apenas estão sempre prontos para a lanzice na esplanada mais in lá do bairro, arrabaldes piores que o sítio do Pica-Pau Amarelo, onde foram criados como os reis de Loures ou Algueirão, antes de morrer os avós ainda tiveram tempo de meter na cabeça do incauto netinho ou netinha, que foram caseiros do Barão da Mula Russa, gente importante na quinta que ali existia da qual apenas sobra um muro pintado de graffitis, ao lado do canal de esgoto a céu aberto que dizem ser uma ribeira para escoar águas pluviais.
Convencem-se que a vida será fácil se tirarem um curso que os papás pagam e depois é só comprar um apartamento muito perto dos progenitores que também entraram e bem com a lã para obtenção do empréstimo, para depois passarem lá a vida a limpar e a levar sopa em Tupperwares, porque os filhotes são uns aleijadinhos das mãos e não os ensinaram a fazer nada nem a saberem desenrascar-se. Mais valia mantê-los em casa, sempre estavam mais perto para limpar o rabinho e o cheiro ficava num só lar.
Criaram monstros gordos e sugadores que precisarão sempre de tudo, dependem de todos como de ar para respirar. 
Comigo morriam asfixiados logo no primeiro minuto de enconadice. 
Os coitadinhos, eles andam aí...
Também se distinguem bem ao longe pelo semblante macilento e amarelinho icterícia, ao perto emanam uma energia chupista, olhar vidrado e fixo, vampiros de boas vibrações, zombies que assombram a nossa vida e aparecem atrás de cada porta a acreditar nas piores previsões do zodíaco.  
Estes são os das depressões crónicas, pessimistas a tempo inteiro e nas horas extraordinárias que atraem tudo de mau porque o seu nascimento já foi o azar dos azares que se queixam como ninguém a ver se levam mais alguns para o fundo do poço onde estão sentados de rabo frio e húmido.
Nada lhes corre bem e a vida dos outros será também uma amaldiçoada e previsível fonte de tristeza e infeliz destino, tudo dominado pela inveja e medo da mudança, sentem-se mais seguros e quentinhos na merda porque já lhe conhecem o cheiro e o tépido aconchego e combater a agorafobia da liberdade a perder de vista, cansa e não deixa espaço para reclamações.
O denominador comum a estes dois grupos é que parecem um encosto, fazendo uso da terminologia espirita, uns não se desenrascam e outros enrascam tudo, não desamparam a loja, numa melice peganhenta e sempre dependente de alguma coisa, das suas coisinhas, o carrinho novinho sempre limpinho, o computadorzinho XPTOzinho, o tele-movelzinho última geração que a mamã deu...
Depois existe o grupo dos aleijadinhos e não venham cá com o mimimi das susceptibilidades feridas, eu chamo as coisas pelos nomes, vou directa ao assunto para que todos me entendam bem, porque se andarmos a chamar aos pretos, cara de merda e aos brancos cara de cu o insulto começa a subir de tom e não tenho jeito para mediar causas perdidas! 
Ponham os olhos nos aleijadinhos!
Estes são mesmo os deficientes, aleijados, incapacitados...na sua maioria a nível fisico, felizmente a outros níveis dão 10 a 0 a toda a gente normal que não sabe o bem que tem em ter nascido com braços e pernas mas muitas vezes sem um cérebro de jeito.
Os aleijados tiveram uma merda de sorte mas têm uma puta duma força e não se comparam à maioria dos normaizinhos que bem mereciam levar com uma marreca, cegueira, paralisias e outras coisas mais para cima de verrugas, só para terem noção dos verdadeiros atrasados mentais que são e como andam cá a atentar a vida dos outros...voltem para a cona da vossa mãe! 
Existe depois um grupo residual que nelas se traduz numa vida que acaba na ponta da unha de gel e neles na ponta da barba hipster, não convém partir uma ou cortar a outra.
Notaram alguma raiva ou revolta na minha descrição? 
Se calhar não estão longe da verdade, é que eu não encaixo em nenhuma destas definições, nem é uma questão de falta de noção, foi mesmo a puta da vida que me ensinou para sempre e bem.
Nunca tive ninguém que me desse alguma coisa de graça sem cobranças posteriores, por isso aprendi a não precisar de nada, nem ajuda nem dinheiro. 
Aprendi a não confiar nem desconfiar, espero que se mostrem e espalhem na primeira curva, eu fico a ver de longe o suficiente para não levar nem com um salpico de merda em cima. 
Nunca me comprometo nem prometo, sou sempre coerente e honesta comigo, os outros não precisam dessas preciosidades da minha parte.
No fundo quase de certeza tenho dor de cotovelo e uma invejazinha que até corrói.
Secretamente gostaria muito de ter sido uma mimada, nascida em berço de ouro, sempre amparada por mãozinha divina e com uma sorte diabólica...ia-me portar bem que nem uma cabra e seria obediente que nem uma mula!

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