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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

07
Ago20

Eutanásia

Rita Pirolita

 

 
Ninguém quer morrer cheio de saúde, não apetece!
Morre-se de suicídio, homicídio, doença ou acidente, de amor não
Mesmo os que estão doentes não querem morrer ou se querem é só da boca para fora, a não ser que estejam em dor insuportável e dependência humilhante.
Quem clama por eutanásia, fá-lo a pessoas que esperam nunca estejam na mesma situação. 
Quem a condena é egoísta.
Pede-se respeito e compaixão, não impor a sobrevivência a qualquer preço só para satisfação de crenças, livrar-se da culpa por matar o sofrimento e alimentar a auto-comiseração de ter um coitadinho para cuidar e por quem chorar a toda a hora.
Acabem com o circo e mandem os palhaços para casa!
21
Jul20

Hipocrisia e compaixão

Rita Pirolita

Se não fizemos nada para que os incêndios de origem natural ou criminosa deixassem de ser uma tragédia e não uma mudança na paisagem que conseguimos controlar porque se passa cá em baixo e ainda lhe podemos deitar a mão, então agora é só fazer o contrário ou outra coisa ligeiramente diferente para melhorar a situação.
Se continuamos a responder a acções de solidariedade com tal superação de expectativas que chovem elogios ao povo português, conseguiremos manter isso todos os dias e não só pontualmente para nos sentirmos bem com  a ilusão que somos boas pessoas e de uma forma egoísta confirmarmos que não nos aconteceu a nós, que estamos melhor porque estamos vivos e os nossos amigos e familiares também.
A cada ano as famílias atingidas irão continuar sem casa ou se as voltarem a pôr de pé, desenrascam-se sozinhos ou com ajuda de bondade alheia, porque o Estado está sempre à espera de ajuda comunitária e a que chega na altura das tragédias já alguém meteu ao bolso. 
O que se passou na Madeira com as chuvas e os incêndios é um bom exemplo do mau exemplo! 
Se as consequências desastrosas não resultassem do abandono das gentes e ganância de poucos, que nestas alturas aparecem sempre com discursos de fazer sociedades e recorrer a fundos europeus para avançar com as criativas medidas para sanar o problema, com menos palavras e mais vontade tudo estaria num melhor caminho. 
A fala dos jornalistas e as imagens dos repórteres são cada vez mais movidas por guerras de audiências das televisões com tragédias e quantidades inaceitáveis de mortos, choca e muito. 
Parece que quem dá as notícias é obrigado a esquecer sensibilidade e bom senso, ao lado de cadáveres ou a proferir palavras como 'giro' ou 'pormenor engraçado'. 
Somos capazes de ajudar e dizer 'que horror' perante tal tragédia, mais ainda porque foi com os nossos e aqui perto? Somos pontualmente capazes de dar a roupa do corpo,  oferecer água, comida e casa. 
Se todos fazem o que podem e muito mais, porque não melhoram as coisas? 
Porque uns deixam arrastar e adensar os problemas e muitos outros, que serão sempre poucos, combatem tamanha desgraça resultante de tamanha ignorância?  
Porque somos hipocrisia e compaixão num equilíbrio precário de quem renasce sempre dolorosamente das cinzas!  
17
Jul20

Com piada

Rita Pirolita
O que posso escrever mais para parecer uma rapariga eclética e normalzinha?...
Não me sinto daqui, isso já sabem, não gosto de pessoas, isso também já notaram, então que trivialidades me fazem deambular por este mundo, na liberdade que consigo mas não à deriva?
Estarei mais presa e condenada ao fútil do que penso? 
A falar de famosos virtuais, do fadeaway das redes sociais, de política, de hipocrisia e engano, de amigos falsos e gente egoísta, da irritação do Natal e festejos que só mostram mais o lamaçal de inconsistências em que vivemos... 
Não será tudo isto o leito do lago de onde nunca conseguimos sair, com pedras atadas aos tornozelos, a estrebuchar por um céu que nem a luz conseguimos ver por estarmos tão fundo em águas turvas e estagnadas, qual Alegoria da Caverna e suas sombras...
Quando assumo que somos uma merda também estou incluída, que seria de mim pensar que estou imune ao julgamento e critica dos outros, posso é não levá-los em conta, mas isso são outros tantos. 
O que me levaria a concordar com alguém que diz não ser saudável, eu não gostar do convívio como a maioria gosta que se desdobram em jantares e fretes com amigos e desilusões de anos de dedicação, para parecerem inseridos, quando estão a aturar muita gente em vez de apreciar a companhia de uns poucos ou quase nenhuns. 
Não será doentio um riso amarelo, um mexerico, a falta de coragem de dizer o que vai na alma correndo o risco de passar por rude, mal-educada, mau-feitio, teimosa e má?
Por isso me sinto mais saudável ao evitar o doentio dos demais, que me criticam, será por inveja, admiração ou desprezo por não os considerar, sentem-se atingidos na sua importância, não se resumem humildemente à parvoíce humana intrínseca, não se sabem rir deles nem dos outros?
Não me importa se me acham gira, vejo-me mais como alguém com alguma piada que não é obrigada a partilhar tudo o que pensa mas diz o que lhe vem à cabeça quando lhe apetece sem olhar a susceptibilidades, na sinceridade da resposta, que cala quem tiver que calar como seleção natural de quem não me deve mais chatear! 
05
Dez19

Retórica gramatical

Rita Pirolita
Precisamos de nos sentir precisados! 

De sermos chamados dos melhores pais do mundo, melhores avós, filhos, netos, alunos, amigos, trabalhadores, combatentes...

Precisamos de um papel que nos defina e prenda por prazer!

Precisamos de admiração e aceitação, nem tanto de compreensão, muitas vezes nem nos entendemos a nós próprios ou não queremos, quanto mais os outros darem-se a esse trabalho, tantas vezes inglório, superficial e pouco lucrativo!

Precisamos do mundo para lhe pousar os pés, mais para o espezinhar, coisa que temos feito até hoje de forma magistralmente egoísta mas o mundo não precisa de nós para continuar a girar, nem se rende às nossas guerras e maldade, apenas responde na mesma moeda mas sempre em trocos, porque os grandes diálogos do mundo, são naturais e imprevisíveis, incompreensíveis por mentes tão pequenas como as nossas, encarados como castigos a inocentes. O mais que poderiam ser, era castigos à nossa prepotência! 

Temo-nos erradamente em tão grande conta, que achamos que a natureza age apenas para nos martirizar e irritar e não para equilibrar as suas energias, estando nós apenas no seu caminho imparável!

A nossa sensibilidade perdida deu lugar à irracionalidade da religião, da incompreensão da morte, sofrida e chorada e nunca entranhada como transformação incontornável.  

Quereríamos nós aproximar-nos de deuses imortais que não existem em parte alguma do Universo?

Só nós inventámos o nosso poder, tão frágil e efémero? 

Com tal ruinosa imaginação e falta de senso, os humanos alheados perdem muito em não observar com olhos de ver. 

Os animais não racionalizam a morte, já nascem com ela nas entranhas sem saber, esta ignorância pura e primitiva, encerra a verdade do sentido e instinto da vida. 

O mundo se-lo-á sempre até à sua extinção e continuará a girar mesmo que não estejamos cá para o chamar pelo nome de mundo. 

E assim consegui reduzir a existência humana a pura retórica gramatical!

Os restantes seres, que não aprendam a falar, continuem a sentir e a ser felizes sem saber, a viver num mundo que não lhe sabem o nome! Já agora, para quê?

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