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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

01
Abr21

Dia das mentiras

Rita Pirolita
'A mente, mente...'
(Guru Guga)
Dizem que todos mentimos, todos os dias, um pouco, muito, aqui e ali...
Estás mais sexy (gorda)
Estás magra demais (quem me dera estar assim)
Estás mais madura (velha)
Descontrai...(és uma chata)
Não posso ir ao teu casamento porque o meu primo de Alhos Vedros faz anos (não tenho dinheiro) 
Ainda não troquei de carro, gosto de linhas vintage (desempregado)
Fiz madeixas para celebrar a primavera (para disfarçar os brancos)
Não sei como aguentas salto alto o dia todo (a invejosa com varizes)
O teu namorado só tem olhos para ti (já o catrapisquei)
O que mais me atrai num homem é o sentido de humor (o interior não interessa)
Agora que tens novo romance já não ligas aos amigos (os ressabiados)
No dia dos namorados vou ao jantar dos encalhados orgulhosos (ando com uma pessoa que tem outra relação e nesse dia não está disponível para mim)
Não posso ir ao jantar mas apareço para um café (estou liso)
Só vou ali tomar um café ao centro comercial (preciso de comprar um trapinho na ZARA)
Só vou dar um saltinho à minha cabeleireira para cortar as pontas (...arranjar os cascos, fazer depilação brasileira e definitiva, fazer madeixas, alisar, brushing, unhas de gel, massagem e tratamento à celulite...)
Dava menos trabalho sermos sinceros mas não tinha tanta piada!
Como diz o 'grande guru' Gustavo Santos 'a mente, mente...' 
04
Ago20

Emigrados

Rita Pirolita
Aos poucos vou arranjando espaço em mim para organizar ideias e aceitar memórias das tormentas, deitá-las cá para fora sem arrependimento e com bom senso.
A minha saída do país para começar vida noutro sítio coincidiu não por acaso com uma fuga de lugares comuns que já me cansavam de uma pobreza remediada, da morte de quem me pôs no mundo, porque ficar nos locais muitas vezes não resolve nada e na dúvida a mudança é sempre a melhor aposta.
Deixei para trás uma familia que se resumiria a 2 elementos, tudo o resto desde primos a tios ou avós não se falavam desde a altura da minha adolescência por zangas de partilhas, nada de novo, o mais comum deste mundo em países de famílias pobres como o nosso, que mais tarde podem descambar em novos ricos medíocres mas que não passam de remediados, uma raça pouco humilde e chata que está sempre a queixar-se que não tem dinheiro se calhar para ninguém lhes pedir emprestado?...Não tenho nada para discutir com este tipo de gente nem tenho paciência para aturá-los a falar sempre do mesmo!
Amigos? Deixei muito poucos, uns já tinham emigrado, o contacto era feito por email ou Skype muito esporadicamente até se resumir a enviar mensagens por cortesia pelo Natal e Fim de Ano, quando calhasse pela Páscoa também e tão somente se ficaria por aí.
Isto com pessoas que conhecíamos desde o tempo da escola.
Naturalmente a maioria casa-se e tem filhos, a disponibilidade para estar com os amigos que não constituíram família e que ainda vão tendo tempo para gozar a vida não é nenhuma, muitos mudam de terra de cidade e os laços perdem-se. 
Restam assim muito poucas pessoas com quem estamos regularmente.
Quando te vais embora ainda manténs à distância alguma frequência no contacto na ilusão de acalmar a saudade e a lágrima de pena de já não poder ir à praia, de estar mais isolada sem amigos ou família. 
Passado uns tempos começamos a espaçar os contactos e chegamos ao ponto de só falar no Natal e alguns aniversários. 
Cais na frustração de estar sempre a telefonar como se devesses explicações ou para aliviar a culpa que te fazem sentir de teres decidido ir embora, porque os outros ficaram no mesmo sítio, não mudaram, não abandonaram nada nem ninguém, continuam na vida de queixume mas lá vão andando, dizem eles, rodeados de amigos mais ou menos sinceros, de relações familiares mais ou menos dependentes e tóxicas, enganosas e enganadas, da dor e consolo nos funerais de quem vai partindo, enfim...   
Notamos em quem ficou um desprezo, uma mágoa por os termos abandonado que nos querem fazer pagar com mais distanciamento ainda, além da intransponível distância fisica que já nos separa. 
Alguns sentem que já não os veremos vivos e chateiam-se com a dureza das decisões que separam e magoam! 
Não ficamos para o bem nem para o mal, não nos podem pedir ajuda ou apoio, não têm lata para pedir dinheiro emprestado, nem um beijo ou abraço podemos dar por isso descomprometemo-nos com quem ficou e nota-se zanga em respostas cada vez mais esporádicas e frias.  
Não se lembram que também nós, ainda mais nós, estamos mais sós e desamparados, a começar tudo de novo e tudo é diferente, casa, carro, trabalho, clima, comida, pessoas, hábitos, culturas, horários...e não podemos gritar a pedir ajuda porque do outro lado do mundo não nos vão ouvir nem compreender, acomodamo-nos por isso ao silêncio dos que estão lá longe sem cobrar e a tentar compreender e aceitar que coração que não vê não sente, o que só é verdade para quem quer que assim seja.  
Quem acho que merece continua a ter carinho da minha parte, pessoas que gosto ou a quem não quero mal apenas me basta saber que estão bem e fico descansada.
Curiosamente algumas pessoas que não da família revelaram uma preocupação fora do normal e verdadeiro desejo que tudo corresse bem mas se não estivesse feliz que voltasse que haveria lugar.
Não preciso de tocar ou ver para acreditar, basta sentir uma voz, uma lágrima ou uma gargalhada com verdade que já me sinto mais perto de quem quer que seja que me queira bem também. 
23
Jul20

Indecisões de uma tarde

Rita Pirolita
Vou-lhes chamar indecisões de uma tarde para conferir um certo romantismo a instantes de verdadeira tormenta que podem durar segundos ou meros minutos de uma tarde da nossa vida que pode não ser tão bem passada como isso.
Tudo fogo-fatuo da futilidade quando se vai experimentar roupa e talvez trazer para casa tudo o que não estávamos à procura e nada do que íamos comprar. 
Pegar em tamanhos que não nos servem por serem pequenos ou grandes demais. 
Indagamos se não nos andam a enganar com os cortes e medidas, antes não era assim, há 20 anos enfiava o pandeiro num 32, com a idade os ossos devem ter alargado ou preciso de óculos ou os espelhos vieram todos da desmantelada Feira Popular de Lisboa mas de certeza que não engordei! Isso é que não!
Na secção dos sapatos só os ténis costumam ser quase todos fofos e macios, salto alto por mais caro que seja, nunca é confortável e neste grupo está incluída a sandaloca aberta de verão, daquela tipo casamenteira em que passado 10 minutos de suor os dedos começam a escorregar e sofrem leve esfoliação do quente alcatrão ou refrescam com a cócega na relva? Nã!
Muitas vezes chego a casa de mãos vazias mas penso sempre quanto dinheiro não gastei ou poupei, nessas tardes de indecisão típica de período pré-menstrual!

 

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