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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

20
Nov19

Não sou boa pessoa

Rita Pirolita
 

Porque algumas actividades nobres e nada menores, não são remuneradas e vivem de voluntariado e donativos, como recolha e tratamento de animais abandonados e bombeiros voluntários?
 
Não sou altruísta ao ponto de adoptar uma criança.
Nunca quis assumir a responsabilidade de cuidar de alguém que vai depender de mim por muito tempo, tal como não gosto de assumir pagamentos a prestações. 

Seria capaz de ter 10 ou mais filhos se à idade em que perdem a piada, por volta dos 6, 7 anos, se tornassem independentes e mais tarde só nos encontrássemos para beber um copo e comer uns petiscos, numa convivência leve e esporádica.   
Os cães conseguem manter a graça até morrer e mesmo a sua dependência de outros, nunca é tão longa como a de um filho, que ainda faz o favor de se reproduzir e dar netos, que dão um trabalhão e dores de cabeça, principalmente depois de passar o tal estado de graça que passa a desgraça.
 
Como já disse não sou boa nestas coisas de ajudar à distância por uma causa, prefiro ficar quieta a ser ajuda de sofá, porque já sei que os abutres se abotoam e isto não é desculpa minha, infelizmente é a realidade. 
Não vou estar a alimentar quem come da desgraça, mas sou capaz de ajudar numa situação pontual, por impulso, de me revoltar por uma injustiça à minha frente, tal como sou incapaz de tratar mal seja quem fôr e dá-me nojo gente que bate e não respeita os velhos, que mal-trata e abandona animais, que viola crianças, as explora e mata ou lhes põe armas na mão, que 'rouba' crianças a famílias, com a falsa desculpa que serão para adopção e depois as retém até ao limite do tempo permitido, para darem lucro à instituição que as acolhe. 

Eu sei que não sou muito boa pessoa, podia ser melhor...e os que querem mostrar que são muito bons, o que serão???
15
Mai19

Jantares de amigos

Rita Pirolita
 
Começo já por informar que nunca organizei nem fui a nenhum jantar de amigos da escola mas tenho relatos que acredito serem muito fidedignos e tenho amigos que encontro de vez em quando, passado muito tempo, é quase o mesmo que os jantares mas sem comida pelo meio, um café talvez e é o suficiente para confirmar a decadência do brilho da juventude, aquisição de gestos lentos, olhos desiludidos e húmidos de tanto abrir a boca, corpo cansado e pernas inchadas, mãos desleixadas e queda de cabelo, mamas grandes e ancas largas, manchas na roupa e cheiro a alcool ou leite bolsado, cabelo oleoso, camisa por engomar ou t-shirt com buraquinhos de fim-de-semana, que o pessoal gosta de andar à vontade...
 
Nos jantares parecem hologramas, projectam o que não dá para esconder.
Eles põem o melhor e único fato que têm, como se trabalhassem num escritório, embora estejam desempregados desde que terminaram o curso, é o fato das entrevistas, elas lá se equilibram num salto alto que não usam desde 10 quilos e 10 anos atrás, disfarçam a dor de pés com um sentar rápido de quem está esfomeada, é maior que a dor de pernas quando passam a ferro durante 2 horas em pleno verão
O espanto e curiosidade começam logo na entrada do restaurante enquanto esperam uns pelos outros. Reconhecer algumas pessoas torna-se tarefa árdua de memória e perguntas ao colega do lado...'Quem é aquela? Nunca a vi tão gorda!' ou 'Grande avião, era a mais feia da turma!...'ou ainda, 'Ele ganhou barriga mas aqueles brancos dão-lhe charme.'
Quando já fizeram o reconhecimento de ADN uns dos outros, sentam-se e começam o jantar de menu e preço pré-combinado.  
Começam a vir para a mesa as histórias dos casamentos falhados, dos divórcios litigiosos, de saídas do vicio da droga e entrada no vicio do alcool, de quem morreu de acidente, overdose ou apanhou SIDA, de quem emigrou, quantos filhos tiveram ou deixaram de ter...
Os divorciados saem do jantar com contactos trocados para combinar encontros, na esperança de saltarem para a espinha de quem lhes escapou na secundária, outros voltam à vidinha tuga e eu nunca porei os pés num evento deste género, tenho desgraça que chegue na minha vida.
02
Mai19

Samouco

Rita Pirolita
Com o pretexto de almoçarada na zona ribeirinha, ali para os lados do Samouco, restou a inclinação para fazer asneira da grossa, dificuldade em dar com os sítios, em acertar com um local de jeito, nem que fosse para tomar um café e dificuldade novamente em sair dos mesmos sítios, que depois de revistos me deixaram...

Um amargo de boca, um cheiro distinto por zonas, a porco, vaca, cavalo e lixo que não se podia, poluição que baste de Famel Zundapp, cartazes de tourada a cair de tanta cola sobreposta, desgraça, abandono e desleixo, prédios inacabados da crise, gente velha a atravessar estradas a passo de caracol, lojas fechadas, casas caídas, desordem continuada na construção, entremeada por bairros sociais, os mais organizados e habitados, ruas cortadas, armazéns abandonados, uma praça de touros digna da mais perigosa fronteira mexicana, um terminal de barcos onde nem Judas perderia as botas!

Estes locais quase de uma só rua, calmos e saloios, depressa se transformaram num fim de mundo poeirento, sem gosto, apagado e sem carisma.

Enfim, naquela manhã nada profícua e muito assaloiada, vi coisas que cheguem para mais um ano de vistas lavadas noutros sítios.

Fiquei triste por esta gente abandonada e definhenta por arrabaldes e baldios.

Cheguei à conclusão que há dias que mais vale não sair de casa e não há melhor lugar para almoçar que no conforto do nosso doce lar!... 

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