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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

04
Ago20

Aquele cartaz maroto da traição

Rita Pirolita
Aquele cartaz maroto que foi espalhado por Lisboa a denunciar uma traição...
Já percebi que a maioria condenou esta atitude da mulher traída, até teve o bom senso de reagir negativamente à exposição da vida privada e tentativa de julgamento em praça pública por difamação e devassa e reconhecer que a amante não é inocente e o homem envolvido muito menos, foram até ao ponto de lembrar e bem que os homens também sofrem quando são enganados!
Até aqui tudo bem e os comentários que li ficaram por estas ideias mas eu acrescentaria:
Primeiro, nunca se esqueçam que homens e mulheres não são seres monogâmicos e que o amor, a possessão e o casamento tal como o vemos hoje em dia é uma construção tão espartana que leva à mentira e hipocrisia, nós somos afecto e dedicação animal livre talvez mais naturalmente que compromisso contra-vontade e castrador. 
As relações estão baseadas num controlo da sociedade, das heranças e propriedade privada e as pessoas tratam-se umas às outras como imóveis e quando se movem dá merda, porque não sabem agir com trasnparência e integridade. 
A traição é fruto de desamor próprio e isso reflecte-se na dor provocada no outro que também não se gosta porque se promete uma coisa e se faz outra!
Porque não começar a fazer o que se diz e sente?... 
Afinal a verdade da convivência pacifica está na sinceridade e coerência connosco próprios e não no compromisso de exclusividade ou promessas a outros, já sabemos que até em política dá sempre merda!
12
Fev20

Quem não?

Rita Pirolita
Quem não? 

Sentiu desprezo portas dentro, viu compaixão cega e ajuda oferecida a quem não merecia, abuso de laços de sangue, desrespeito, humilhação e domínio em troca da comida que vai à mesa.
A qualquer movimento dizem que não fazes mais que a tua obrigação que não precisam de saber se simplesmente estás bem, se precisas de alguma coisa mas apesar de não prestares para nada e não mereceres, até te dão os Parabéns todos os anos e telefonam pelo Natal em jeito de missão cumprida. 
Os filhos têm a obrigação de se preocupar com os pais, de lhes obedecer e nunca pôr em causa os seus infalíveis métodos de educação, uma chapada nunca fez mal a ninguém e a violência preenche o dia-a-dia à falta de melhor, num lar sombrio que baste. 
Quando sais de casa não há olhar para trás, não há lugar a lágrimas de saudade que te enfraqueçam.
Ao mínimo pedido de ajuda em passageira dificuldade, vão-te fazer amargar cada palavra de apoio e cada tostão será cobrado, não socumbes por orgulho e segues sem amparo. 
Podia ser eu, a continuar o mesmo tipo de vida mas não, sou eu a contrariar, a evitar percurso tão errante e vicioso. 
Se tivesse rodeada de simples cuidado e bondade seria hoje mais assertiva, livre e menos defensiva.  
Neste caminho que vou correndo, a fugir de gente que me atinja com malvadez e desamor, quem me fez nascer desistiu de viver por cansaço de tanto desleixo e frieza miserável...
Quem ficou tem no meu olhar a acusação e o julgamento da culpa que não sente, com quem tenho que conviver por pena e que pensava eu me fizesse mais forte e melhor, mas apenas me aumenta o nojo.  Não sinto previlégio no sofrimento, não quero ver pena nos olhares, não me é permitida saudade ou luto nem queixa por injustiça, apenas aceitação de uma vontade doente que se cumpriu e me venceu.
01
Fev20

Vítimas do desamor

Rita Pirolita
 
Tenho vindo a experimentar uma mudança grande nesta fase da minha vida a caminho da menopausa, essa cabra como tantas vezes a chamo mas ela apenas e só cumpre a sua função e até agora tem sido uma operária muito discreta, "BenzaDeus", que continue assim até à reforma que eu prometo compensá-la com um adeus digno para sempre!
Este período, coisa de que espero livrar-me dentro em breve, tem sido repleto de transformações que são novidade, como foi a adolescência, não tão radical a nível físico mas a nível psicológico e de atitude está a ser dasafiante. 
Estou a aproveitar cada passo que dou para evoluir e agora faço-o com muito mais consciência e até prazer, dado que me apercebi mais da relatividade, incongruência e fragilidade da vida. 
Estou a assumir traços da minha personalidade, que de alguma forma por serem muito fortes, tive que refrear em nome de aparências, que o comum mortal inserido no sistema, trabalhador e cumpridor, tanto aprecia.
Chego à conclusão que exteriorizar e assumir me faz muito mais feliz, não preciso de aprovação contínua como se estivesse sempre sob escrutínio e não ligo a dedos apontados ou cochichos! 
Já tudo fazia parte de mim em potência mas agora perdi a pouca vergonha que tinha para o escrever!
Menopausa, o caraças...estou é a aprender todos os dias, a acumular experiência e a livrar-me do que não presta...estou a envelhecer!
Assumo que sou muito social, simpática e divertida, em contactos condenados à partida a serem fugazes, superficiais, de ocasião e momento, tenho a garantia que vão acabar e não tenho o compromisso de conhecer mais quem não me aguça a curiosidade. É bom que as coisas fiquem pelo passou-bem, nome, conversa sobre o tempo e adeus até um dia ou nunca mais, porque me vou esquecer com quem estive.  
Sou marcada por acções e momentos pontuais, a contínua alimentação de amizades diárias e profundas é cansativa, trabalhosa e de cobrança vampírica, tudo por subversão dos envolvidos, nunca por culpa da pureza do sentimento em si.
Esta sou eu na minha coerência e sinceridade para comigo, tenho uma memória cada vez mais selectiva e sou daquelas que em vez de viver na cidade e dar uma escapadinha ao campo quando precisa de desanuviar do reboliço, prefiro viver num deserto de planícies, quanto muito com umas dunas, a minha paisagem favorita e quando me apetecer, estabeleço contacto com outros seres humanos, o que raramente se verifica!
Cada vez menos procuro a proximidade ao vivo e a cores com gente, não tenho curiosidade na surpresa nem fujo da desilusão constante, deixo fluir, quem tiver que conhecer, lá me cruzarei! 
Não que eu despreze o ser humano, desprezo algumas existências mas também não dependo delas para a minha sanidade mental pelo contrário, infelizmente nos dias que correm, para me sentir limpa e integra tenho que me afastar da sujidade humana que graça em mentes alienadas, odiosas, indecisas, vazias até... 
Partilho espaço e vivências com alguém que acabou por chegar também a estas conclusões velhas e gastas mas no entanto fascinantes quando vividas, sentidas e postas em prática, esse alguém respeita o meu caminho porque também sabe muito bem o seu.
Neste aspecto cumpro os requisitos de bom uso das redes sociais, não me refiro ao anonimato, que não muda em nada o que penso ou expresso, sendo tudo assumido, mas refiro-me à distância que me proteje do compromisso falso com gente perdida, que facilmente bloqueio. Não tenho paciência e não me interessa investir em discussões que não me levam a lado nenhum, com gente que além de não perceber, muitas vezes ainda faz pior e teimosamente, não quer perceber!
Não entendo por isso a humanidade...
Passamos de uma fase de peace and love deixada pelos anos 60, para a fase do superficial e descartável, de relações fátuas e procuramos atabalhoadamente ansiosos, a profundidade e nobreza do amor em impessoais e frios contactos em redes sociais. 
A mim agrada-me este contacto global e disperso, para me informar ou desinformar, para aprender ou me irritar mas também o inerente distanciamento que uso em pleno, no entanto a maioria parece andar baralhada e não saber o que quer nem onde procurar...e o que essas alminhas se queixam da sua condição, que nem desgraçadas vítimas, do desamor dos tempos que correm?!
 
02
Dez19

Vitima nunca

Rita Pirolita

A violência doméstica continua na ordem do dia. Vou falar dela pela perspectiva de quem já viu e viveu alguma coisa e está alerta para não repetir erros de outros ou deixar prolongar situações pouco agradáveis por comodismo.

Ao mesmo tempo que se alerta para a importância da queixa, o não sentir medo ou vergonha de expor a situação, por outro lado a sociedade empurra no sentido contrário, silenciando com criticas e rótulos quem sofre este tipo de violência tacanha, encurralando a vítima num beco de silêncio e solidão.

O agressor será sempre alguém sem escrúpulos que não tendo respeito por si também não sabe respeitar a integridade e espaço dos outros e cuja única forma de amar que conhece é doentia, agressiva, dominante e humilhante num desespero de esconder a sua própria insegurança e complexo de inferioridade. Atacar antes que o ataquem.

A vítima por outro lado, também ela mal amada ou nunca amada, sempre incrédula e descrente na felicidade, que não  se sente no direito de viver, que é demais para agarrar, que não merece e não lhe pertence. A dor e mal estar são constantes num comodismo quotidiano.

Assim se convencem que têm que aguentar o sofrimento como uma cruz que carregam, segredado a algumas pessoas para angariar defensores da sua causa de comiseração e queixume, única forma de ter alguma atenção e pena, como um animal ferido que sorve parcas e mesquinhas manifestações de carinho e preocupação dos outros, que estão mais interessados em saber o que se passa do que em denunciar a situação ou mesmo ajudar.

No fundo tanto o agressor como a vítima sofrem do mesmo mal, baixa auto-estima e desamor, um manifesta isso com ódio, o outro com medo e submissão. 
Se estas pessoas se cruzam na vida, a violência continua entre quatro paredes, com umas queixas aqui e ali, até um desfecho algumas vezes macabro.

Estas famílias direcionam toda a sua energia para o desentendimento e ficam assim alheados do resto, não conseguindo proteger os mais vulneráveis desta vivência. 
Os filhos ou vivem e acumulam revolta e ódio generalizados por todos os que se aproximarem deles ao longo da vida, encontrando a melhor oportunidade para exorcizar este ódio nas relações intimas que vão tendo e destruindo, ou conseguem quebrar este ciclo, nunca incólumes de todo mas com a sanidade e clarividência suficientes para mudarem o curso das suas vidas, não voltarem a cometer os erros de que foram vítimas e conseguirem relacionar-se com o mundo de uma forma integrada, de partilha do melhor e esquecimento do pior.

Agressor e vítima só coexistem se ambos derem espaço um ao outro. Sem vitimização da vitima, o agressor dilui-se e perde força.

Gente criada com carinho e dedicação tem meio caminho andado para a felicidade, gente criada com pouco e mau,  não deve desperdiçar muitas oportunidades para iluminar os cantos escuros da alma, que todos temos. 

 

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