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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

25
Jun20

No silêncio da depressão

Rita Pirolita
Parem lá de lamentar a morte de quem é vítima de si próprio, responsável pela sua prisão e/ou libertação, pelo seu acto de covardia e/ou coragem!

Respeitemos essa liberdade.

 

Ter pena das vítimas do silêncio da depressão, não é mais que ter pena dos que ficam, abandonados ao pensamento da tristeza e forçados a continuar até à sua morte. 

 

A guerra, a fome, a inveja, a ignominia, o egoísmo, a ignorância...também são silenciosas e dolorosas e matam, corroem, consomem, delapidam...

 

Quantos já não pensaram em se matar ou matar outros? Todos?! Eu já!

Sou ou estou deprimida? Não, nem por sombras mas quanto mais noção tenho da falta de sentido da vida, da inexistência de um Deus ou altruísmo da humanidade, mais plenamente aproveito e prezo, desprezo e volto a adorar, odeio, praguejo, revolto-me, isolo-me, esperneio, gozo, sou feliz e triste.

 

Só espero fugir da morte nos intervalos do vazio, é isso que faço sem pudor de admitir que sou bipolar, esquizofrénica, equilibrada, histriónica, solitária, rebelde, mansa...

 

Quando não conseguir lidar comigo ou estiver cansada de mim, despeço-me, até lá estou tão entretida com a minha existência neste mundo de merda, que rio e choro, amuo e amo, vivo e morrerei!
10
Dez19

Contos da Estrelinha Serigaita - Quando eu vim para esse mundo...

Rita Pirolita
Às vezes ponho-me a pensar cá de uma maneira, quase a queimar fusível!
Antes que dê curto circuito ou se estrague vou pondo para aqui.
Cada vez vejo mais desgraça a rodear-me neste mundo, perante a qual cada vez mais me sinto impotente e da qual cada vez mais quero fugir. 
Se não vir ou souber, não me sinto participar, nem culpa nem responsabilidade, como aquela que em cima me puseram, sem eu saber ou me perguntarem se queria, quando vim para este mundo, mesmo sem me chamar Gabriela.
A mãe pariu-me, uma gata sapata, chupada como ela de tanto vómito na prenhice, passariam para mim os enjoos até hoje, também me quiseram passar missão de salvadora de união talhada com Lucifer como padrinho, discórdia o seu nome do meio, acabando em desgraça hedionda mas até lá, tinha a mãe doméstica, tempo de sobra para se entregar a especulações do mundo das trevas, que o pai era assalariado ocupado, em tempo de horas-extra bem pagas!
A mãe nunca reconhecendo que se embeiçou pelo amor errado que lhe batia e partia a casa, que a violava e enchia de nomes, que a deixava à mingua de comida por gastar em putedo e me punha na rua com ameaças de morte de faca apontada ao gasganete, meteu na cabeça que a minha vinda ao mundo iria derreter o coração de qualquer sociopata, fazê-lo redimir-se e unir o que sempre permaneceu apartado. 
Nasci assim, com a incumbência de iluminar o caminho do amor celestial, em adultos que deviam saber melhor que eu, aquilo que devem quebrar ou continuar.
Apesar da minha feiura e escanzelice, a esperança manteve-se, até começar a mostrar uma independência, desapego, frieza e convicção precoces, típicas de quem assim vive, no meio de adultos confusos e irresponsáveis! 
As ervas daninhas também dão flor.
Vendo a mãe que não me revelei santa, culpou-me da mistura de sangue que fez.
Levava-me ao engano, pelos cabelos e querendo eu ficar a brincar na rua, lá era arrastada para bruxas e bruxos de lés-a-lés do país, para que confirmassem que estaria possuída e assim me pudessem culpar da discórdia que afogava os meus dias.  
Habituei-me a certa altura a não ir ao médico, que não me iria de certeza diagnosticar depressão ou anormalidade, isso não serviria de desculpa para a culpa do inferno!
Andei de terriola em terra ou cidadela, nas férias, alguns dias eram reservados a espíritas nos arredores de Lisboa, que me consultavam sem eu abrir a boca, que me receitavam rezas e misturas de ervanária, sem contar com as vezes que a mãe usava apenas a minha foto, como presença suficiente para escarafunchar a minha alma, visto estar em dia de escola, pagaria metade ou dava o que pudesse, como muitos pediam para parecer que não pediam e assim passavam por benfeitores a prestar serviço gratuito.  
Vi gente de olho revirado, boca esgaçada, de ares arrotados em estridente exibição nas salas de espera, seriam algumas primas ou vizinhas contratadas que ganhariam uns tostões pelas convincentes representações de exorcismo, possuídos achaques e mau olhado, gente torta que se punha direita, defumadoiros, chás, velas e ervas! 
Quanto mais eu berrava que não acreditava, mais maldição e peçonha me atribuiam! 
As tias de Trás-os-Montes aprovavam tudo isto e sugeriam cada vez mais casas de consulta esotérica, locais de culto com filas enormes à porta do salvador, onde apareciam emigrantes das Franças, a contar histórias de maldição curada com burburinho de relambórios, santas e amuletos compradas por centenas de contos.
Vinham de todos os cantos para limpezas de casas, da alma, do corpo, dos nados mortos e dos que viriam planeados ou por azar, por desgostos aos amores, ao jogo, traições de família, males de inveja e cobiça, banhos de sal e água benzida...
Tirar encostos, obsessões, mau estar, ossos e menstruações fora do sítio, olhos vesgos, deformações, aberrações e somos todos tolos nestas peregrinações. 
Uns bruxos viviam em calabouços de paredes a chorar humidade, em lugarejos inóspitos, onde as pedras vomitam musgos de verde musgo-veludo-felpudo, outros viviam em mansões assombradas de vazias, com eco em salas gigantes, frias de tijoleira mortífera-escorregadia, ofertas inusitadas espalhadas pelo casarão, até cavalos e carros, além de toneladas de ouro e dinheiro. 
Assim se rendiam os ignorantes ao encanto do sábio, que só tem um olho mas sabe muito, encena passagens de espíritos pelo corpo, com arrepios de teatro, abano de cão com água, reviro de olhos, arroto de sapo, asneiras e impropérios em voz grossa cavernosa, baba e gestos destrambelhados de velha gazeada, despenteiam-se, suam, choram de sofrimento e maldição e riem-se de gozo mafarrico, da bondade do Santo a quem rezar. 
Alguns fazem caretas, outros olham fixamente para te ameaçarem de pestana arregalada e assim te renderes, perante a vergonha de não acreditares e a falta de coragem de denunciares. 
Ai se começo a gritar, agarrada ao meu sexo, mais louca que os tolos, sou expulsa e irrecuperável para todo o sempre, como maldição para o negócio!



22
Set19

Eu sou...sei lá

Rita Pirolita
 
Quem leia os meus textos pode pensar que sou louca, que me estou a marimbar para tudo, que não levo ninguém a sério nem a mim própria, que me rio de toda a gente mas nem toda a gente se ri de mim.
 
Eu sou tudo isto num comportamento bipolar de riso, choro, depressão e euforia.
 
O que querem? Nasci para ser rapaz, saiu miúda, para me portar bem espontaneamente sem exemplos de boa educação, para não ser artista que isso não dá dinheiro, para tirar um curso e ter filhos de alguém da classe média alta.
Nada disto até agora, nem à vista.
 
Outros ainda podem pensar que destilo ódio numa escrita com raiva e sofreguidão ou que sou acutilante com poucas ilusões mas muitos sonhos. Que sou poeta da banha da cobra ou prosista das causas pequenas e pequeníssimas.

Também posso ser tudo isto mas de certeza sou aquilo que escrevo e muito mais, com muita pressa de aprender e menos de envelhecer.

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