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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

29
Nov19

Mete nojo aos cães

Rita Pirolita

A única coisa proveitosa que a idade me tem trazido é uma capacidade galopante de ver coisas estúpidas em tudo, de fazer piada de quase tudo, de me rir da palerma que sou em levar a sério o que é passageiro e finito, a vidinha, ela própria!!! Essa bitch, que de resto com a idade só me vai trazendo num crescendo massacrante, desgostos em forma de dores nas costas, joelhos e ancas, incontinência, rugas, mamas e nádegas descaidas e moles e por ai fora numa lista interminável de decadência.
 
Digam lá se o melhor remédio não é rir e deitar o mau aspecto que cada vez mete mais nojo aos cães, para trás das costas?!
15
Mai19

Jantares de amigos

Rita Pirolita
 
Começo já por informar que nunca organizei nem fui a nenhum jantar de amigos da escola mas tenho relatos que acredito serem muito fidedignos e tenho amigos que encontro de vez em quando, passado muito tempo, é quase o mesmo que os jantares mas sem comida pelo meio, um café talvez e é o suficiente para confirmar a decadência do brilho da juventude, aquisição de gestos lentos, olhos desiludidos e húmidos de tanto abrir a boca, corpo cansado e pernas inchadas, mãos desleixadas e queda de cabelo, mamas grandes e ancas largas, manchas na roupa e cheiro a alcool ou leite bolsado, cabelo oleoso, camisa por engomar ou t-shirt com buraquinhos de fim-de-semana, que o pessoal gosta de andar à vontade...
 
Nos jantares parecem hologramas, projectam o que não dá para esconder.
Eles põem o melhor e único fato que têm, como se trabalhassem num escritório, embora estejam desempregados desde que terminaram o curso, é o fato das entrevistas, elas lá se equilibram num salto alto que não usam desde 10 quilos e 10 anos atrás, disfarçam a dor de pés com um sentar rápido de quem está esfomeada, é maior que a dor de pernas quando passam a ferro durante 2 horas em pleno verão
O espanto e curiosidade começam logo na entrada do restaurante enquanto esperam uns pelos outros. Reconhecer algumas pessoas torna-se tarefa árdua de memória e perguntas ao colega do lado...'Quem é aquela? Nunca a vi tão gorda!' ou 'Grande avião, era a mais feia da turma!...'ou ainda, 'Ele ganhou barriga mas aqueles brancos dão-lhe charme.'
Quando já fizeram o reconhecimento de ADN uns dos outros, sentam-se e começam o jantar de menu e preço pré-combinado.  
Começam a vir para a mesa as histórias dos casamentos falhados, dos divórcios litigiosos, de saídas do vicio da droga e entrada no vicio do alcool, de quem morreu de acidente, overdose ou apanhou SIDA, de quem emigrou, quantos filhos tiveram ou deixaram de ter...
Os divorciados saem do jantar com contactos trocados para combinar encontros, na esperança de saltarem para a espinha de quem lhes escapou na secundária, outros voltam à vidinha tuga e eu nunca porei os pés num evento deste género, tenho desgraça que chegue na minha vida.
08
Mai19

All-inclusive

Rita Pirolita
Veraneantes labregos que devoram o all-inclusive com gana de fim de mundo e sofreguidão de sem-abrigo.
Exorbitantes montanhas de camarão, puré de batata, hambúrgueres e douradinhos, que terminam num cocuruto de três e mais molhos em verde fluorescente, vermelho sangue pisado e branco deslavado. 
Pratos de somente amarelas frituras, batatas em palito, às rodelas douradas e azeitadas, panados de tudo e mais algo, ovos estrelados, mexidos ou cozidos. 
Pequenos-almoços de bacon, salsicha, ovo, feijão, pizza, frango, panquecas, queijo, ketchup e outras mais coisas de vómito, salpicados de frutas tropicais numa amalgama de nojo. 
Pais que deixam os petizes entupir-se de parvoíce, devaneios de azeitonas e pepino, rematados com cereais e iogurte. 
 
Ninguém sobrevive muito tempo a comer tudo isto, todos os dias, a entupir-se de colesterol e diabetes, aqui se apanham os que vieram da pobreza e gozam agora das férias popularuchas em sítios que já foram paradisíacos e passaram a brejeiros de brega...
Entrego-me à inquietação do wasabé, ao salgado cortante das alcaparras, à acidez da lima e ao desinfecto coentro.
Mulheres com mamas à frente e outro par nas costas, barrigas dilatadas, descaídas e gelatinosas. 
Mastodontes que se sentam à mesa com maneiras de princesa bela e magra que nem pena cálida, pretensa delicadeza de um peso pluma e abertura frugal de boca de passarinho, como se aquela grandeza de banha, dos excessos de 1º mundo, não fosse fruto de insistência diária de alarvice, que vai do mais processado às desculpabilizantes incongruências de uma tiróide baralhada e um pâncreas à deriva, porque até comem pouco e acompanham tudo com lighteza e pickles como o verde do dia. 
Gente que só se entende aos urros no meio de música gritada e bebedeira debaixo de sol escaldante, de cachaço empolado, de molho, no mijo do bar da piscina. 
Benditos empregados que sabem da profissão e amansam os estridentes bêbedos com shots da pior surrapa que guardam na garrafa que bem sabem, preparada para deitar abaixo titãns de férias em grupo e oferecer-lhes uma boa dor de mona na manhã seguinte.
Velhos das sete da manhã a marcar cadeiras com chinelos e toalhas presas por molas em feitio de golfinho ou estrela-do-mar, para passarem o dia no laró e só porem os cotos na praia ao pôr-do-sol, a recolher o aparato que não usaram.
Senhorecas que se aperaltam para se irem servir num buffet, e terem o baixo prazer de um empregado sem pescoço e suado, lhes servir um vinho frisante de má qualidade nada duvidosa e as tratar por ladys ou madames.
Ouvir falar alemão logo pela manhã, arranha-me o cérebro como cães raivosos de boca espumosa. 
Ingleses expressamente mal-educados de bairros sociais. 
Casais russos que parecem em acesa discussão a toda a hora e a cada olhar, a qualquer momento espera-se uma carga de porrada do quadrado marido na loira esposa.
Seres de olhos em bico, sem expressão, sem respeito, invadem, falam alto, passam à frente como se não houvesse amanhã...se não saíssem da terra deles, não lhes sentiríamos a falta.
Por estes sítios todos fazem de reis, que por pechincha querem coisa fina.
Quem complica o simples merece castigo e desenterias.
E assim descubro mais vezes do que queria e precisava, que a minha salvação e de muitos em meu redor...é não ter uma arma nas mãos!
Obrigado aos participantes deste circo, turistazecos borgessos que deram origem a este texto de escárnio e mal-dizer e dos quais passei os dias a fugir sem não antes, apreciar de relance a decadência dos feios bichos que somos.
 
Boas férias até ao fim do mundo!

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