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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

01
Jan20

Cassiano, o cigano

Rita Pirolita
Em uma vez que não mais se repetiu no mundo e arredores, em local escusado de nome, perto da capital e cheio de fedelhos grilantes, dois ciganos corpanzudos assumaram-se das carnes ainda não voluptuosas da menina, viram no seu futuro, mulher empertigada, a urdir antecipado amansamento, mesmo antes da virgindade ida.
Lambuzaram-lhe a cara lavada, esfregaram as bochechas de mofoso fumeiro no seu cabelo, roçaram corpos, apalparam e levantaram saia e antes que baixassem as cuecas de flores miudinhas, a petiza escapou-se que nem cobra de veneno retraído, para desesquecer com memória contida e trancada só a 6 chaves.
Todos brincavam na barraca abandonada ao fundo da rua, terminada em réstea de pinhal prisionado em floresta de cimento e hortas.
Pela casinha passaram bonecas e os primeiros beijos, manteve-se firme com a brincadeira, passou sem alguém dar conta de se lembrar, a casebre de promessas de impuro deleite e adulto deboche. 
Alguém que não visto, pintou em letra dançante, na porta de beiça torta "Fecha os olhos, sou invisível". No seu único compartimento de cheiro a pó de traça, olhava-nos um buraco por altura das virilhas, do tamanho de meio punho, incitava não ao espreitamento mas ao vazamento de fluídos, pintado o seu rebordo de côr pele-rosácea, emanava um aroma quente-viscoso-doce-fermentado, a elixar as feromonas do imberbe e desajeitado desejo juvenil.
Sabido que era só para rapazes, as meninas mantinham-se afastadas do cheiro que se igualava à sua própria boca do corpo.
A notícia do másculo prazer, espalhou sem segredo e pouco pudor.
Sem importância dada por adultos, na imaginação dos rapazolas, havia uma Ninfa, que cuspida dos mares dos Lusíadas, debochada e que não se deixava vislumbrar, oferecia gratuíta lascívia húmida, por uma craterazinha de prazer. Havia relatos de até umas pernas rechonchudas se sentirem a envolver as ilhargas suadas de calça desleixada nos tornozelos!
Os relógios foram deixando redondar ponteiros e em tempo calculado, foi oferecido ambrósio repasto para depois do prazer, jaziam espalhadas abóboras-fogo-paixão, de pé hirto a despontar de regos sugestivos, talhadas de melância menstrual e uma garrafa de tinto brilhava ao fugacho balançante de vela ibiscosa, o tépido calor saia das frestas corroidas. O inexperiente mancebo, sequioso de alcool e sexo, penetrou o buraco quantas vezes a guelra o deixou, empantorrou-se e avinhou-se, até o encontrarem de barriga-pedra, jazido de olho esbugalhado e parado a mirar a perniciosa abertura. Levaram-no em maca, apagaram a vela para não incendiar o ninho dos curiosos e por trás do casebre, quem viu, relata uma imensidão de melancias e abóboras desvirtuadas e esburacadas na sua redondeza.
O cigano Cassiano fugiu enfurecido do hospital ainda de membro peganhento e doce mas logo acabrunhou com a vergonha que o açoitou por uns bons tempos, por quase ter morrido por um buraco, vinho e melância!

 

30
Abr19

Vazio sem silêncio

Rita Pirolita
Em dias quentes de verão é bom passar por escolas em férias e gozar o silêncio de recreios com gritos mortos do ano que terminou, chão fértil para gritos vivos do ano que se segue. 

Motéis que passam a nada no meio do nada por falência ou rotas abandonadas, palco de assassinatos, dealers, prostitutas, escapam pelas paredes caídas, gritos de prazer, gemidos de choro e deboche.

Esqueletos de fábricas, estaleiros e centrais nucleares, contorcem-se em ferrugem e suor cancerígeno.  

O deserto deixado pelos sacrifícios da guerra, o choro de experiências em hospícios, os gritos incómodos e desesperados de almas sofridas, perdidas no limbo da loucura que se agarram aos nossos braços em jeito de boleia, nos dão a mão a pedir carinho e compaixão e nos deixam um nó na garganta de impotência para mudar o passado.

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