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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

08
Ago20

Larry Nassar, sofre ou não?

Rita Pirolita
"Larry Nassar é condenado a 175 anos de prisão por abusos..."
E assim começam quase todas as noticias recentes, sobre este crime prolongado demais no tempo com nefasta cumplicidade de quem sabia e se manteve no silêncio!
Agora reflectindo a sério:
Acham que o detido encara a sentença com a severa culpa que todas as vitimas querem e desejam? 
Na cabeça do acusado e condenado, não ficará o castigo aquém da frieza presente nos crimes e nunca perto da intensidade de sofrimento das vitimas? 
O que interessa mais? 
Atenuar o sofrimento das vitimas directamente envolvidas e colaterais, aumentando o grau de vingança ao pensar no castigo aplicado ou saber até que ponto ele tem consciência da enorme dor que provocou, que o faça sofrer tanto de arrependimento que lhe apeteça desaparecer da face da terra?
Pelo pouco que sei e pela ausência de expressão que vi na leitura da sentença, estas são as pessoas que não têm vergonha, se não a tiveram quando praticaram os actos não a terão agora que estão impedidos de os perpetrar e apenas têm tempo de sobra para se entregar aos seus hediondos pensamentos, que nunca irão mudar nem sair-lhes da cabeça, só quando morrerem! 
Até lá, na prisão estarão protegidos mas não imunes a si próprios e à ira de outros!
22
Jul20

A culpa do luto

Rita Pirolita
Como se faz um luto? Só quando se chega lá se sabe. 
Todos podem querer ajudar mas é melhor que se apercebam da incapacidade e impossibilidade para o fazer, porque o luto é pessoal e intransmissível, não para gáudio de quem o sofre sem orgulho nem afronta de firmeza!
O luto de quem morre novo, em sofrimento, de repente, esperado, desesperado, velho mas boa pessoa, irmão, melhor amigo, quem nos cria...
Sem pedir ajuda, ninguém se ofereceu por terem visto força maior para aceitar, assim se acharam diminuídos! 
A quem culpar? Alguém ou ninguém? 
Quem subtrai a própria vida não fica para acusar ou até dizer que fez da culpa dos outros a sua dor e por isso se libertou desse peso?!
Um luto forte e chocante agarra-se para sempre todos os dias na recordação e ajuda a preparar e atenuar a angústia dos vindouros! 
Era só isto, fiquem bem e que só os maus se suicidem ou nem vivos cheguem a este mundo! 

 

14
Jul20

Sem previsão ou razão

Rita Pirolita
Farta de me esquecer dos sonhos que tenho vou acertando na realidade, titubeante vou juntando cacos de vida, nem tudo liga à primeira e há tanta peça despernada, nem vos conto!...
Se me dissessem que seria assim, hoje como me sinto, não me lembro se o previ.
Isto a propósito da irmã de um amigo meu, para cujo casamento fui convidada.
Sem mais me sair da memória, reza assim o acontecimento.
Antes da noiva sair de casa chorou baba e ranho de arrependimento, o mano, sempre senhor do bom senso que até irritava, meteu-a no quarto e encarregou-se de lhe dizer que se chegou a este dia com um vestido, cerimónia marcada e convidados, não caiu de certeza do céu, foi ela que também foi programando e dizendo que sim ou nim a tudo, que não deitasse um namoro de 7 anos para o charco, com pais a frequentarem-se e os do lado da noiva com alguma sovinice, a quererem ver a filha bem casada com um homem de famílias com posses, assim não teria problemas monetários pelo menos, teve outros mais graves a meu ver!
Presenciei a cena do choro antes do casório com uma dor no peito, sabendo que aquela noiva, linda que nem uma boneca, uma bailarina de caixa, amava outro, o das artes, das danças como ela, almas mais próximas do que o caçador burgesso com quem ia casar, com ar de tasqueiro, a viver à sombra do amealho dos pais.
Em pleno copo de água as amigas para disfarçar a bebedeira que a noiva apanhou, enfiaram-na várias vezes no WC, estive lá algumas e vi-a passar a porta, de riso nervoso a choro de desespero, as amigas gritavam de loucura para abafar aquela tristeza que tão bem se via nos olhos marejados da noiva!
Presenciei tudo, com vontade de pegar na mão dela e tirá-la dali para fora, para que corresse para os braços do seu amor mas não, fui cobarde, além de ser amiga do irmão e conhecer bem os pais, se fizesse algo para impedir aquele sofrimento, ninguém me ia agradecer, nem a própria talvez.
Apesar de nunca pensar que ficassem o tempo suficiente para ter três filhos, ainda o mais velho era adolescente e o mais novo muito novo, ironia do destino, quando ela já se tinha acomodado a uma família e deixado talvez de sonhar em concretizar o amor da vida, adivinhem o que aconteceu, o bazófias do marido, abandona a rapariga e embeiça-se pela empregada do restaurante que tinha.
Fogem para o Sul, ficam todos a condenar a atitude de merda e a dar apoio à irmã do meu amigo que se viu a braços com a educação de três miúdos.
Sinto uma pontinha de culpa mas ela deve sentir uma enorme frustração de vida perdida que alguma coisa boa deixou, os filhos, que se espera saiam à mãe e não atirem ao pai!
14
Jul20

Palpites palpitantes

Rita Pirolita
Nas redes sociais onde me sinto confortável com a distância e consequente frieza de poder dizer tudo sem me lançarem olhares paternalistas de reprovação, que por acaso sempre detestei, acham-se superiores para me lançarem facas pelos olhos e tentarem irremedialvelmente pôr-me no lugar?! 

Pois aqui deixo algumas considerações para os coninhas pagodeiros e pregoeiros da família, do amor e amigos forever.

A família para mim foi o pior exemplo de felicidade, destruiram o meu ânimo por uns tempos, até eu deixar, puseram-me no mundo para me dizerem que não devia existir e assim descarregarem as suas frustrações em comparações humilhantes, não causando eu problemas a ninguém achavam que tinha espaço de sobra para me puderem complicar a vida e consumir o meu tempo a levar com os defeitos e maldade dos outros, até que coloquei um travão e me largaram as saias. 

Pasmem, não sou a única, existem muitos, diria que a maioria vive estas situações, uns não se apercebem e outros andam convencidos que para terem apoio, não se sentirem desamparados e até sobreviverem, têm que aturar a tribo, sofrer as suas investidas e abusos de confiança que surgem sempre após convívio frequente, imposto por leis imaginárias da união que faz a força, quando muitas vezes o melhor seria ser órfã de seres e filha apenas do mundo. 

Quem não gostou de ser filha não tem que vestir a pele de mãe!

Se muitos assim vivem, eu devo ser das poucas que deram um pontapé nesses enganos e já foi tarde demais, mesmo assim não me livrei de tudo, vou continuar com um passado negro a morder-me os calcanhares. 

O meu pai levou a minha mãe ao suicídio, convivo com ele muito amiúde e quando acontece faço-o com muito nojo, ele sabendo do meu sentimento tenta limpar e fazer-me esquecer, não consegue nem conseguirá até ao fim da sua e da minha vida. Ainda tenho dó dele quando o vejo constipado mas passado um par de horas começam os tratamentos de coice e arrependo-me logo!

Não pude obrigar quem me pôs no mundo, supostamente mais sábia e experiente, a mudar de vida, ofereci apenas a minha ajuda para acabar com uma união obsessiva cozinhada nos infernos, ninguém quis saber de pôr um ponto final, às tantas parece-me que as pessoas habituam-se ou ficam viciadas na adrenalina da discordia, não querem mudar, ficam mais confortáveis com o que já conhecem, mesmo que seja monstruoso.

Aconteceu e não me livrei nesta situação de perda de sentir o que todos pensam, que não cheguei a tempo, que não fiz tudo ao meu alcance para evitar tal desfecho, que não me apercebi do que aí vinha por andar distraida ou ocupada demais, sinto sempre culpa em algum momento de recordação do tormento, uma angústia corrosiva e cortante!

Eu vivo com a minha parte de culpa, real ou inventada, para me martirizar e assim cansar a inquietação! 

A minha vida dava um filme de terror, pensam alguns mas eu aceito-a como normal, com a naturalidade de me terem acontecido coisas que são deste mundo e acontecem a tantos outros, a muitos ainda pior!

Passaram-me genes amassados, sou fruta persistente mas pedrada que se agarra ao ramo para não cair e apodrecer no chão, sem não antes mostrar a raça da sua polpa na boca de quem a gosta!

Estão a ver como as redes sociais são uma catarse para mim que não procurei psicólogos para me venderem banha da cobra a peso de ouro, não falei com amigos, uns não aguentaram a minha desgraça por a reflectirem neles, se lhes acontecesse pensaram eles que dariam em loucos, outros julgaram e deram palpite, com pais destes afastar-se-iam para todo o sempre e o moço? Esse esteve ao meu lado em silêncio, à espera que eu fosse falando quando tivesse coragem, fui falando, pouco, sem quase nunca chorar mas não resolveu nada, sou eu que tenho que curar a minha ferida com aceitação muito forçada do que aconteceu.

Existe uma condição fisica e mental para cometer suicídio, mas tudo o resto que a ele leva não cai do céu. 

Agora que passei a dor de ver a minha mãe morta no meio de um pinhal, a revolta tem-se adensado e é com isso que estou a lidar.

Os amigos não se mantêm à distância, tal como os amores, quando emigrei deixaram de me considerar na lista, levei ao menos comigo o moço e sua amada amizade que tanto respeita o meu espaço como eu o dele, sabendo o quão preciosa e rara é esta atitude prezo-o muito! 

Não sou dada a olhares românticos sobre sentimentos humanitários, a este ponto da evolução se não fizessemos mal uns aos outros, se não fossemos egoístas e invejosos já era um grande avanço. 

Não entendo os que me tentam puxar à sua razão, a razão do peace and love sem drogas, os que me acham uma solitária sofredora, sem amigos, amedrontada e em defesa constante para evitar ser magoada? Antes diria que aprendi com o que passei e observo muito para não errar, seria burra se não o fizesse, se errar é humano, evitar o erro é superar-me e melhorar.

Prefiro ter esta visão do mundo e das gentes que nele habitam, brutal, desencantada e para alguns insuportável de tão crua, que andar a brincar às princesas pobres sem reino, nem altar ou trono. 

Não me venham com caminhos floreados, o sonho pode comandar a vida mas a vida não é apenas e só um sonho, é para ser vivida como melhor sei e me vão deixando.

Ao magoarem-me tornaram-me mais alerta, menos respeitosa e com menos consideração por quem quer que seja, apenas me sinto mais limpa estando mais só que acompanhada, parece que este bem estar é inacreditável e até uma afronta para quem não sabe estar sozinho e por isso também não sabe estar bem em companhia, não sabendo têm inveja de um estado de espírito solitário-depurador, acham que ameaçamos a coesão de uma sociedade, ela mesma completamente esfrangalhada sem solução à vista!

O convívio constante trava a minha evolução e aumenta o desânimo, o convívio esporádico, sem apego, liberta-me e ler os escritos, ver os filmes e outras obras de arte, ouvir a música de quem gosto, faz-me sentir que estou neste mundo sem no entanto lhe pertencer ou me deixar agarrar, com um pé cá e outro lá, onde nem eu sei bem!

Os valores de família e amor foram tão candidamente incutidos, sem exemplo palpável que acredita a maioria, não poder viver sem isso, caprichos esses de sociedade de primeiro mundo que não tem mais nada com que se preocupar além da fútil moda, perfumes ou carros.

Somos tão iguais na frieza como no sexo, na amizade ou no amor, embora sejamos mais verdadeiros nos actos que nas ideias romanceadas dos sentimentos!

Eu é que sou agressiva de tão directa e ainda continuamos a torturar gente e animais? Não faço mal a uma mosca mas poderia arranjar todas as razões que eu quisesse para o fazer!

Trabalhar, ter filhos para perpetuar uma humanidade balofa que se consome a ela própria, como doença auto-imune que se ataca e flagela, pagar impostos, ser um bom exemplo só para exibir, nunca uma constante de verdade, morrer e deixar nada que se veja, sem passar princípios de jeito a filhos que não veremos muito velhos, refinados no seu pior a serem tratados como mal trataram os seus, que construiram um mundo de beiça torta porque estavam ocupados demais para pensar no melhor a deixar aos vindouros, quiseram apenas viver à sua maneira, donos de um egoismo, prepotência e independência tão mas tão mesquinhas!...

Pasmem-se, os nossos pais querem que olhemos para o que nunca fazem e dêmos atenção ao que apregoam de peito aberto, estão-se a cagar para o mundo que deixam e isso é inegável, está à vista. 

Não se demitam da responsabilidade e troquem a liberdade por segurança, ao porem a culpa nos líderes que elegeram e porque são tão iguais a nós, têm a mesma falta de vergonha e pudor, em desviar olhar e não limpar a merda que todos fazemos!

Falem sinceramente com o vosso interior, deixem de ser mentirosos e perigosos para as vossas entranhas, assumam que amar não tem nada a ver com estas balelas, amar é não saber que se é livre, não estar amarrado à calhandrice do mundo que nos puxa para um inferno terreno que tanto custa aguentar, criado de fresco por nós sobre lixo velho todos os dias!

A humanidade começou e proliferou, porque fodemos uns com os outros e contém-se em números quase insuportáveis porque nos fodemos uns aos outros a cada minuto!

Se acham os ecuménicos, cisores do bem e do mal, falsos altruístas e filantropos-lamechas de trazer por casa como chinelos escafeados que para sermos um bom exemplo em nome do amor, devemos a todo o custo e até contra-vontade manter a coesão da família e o valor da adorável amizade, é porque não vivem neste planeta!

Ide-vos foder, só eu sei das minhas maleitas e o Universo nem sabe da sua própria (in)existência!

 

PS - Eu sei que podia e talvez devesse, dividir este texto em 2, 3 ou mesmo 4 partes mas assim quem precisar e estiver a jeito apanha já com a injecção de uma só vez nas nalgas, esperando eu não ser necessário que alguns levem com um dedo pelo cu acima para abrir a pestana e perceberem melhor!

Isto tudo para não me chatearem mais os cornos com conversas da merda de salvação e conversão de almas!

IDE PARA O C@R@LHO!!!

02
Abr20

Tribunal universal

Rita Pirolita
Partimos sempre da premissa que perante um crime, ainda para mais se for hediondo, ficamos mais descansados quando se apanha e condena o culpado, nessa sede de justiça popular, muitos são apanhados sem culpa e morrem numa cadeira de julgamento, para alívio da maioria foi feita justiça embora algumas vezes seja condenado o inocente e o criminoso continue à solta, não oferecendo descanso nem segurança nenhuma, quando por fim se descobre que a pessoa errada foi condenada. 
Afinal nunca estamos seguros e somos os nossos maiores predadores e agressores.
Nada disto foge, muito embora a uma escala maior, da condenação que muitos países fazem de grupos terroristas. Pensam os Presidentes, 'vamos lá castigar e apanhar aqueles malandros, só para que os eleitores sintam que estamos a cumprir alguma coisa do que prometemos e obrigar a trocar a invasão de privacidade por maior segurança.' 
Assim se arranjam os bodes expiatórios para todos os males do mundo.
Se as intenções fossem verdadeiras e honestas as guerras nunca existiriam mas supondo que já cá estando a desgraça como está, até queríamos acabar com a miséria no mundo?...
Teríamos que condenar os ditos maus e estes iam mostrar ao mundo quem os atirou para o abismo da confusão...
Os que vendem as armas e provocam ou adensam os conflitos são os mesmos que pela frente fingem querer resolver e condenar uma só parte do problema!
Já perceberam agora porque é mais fácil e rápido condenar sem olhar a provas ou culpar um grupo que não se pode apanhar por ser tão grande, impessoal e por isso sem um rosto para dar? 
Para mais, a sua condenação seria a condenação de todos nós, que contribuímos directo no cenário ou indirectamente por eleições, para alimentar esta hipocrisia! 
A mim parece-me que só será eficaz uma condenação, julgamento e castigo universais a que muitos chamam apocalipticamente de bíblica ou Juízo Final, consequência de uma catástrofe natural, que bem merecemos nos cornos!
O pior é que ninguém sobrará para contar, melhorar e seguir em frente, só o Universo continuará.
10
Dez19

Contos da Estrelinha Serigaita - Quando eu vim para esse mundo...

Rita Pirolita
Às vezes ponho-me a pensar cá de uma maneira, quase a queimar fusível!
Antes que dê curto circuito ou se estrague vou pondo para aqui.
Cada vez vejo mais desgraça a rodear-me neste mundo, perante a qual cada vez mais me sinto impotente e da qual cada vez mais quero fugir. 
Se não vir ou souber, não me sinto participar, nem culpa nem responsabilidade, como aquela que em cima me puseram, sem eu saber ou me perguntarem se queria, quando vim para este mundo, mesmo sem me chamar Gabriela.
A mãe pariu-me, uma gata sapata, chupada como ela de tanto vómito na prenhice, passariam para mim os enjoos até hoje, também me quiseram passar missão de salvadora de união talhada com Lucifer como padrinho, discórdia o seu nome do meio, acabando em desgraça hedionda mas até lá, tinha a mãe doméstica, tempo de sobra para se entregar a especulações do mundo das trevas, que o pai era assalariado ocupado, em tempo de horas-extra bem pagas!
A mãe nunca reconhecendo que se embeiçou pelo amor errado que lhe batia e partia a casa, que a violava e enchia de nomes, que a deixava à mingua de comida por gastar em putedo e me punha na rua com ameaças de morte de faca apontada ao gasganete, meteu na cabeça que a minha vinda ao mundo iria derreter o coração de qualquer sociopata, fazê-lo redimir-se e unir o que sempre permaneceu apartado. 
Nasci assim, com a incumbência de iluminar o caminho do amor celestial, em adultos que deviam saber melhor que eu, aquilo que devem quebrar ou continuar.
Apesar da minha feiura e escanzelice, a esperança manteve-se, até começar a mostrar uma independência, desapego, frieza e convicção precoces, típicas de quem assim vive, no meio de adultos confusos e irresponsáveis! 
As ervas daninhas também dão flor.
Vendo a mãe que não me revelei santa, culpou-me da mistura de sangue que fez.
Levava-me ao engano, pelos cabelos e querendo eu ficar a brincar na rua, lá era arrastada para bruxas e bruxos de lés-a-lés do país, para que confirmassem que estaria possuída e assim me pudessem culpar da discórdia que afogava os meus dias.  
Habituei-me a certa altura a não ir ao médico, que não me iria de certeza diagnosticar depressão ou anormalidade, isso não serviria de desculpa para a culpa do inferno!
Andei de terriola em terra ou cidadela, nas férias, alguns dias eram reservados a espíritas nos arredores de Lisboa, que me consultavam sem eu abrir a boca, que me receitavam rezas e misturas de ervanária, sem contar com as vezes que a mãe usava apenas a minha foto, como presença suficiente para escarafunchar a minha alma, visto estar em dia de escola, pagaria metade ou dava o que pudesse, como muitos pediam para parecer que não pediam e assim passavam por benfeitores a prestar serviço gratuito.  
Vi gente de olho revirado, boca esgaçada, de ares arrotados em estridente exibição nas salas de espera, seriam algumas primas ou vizinhas contratadas que ganhariam uns tostões pelas convincentes representações de exorcismo, possuídos achaques e mau olhado, gente torta que se punha direita, defumadoiros, chás, velas e ervas! 
Quanto mais eu berrava que não acreditava, mais maldição e peçonha me atribuiam! 
As tias de Trás-os-Montes aprovavam tudo isto e sugeriam cada vez mais casas de consulta esotérica, locais de culto com filas enormes à porta do salvador, onde apareciam emigrantes das Franças, a contar histórias de maldição curada com burburinho de relambórios, santas e amuletos compradas por centenas de contos.
Vinham de todos os cantos para limpezas de casas, da alma, do corpo, dos nados mortos e dos que viriam planeados ou por azar, por desgostos aos amores, ao jogo, traições de família, males de inveja e cobiça, banhos de sal e água benzida...
Tirar encostos, obsessões, mau estar, ossos e menstruações fora do sítio, olhos vesgos, deformações, aberrações e somos todos tolos nestas peregrinações. 
Uns bruxos viviam em calabouços de paredes a chorar humidade, em lugarejos inóspitos, onde as pedras vomitam musgos de verde musgo-veludo-felpudo, outros viviam em mansões assombradas de vazias, com eco em salas gigantes, frias de tijoleira mortífera-escorregadia, ofertas inusitadas espalhadas pelo casarão, até cavalos e carros, além de toneladas de ouro e dinheiro. 
Assim se rendiam os ignorantes ao encanto do sábio, que só tem um olho mas sabe muito, encena passagens de espíritos pelo corpo, com arrepios de teatro, abano de cão com água, reviro de olhos, arroto de sapo, asneiras e impropérios em voz grossa cavernosa, baba e gestos destrambelhados de velha gazeada, despenteiam-se, suam, choram de sofrimento e maldição e riem-se de gozo mafarrico, da bondade do Santo a quem rezar. 
Alguns fazem caretas, outros olham fixamente para te ameaçarem de pestana arregalada e assim te renderes, perante a vergonha de não acreditares e a falta de coragem de denunciares. 
Ai se começo a gritar, agarrada ao meu sexo, mais louca que os tolos, sou expulsa e irrecuperável para todo o sempre, como maldição para o negócio!



10
Set19

Ilusão vs sonho

Rita Pirolita
 
Há pouco tempo, num momento de torpor e preguiça de pensar, o que é muito raro em mim, nessas alturas prefiro ficar calada mas desta vez, numa voz sonolenta e arrastada tal como o pensamento, misturei, meti tudo no mesmo saco e troquei as voltas ou talvez não...
Tratei as ilusões como sonhos intangíveis. 
Ora, ilusões são de facto na sua maioria desilusões mais à frente e o sonho não o é se não for descabido e deixa de  ser sonho quando se concretiza. 
Tudo faz parte da vida, seja ela mais pragmática ou iludida. 

Uma ilusão pode passar a sonho mas uma desilusão passa a inferno que nos faz correr de raiva ou ficar no nosso canto como animal ferido. 
O sonho pode-se desfazer, concretizar ou ser substituído por outro, pode ser solitário ou acompanhado. 
Se o sonho a dois se desfaz, passa a decepção, culpa e insulto. 
Se a ilusão a dois cair, não é muito grave, é como passar a ponte sem pagar portagem.
 
O sonho é sério como um cantor de ópera e a ilusão pula como um palhaço. 
Nao sei qual escolher quando posso ter ambos, talvez estejam mais próximos um do outro do que eu julgava e o meu raciocínio entorpecido não está assim tão longe da minha verdade. 

Cada vez menos me iludo e tenho menos sonhos, as minhas projecções são tão terrenas e desprovidas de megalomania que não chegam a ser sonhos, que afinal dão tanto trabalho e eu quero o simples e o sereno sem ilusões.
Nao se avança sem sonho e quando se vive o sonho, desaparece. 

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