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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

19
Out20

Foi em Outubro

Rita Pirolita
Foi no meio de Outubro, mês de mudança, de sol baixo, envolvente e doentio de febre, de arrepio nocturno e manta de calor diurno no areal.
Acordei nesse dia de nascença com calma estremunhada, da noite em sobressalto pelas melgas que se escondem no fresco, prontas a vampirar o sangue dos Gulliver's que descansam amarrados à cama por sono profundo, de tornozelos e pulsos desnudados e indefesos com fina pele a cobrir os riachos subterrâneos de sangue, que as melgas sem nariz farejam à distância de quilómetros.
Não planeie nada, fiz o que me deu na gana com uns ameaços de sugestão de ir almoçar aqui e jantar acolá, acabei por ir petiscando o que me apetecia e à hora que me dava vontade. 
Cheguei ao fim do dia como se um ano não tivesse passado, sem dar conta, envelheci mais um pouco. 
Não é suposto que todos os dias, a cada minuto a vida inteira seja assim? Sem marcações ou planos, sem pressa, a fluir, a aceitar a vontade que o tempo traz, o desejo da comida que há, o calor dos que estão. 
Não peço nada, apenas esperanço sem destino marcado que tudo de bom me cruze caminho!



17
Jul20

Sulilândia

Rita Pirolita
Uma semana decorrida no país das fanecas e besugos e mais propriamente no local dos carapaus de corrida, num trio de horas de saída já me deparei com cromos e situações em barda com sustos de 5 em 5 segundos. 

Além de ontem à noite terem morto uma pessoa à facada, na bomba da gasolina por aqui perto, esta Margem Sul continua com aquele equilíbrio periclitante entre violência e pacatez e como já adivinharam vou falar do marasmo e monotonia dos velhos que ficaram e seguram as pontas e da miscigenação que esbate cores e comportamentos por estes lados, em vez dos pormenores de sangue a que não sou insensível de todo e até me fazem arrepiar e questionar todos os dias em que mundo vivo e para onde caminhamos, quando vamos parar e como vamos acabar?...

Nesta margem da Sulilândia, desde que pus o meu pé de princesa tamanho 41 fora de portas a magia deu-se... 

Primeira dificuldade, entrada árdua em entroncamentos com visibilidade dificultada por tapumes, publicidade, arbustos descontrolados, bermas selváticas, sobrevive-se até à próxima rotunda onde ninguém respeita as regras de entrada, contorno e saída, mais um anjo que nos põe a mão por baixo sem nos enfiar o dedo no cu que nos pode enrabar desta para melhor ou despachar para o hospital! 

Desvio-me de condutores de Mercedes e Audis que nunca percebi porquê acham que têm direito a mais estrada que os outros e com a mania das grandezas e vistas dilatadas devem achar que o seu bólide é maior que um comboio, caros condutores destas marcas, hoje passei por um Lamborghini estacionado em passeio de terra batida, isso é que é vender droga à séria, agora vocês novos ricos empertigados, só vendem chamon caldo Knorr e louro prensado! 

Entro no segundo balcão dos CTT, depois de correr papelarias, à procura de um simples cartão de telemóvel, que parece estar esgotado, tenho a sensação de estar nas Filipinas onde só vendem comprimidos à peça e quando há.

Até obter um cartão que seja, na verdade até precisava  de dois, vou deitando o olho pela fauna, ciganos de BMW a receber rendimentos pagos pelos impostos dos outros, inclusive das senhoras que os atendem ao balcão com salamaleques de simpatia forçada mas tem de ser, já que estão lá batidos todos os meses e vivem por ali perto ou até são vizinhos, homens de meia idade vestidos à jogador da bola com pinta de Quinta do Conde, cabelos oleosos e muita carapinha. 

Depois de 10 números despachados, chega a minha vez, peço dois cartões e só me arranjam um, refundido na secretária da chefona que ainda olha para mim como a decidir se me concede o último ou guarda para um amigo ou familiar! Lá o deu de má vontade à colega e porque não deixei de lhe lançar um olhar perscrutador como a dizer, 'mas que é esta merda, já corri dois balcões dos CTT e não levo nem um cartão, quando até precisava de dois?' 

Lá saio rumo às estradas atropeladas de gente que se atiram como a tentar a sorte do suicídio assistido, por um qualquer automobilista incauto que circule e não dê conta fora das passadeiras de quem tomba para o lado contrário ao passeio!  

Quase a morrer do coração já não me compadeço com velhos à beira da estrada a ver passar os carros no ameaço da travessia, por mim ficam lá até ao fim do dia a comer pó e a cheirar gasolina! 

Continua a saga, passo por um camião que está parado à espera de passagem para virar em rua estreita sem levar muros atrás, consigo vislumbrar por trás do condutor um calendário típico de camionista ou mecânico, com uma morena toda nua, com um bom par delas. 

Há que tempos não via moçoilas em tais preparos nestas cabines de suor, comida, peidos, arrotos e putas.

Chego à farmácia e peço 3 embalagens de coisa corriqueira, só têm duas...bem vinda às Filipinas outra vez.

As coisas escasseiam em país de tanques em vivendas encavalitadas, dealers subsidiados, velhos resmungões, jovens desengonçados e quarentonas com falhas laterais na cremalheira montadas em bons carros... 

Juro que saí de Portugal e não era assim, sinto agora a riqueza mais descontada e a pobreza mais contada que nunca.
15
Jul20

Chef José Avillez - O melhor do mundo

Rita Pirolita
Assisti a uma entrevista ao recente eleito melhor Chef do mundo, José Avillez. 
Antes de começar a vomitar frases sem parar, não por indigestão, deixo aqui um curto reparo.
Estão a ver o jornalista Vítor Gonçalves que apresenta o programa na RTP, Grande Entrevista?...Não presta, por favor ponham-no de baixa prolongada, não importa se por depressão ou por lhe partirem as perninhas mas tirem-no da tela! 
Nesta entrevista fez perguntas em tom humilhante de galhofa, a um Chef que por mais mau que fosse não merecia e afinal só ali ia falar de comida, assunto que reune muito consenso, nem que seja pelo facto de todos gostarmos de comer por gosto e prazer e acima de tudo para nos mantermos vivos!
Não sei se vai surtir efeito mas fica o pedido para afastamento vitalício!
Ora bem, vamos lá falar de comida, um assunto de bom gosto que domina e muito bem, os dias dos portugueses. 
Enquanto almoçamos já estamos a falar do jantar que se segue, mesmo sem a firme garantia que não estamos livres de sofrer um ataque cardíaco ou uma diarreia tal que nos leve por tanta alarvice, a meio da tarde, lá mais pela hora do lanche, que não será de chazinho e scones!
O Chef falou de reduções, geis de coentros, gelatinas, cozinha molecular com o seu nitrogénio liquido que nos põe a fumegar que nem dragões, tudo apresentado em pratos enormes e quantidades mínimas e concentradas, disse ele. 
Não é uma comida de encher bandulho, num restaurante com nome terminado em 'ia', não querem alarves a palitar dentes, a arrotar e a ameaçar bufa de pantufas com o rabo de lado na cadeira, onde se paga mais de uma centena de euros para se tanto, se darem 6 garfadas de provas. 
A propósito de nomes que terminam sempre em 'ia', a última inauguração do Chef Avillez é uma Pitaria, que no norte seria uma churrasqueira, já que por lá se chama pito ao frango. 
Continuando, esta é uma cozinha de suposições e sugestões, em que o cozido à portuguesa por exemplo, alegadamente deveria conter enchidos mas só a couve que foi cozida juntamente com as carnes lhe leva o aroma entranhado a fumado, para depois se servirem apenas duas folhas de legumes com umas nozes de gordura de porco que diz ele, se desfazem na boca. 
O que fazem às carnes que cozeram? Não foram servidas e só aproveitaram a couve e o molho para dar a comer aos pacóvios que se acham finos! 
Comida tão pouca que nem faz lastro para cagar, paga-se uma aguinha com couves a boiar e o cozinheiro e os ajudantes levam o precioso conduto para casa em tupperwares?
As flores são comestíveis, eu sei mas põem-nas nos pratos para a pessoa ficar com tanta pena de as comer de tão lindas que são? Paga-se para fazer dieta não comendo a sobremesa? 
O que menos engorda nos pratos são as flores está visto, por isso por mais lindas que sejam para quem está de regime, são a única coisa que se deveria comer durante uma semana inteira, era ver as obcecadas com a linha a pastar em canteiros pelos ajardinados recantos deste país!
O Chef falou também no lagostim que é mostrado a cores e ao vivo à mesa do cliente, regressa à cozinha e passados 5 minutos está no prato de pernil esticado, pronto a ser devorado. 
Se pensarem em provar a frescura de todos os pratos que servem, começam a levar vacas e veados até à mesa dos clientes e depois tiram um bife à pressa nas traseiras? 
Levam vasos e vasinhos com as plantas aromáticas ou vazões com abacateiros, mangueiras, oliveiras ou videiras para apresentar a carta de vinhos?
Podemos parar por aqui porque já me embrenhei demais nesta selva e não estou para me alongar a falar de coisas que não me dizem respeito, só ao Chef que faz muito dinheiro com a redução reduzida de alimento e fome dos clientes, bem convencidos que comeram uma refeição concentrada, uma injecção de puro prazer para os sentidos, um momento de deleite, uma explosãozinha de sabores, uma degustação dos deuses...blá, blá, blá. 
Só vos digo que enquanto escrevia este texto fui dando umas colheradas numa sopa feita por mim, daquelas à moda do norte, de pôr a colher em pé, com couve galega, grão e massa, estou aqui que nem posso consolada até às orelhas e o efeito já se está a fazer sentir no buraco baixo deste meu corpinho. 
Por isso vos deixo, já não aguento o cheiro que me envolve, vou só ali morrer gazeada!
04
Dez19

Contos da Estrelinha Serigaita - Comer

Rita Pirolita
Sempre pisca na comida, lingrinhas de carne e alta de ossos, lá ia sobrevivendo sem acusar falta de energia, com muito pouca comida e muita brincadeira de rua. Desenrascada nos gostos e talheres, não gosto de leite, como carradas de carcaças com manteiga e açúcar, o meu fígado ainda não se acusa e desperta para o trabalho dos lipídios e o pâncreas para os glícidos. 
Aos 7 anos perante espanto materno com tanta independência, tiro espinhas de peixe, chego ao fogão assente em pedra mármore com chaminé logo ali, que só dá para um tacho com cabeça por cima a espreitar a comezaina, armários em verde água e azulejos brancos normais que se descolam com frequência, após tachos cheios de comida atirados à parede em acessos irosos do pai que não suporta a mãe nem no namoro quanto mais a partir do primeiro dia do casamento. Trabalho do dia seguinte, logo pela manhã, colar azulejos com a mãe banhada em lágrimas com a esperança nos olhos que as coisas tinham muitos anos para melhorar, só pioraram, até que pôs termo à sua própria vida, cansada de tal tratamento.
Farinha 33, a farinha com sabor a chocolate, recomendada pelo Sr. Doutor, Tulicreme gorduroso, Maggy e Knorr, Maizena com açúcar e casca de limão, mais vezes com grumos que sem, chocolate Milo para o leite, pudim Mandarim de sabor único e artificial a baunilha, O Boca Doce é bom é bom é, diz o avô e diz o bebé, gelatina Royal, Laranjina C, manteiga Milhafre dos Açores, margarina Planta, Nestum e Cerelac, iogurtes Vigor em frasco de vidro com prata por cima, azedos que até amarga, leite não pasteurizado em pacotes plásticos maleáveis, postos a ferver para matar a bicharada, pescada, peixe branco e mioleira para as crianças, rabo de boi na sopa, Epá, Super Maxi, Perna de Pau e pouco mais, Coca-Cola nem vê-la, pudim caseiro com 50 ovos, carne assada no forno com batatinhas loiras e tostadas aos domingos, bacalhau de vez em quando,  sardinha, sarda, cavala, carapau e chicharro...comida de pobre, peixe raimoso, caldeirada de arraia, jardineira, chouriço e presunto nem vê-los, bolacha Maria, leite creme e aletria, vinho Teobar, caracóis...muitos e saborosos, tremoços em barda, camarão nunca.
Era tão feliz, sem ameaças de obesidade, diabetes infantil ou sedentarismo de PlayStation.
15
Ago19

Toda a vida não fui romântica

Rita Pirolita
 

Somos seres fúteis de ciclos e modas.
 
Agora toda a gente fica famosa por dar palpites e escrever verdadeiros manuais de instruções sobre comida, sexo, amor e amizade.

Já passei dos 40 e nunca fui ver o Tony Carreira montada em bota bicuda branca de cano alto, camisola de lantejoulas, unha de gel e brincos à Ana Malhoa. Ainda estou muito a tempo!

Os românticos passam dias em preliminares a adiar a ejaculação do envolvimento.
Que chatice! E quem não é romântico? Existe manual de sobrevivência? Eu tenho de certeza um cérebro hermafrodita!

Os homens desfasem-se em manobras de jantares, flores e chocolates porque quase todas as gajas gostam, as que não estão para aí viradas ficam no limbo, rotuladas de esgrouviadas e condenadas a relações curtas e pouco sérias.

Não somos só nós, os homens às vezes também não sabem o que querem, a pieguice feminina de que tanto se queixam desvia a atenção do seu lado sensível e assim se convencem estar imunes ao sofrimento por amor.  
É muito mais fácil suspirar pelo que não existe ou que pertence a um passado irrecuperável e romanceado.
Amar é uma ginástica saltitante entre entrega do ouro e defesa do reino, mas em situação alguma deixes alguém ser maior que a tua própria vida.

Um dia uma criança apenas disse que 'amar é o dobro', seja lá isso o que for é simples e agrada-me. 
O amor se não for justo transforma-se na tal coisa poética que escraviza, manipula e vampiriza energia.

Amor e razão vêm do mesmo sítio, algures entre as virilhas e o couro cabeludo.
 
Não tenho jeito nenhum para escrever sobre estas merdas, perdoem-me os amantes das balelas amorosas.
 

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