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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

05
Ago20

Gordura interna

Rita Pirolita
Às vezes ponho-me a rever fotografias minhas como velha à lareira, de manta nas pernas a chorar o falecido que lhe deu nos cornos a vida inteira mas depois de morrer virou santo... 
Lembro o momento e a felicidade que acompanhou aquele frame e como gaja que não deixo de ser, comparo o estado fisico de há 10 ou mais anos atrás, apesar de não ter envelhecido por ai além os sintomas típicos da menopausa não deveriam ser suficientes para me fazer sentir tão perra mas depois não me posso esquecer que daqui a pouco já entro na 3ª idade, que não gosto de fazer exercício fisico apesar de comer saudavelmente sempre que me apetece e por acaso apetece-me quase sempre, com umas facadas muito raras. 
Mesmo com as vulgares desculpas de ossos muito pesados, que no meu caso é verdade e carne densa, que também é verdade, não será que engordei para dentro?
Virei a descobrir num futuro cada vez mais próximo, porque menos tempo me resta, que tenho um fígado que transborda gordura em vez de a processar, um coração rodeado de banha, uns rins sebosos, uns intestinos cheios de merda como só eles, menos densa e podre é certo mas em maior quantidade, como bom animal-vegetariano-ruminante que sou!
A cintura não sendo nenhum órgão também já não é de 20 anos, e finalmente o cérebro esse maroto que me tem pregado cada partida que tenho que apontar tudo, talvez esteja cheio de colesterol ou pouco oleado...
Tudo isto pesa na balança e até há quem diga que a idade também, não sei nem quero saber tão cedo que balança é essa.
04
Ago20

A gorda do banco

Rita Pirolita
Vocês às vezes devem pensar que algumas das histórias que conto por aqui não são verdadeiras por tantas vezes serem insólitas e caricatas mas asseguro-vos que tudo o que por aqui passa é verdade verdadinha, contada com muita ironia e graça, se eu não me rir do menos bom que me acontece quem o fará por mim e é verdade que tristezas não pagam dividas. 
Se calhar vocês até acreditam porque Portugal também é fértil em situações inusitadas mas graças aos anjinhos papudos, aos descobrimentos, ao fado, à pobreza, à corrupção, aos ladrões ou lá o que seja nós somos um povo muito mais inteligente e desenrascado que estes gajos das Américas do Norte! 
Gente que não passa grandes dificuldades não aguça o engenho, deixa-se ficar pela comida-conforto de peida sentada a engordar e a empanturrarem-se de diabetes, depressões, psicoses, mimo e mau feitio. 
Hoje, não interessa o dia, o meu querido e extremoso moço dirigiu-se a um banco onde não tinha conta aberta apenas para saber se podia fazer a operação online de transferências para a nossa querida pátria com mais facilidade e menos encargos que a oferecida no banco com que costumamos trabalhar.  
Eu não fui mas asseguro que o meu moço foi de certeza delicado e se expressou bem no seu inglês quase irrepreensível que nada tem a ver com o meu, trapalhão e com um sotaque de estrangeira que é de bradar aos céus e cada vez falo pior, tanto o inglês como o português, já caguei no assunto, quem me quiser perceber tudo bem quem não, que vá dar uma curva à esquina das putas!
Ora bem, estava eu a contar que imagino o moço a aproximar-se do balcão com delicados modos a fazer a pergunta com muita educação e óptima dicção, portanto não tenho dúvidas que a gorda do banco tenha percebido bem.
Perguntou pois ela de volta, se ele era cliente do banco, ele disse que não, então ela prontamente respondeu do alto do seu elevado colesterol e diabetes 'que vais morrer cedo que até te fodes, pelo menos com um pé amputado até à virilha', que se não tinha conta naquele banco tinha que abrir uma para depois descobrir a resposta à sua pergunta inicial das transferências, lembram-se?
Ele deve ter olhado para ela com aquele ar de gozo e desprezo que tão bem lhe conheço e disse que se era assim também não precisava dos serviços deles para nada, virou costas e veio-se embora! 
A gorda deve ter ficado com a mesma cara de cu com que acorda todas as manhãs ou seja não se deu conta da tamanha burrice que nem se deu ao trabalho de disfarçar. 
Acho que mesmo que a situação fosse filmada e fosse posta à frente daquela tromba de porca roncolha ela continuaria a achar que estava a prestar um serviço de qualidade e que não estaria a tentar amesquinhar e fazer de estúpido um potencial cliente!
E pronto, é esta gentinha que presta serviço num dos países mais civilizados e com melhor qualidade de vida do mundo, dizem eles deles próprios! 
Não sei como é que conseguiram chegar a este ponto mas que estão cá para ficar e se reproduzir, ai isso estão! 
Santa Ignorância, livrai-nos destas situações e não nos deixeis cair na tentação de mandar tudo à merda e começar a distribuir chapada por esta gente!
PS: A questão fisica da 'gordice' não serve à primeira para diminuir seja quem fôr mas quando a estupidez abunda até os brincos ficam mal!
08
Mai19

All-inclusive

Rita Pirolita
Veraneantes labregos que devoram o all-inclusive com gana de fim de mundo e sofreguidão de sem-abrigo.
Exorbitantes montanhas de camarão, puré de batata, hambúrgueres e douradinhos, que terminam num cocuruto de três e mais molhos em verde fluorescente, vermelho sangue pisado e branco deslavado. 
Pratos de somente amarelas frituras, batatas em palito, às rodelas douradas e azeitadas, panados de tudo e mais algo, ovos estrelados, mexidos ou cozidos. 
Pequenos-almoços de bacon, salsicha, ovo, feijão, pizza, frango, panquecas, queijo, ketchup e outras mais coisas de vómito, salpicados de frutas tropicais numa amalgama de nojo. 
Pais que deixam os petizes entupir-se de parvoíce, devaneios de azeitonas e pepino, rematados com cereais e iogurte. 
 
Ninguém sobrevive muito tempo a comer tudo isto, todos os dias, a entupir-se de colesterol e diabetes, aqui se apanham os que vieram da pobreza e gozam agora das férias popularuchas em sítios que já foram paradisíacos e passaram a brejeiros de brega...
Entrego-me à inquietação do wasabé, ao salgado cortante das alcaparras, à acidez da lima e ao desinfecto coentro.
Mulheres com mamas à frente e outro par nas costas, barrigas dilatadas, descaídas e gelatinosas. 
Mastodontes que se sentam à mesa com maneiras de princesa bela e magra que nem pena cálida, pretensa delicadeza de um peso pluma e abertura frugal de boca de passarinho, como se aquela grandeza de banha, dos excessos de 1º mundo, não fosse fruto de insistência diária de alarvice, que vai do mais processado às desculpabilizantes incongruências de uma tiróide baralhada e um pâncreas à deriva, porque até comem pouco e acompanham tudo com lighteza e pickles como o verde do dia. 
Gente que só se entende aos urros no meio de música gritada e bebedeira debaixo de sol escaldante, de cachaço empolado, de molho, no mijo do bar da piscina. 
Benditos empregados que sabem da profissão e amansam os estridentes bêbedos com shots da pior surrapa que guardam na garrafa que bem sabem, preparada para deitar abaixo titãns de férias em grupo e oferecer-lhes uma boa dor de mona na manhã seguinte.
Velhos das sete da manhã a marcar cadeiras com chinelos e toalhas presas por molas em feitio de golfinho ou estrela-do-mar, para passarem o dia no laró e só porem os cotos na praia ao pôr-do-sol, a recolher o aparato que não usaram.
Senhorecas que se aperaltam para se irem servir num buffet, e terem o baixo prazer de um empregado sem pescoço e suado, lhes servir um vinho frisante de má qualidade nada duvidosa e as tratar por ladys ou madames.
Ouvir falar alemão logo pela manhã, arranha-me o cérebro como cães raivosos de boca espumosa. 
Ingleses expressamente mal-educados de bairros sociais. 
Casais russos que parecem em acesa discussão a toda a hora e a cada olhar, a qualquer momento espera-se uma carga de porrada do quadrado marido na loira esposa.
Seres de olhos em bico, sem expressão, sem respeito, invadem, falam alto, passam à frente como se não houvesse amanhã...se não saíssem da terra deles, não lhes sentiríamos a falta.
Por estes sítios todos fazem de reis, que por pechincha querem coisa fina.
Quem complica o simples merece castigo e desenterias.
E assim descubro mais vezes do que queria e precisava, que a minha salvação e de muitos em meu redor...é não ter uma arma nas mãos!
Obrigado aos participantes deste circo, turistazecos borgessos que deram origem a este texto de escárnio e mal-dizer e dos quais passei os dias a fugir sem não antes, apreciar de relance a decadência dos feios bichos que somos.
 
Boas férias até ao fim do mundo!

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