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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

04
Dez19

Papel de parede

Rita Pirolita

Todos sabem a beleza ou dor de cabeça em que um papel de parede se pode ou podia transformar, na altura que mais esteve em voga.
Nos anos 60 os padrões eram de uma alucinação de LSD e mezcal, cores explosivas, desenhos cheios de movimento e corpo, malmequeres, girassóis, flamingos, cornucópias, selvas de folhagem vibrante, bolas, espirais e estrelas que trocavam os olhos em sobreposições e jogos de traço.
Papéis espessos, com relevo, pesados de cola, mal postos, tiras desencontradas ou descaídas, remendos, manchados de humidade ou comidos do sol, a descolar,  a forrar armários, cabeceiras de camas ou mesmo casas-de-banho...
Tudo tão saturado e piroso que cada vez que entravamos em algum sítio com estes padrões ficávamos sem ar, oprimidos, sentíamos que a qualquer momento podíamos ser engolidos pelo compartimento e desaparecer por um ralo de alcatifa farfalhuda e cheia de pó e cabelos!
Uma coisa ficamos a saber, estes adereços de parede, eram tão difíceis de tirar que mais valia sobrepor tímidas e deslavadas flores com camadas de animais, depois mudar para desordenadas ramagens ou geometria desacertada, conforme as tendências que a Vogue ditava! 
Na altura que saiu de moda, era ver-nos a descascar paredes sufocadas de tanto enfeite, com o que tivéssemos mais à mão, desde facas, espátulas, colheres, tesouras, martelos, escopro... 
Os papeis evoluíram muito, ele há-os laváveis, personalizados, assinados por criadores de moda...
Os de boa qualidade e padrões de bom gosto, continuam a ser caros, a aplicação continua a requerer algum tempo, calma e um pouco de jeito, se houver experiência anterior, tanto melhor!
Apesar da moda ter voltado, já é difícil terminarmos a tarefa de aplicação, enrolados num colete de forças de papel ou com cola viscosa no cabelo, olhos e roupa.
Agora as aplicações reduzem-se a uma só parede e a cola é mais fácil de colocar e também tirar quando nos aprouver! 
Os padrões vão buscar muita da inspiração de há anos, com um toque refinado de palácios de paredes forradas a seda!
Dourados e pretos misturam-se em gosto refinado, clássicas flores de lis, turquesas mar relaxam, vermelhos agitam e laranjas vibrantes acolhem, cores puras com relevos que são um autêntico baile para os olhos e sinfonia para os sentidos!
Pensavam que além de papel de parede ia falar de quê?...De carpetes peladas ou peludas...e do Natal? Também podia mas sou alérgica!
12
Set19

Mete-nojo

Rita Pirolita
 

Eu sou a maior picuinhas com as limpezas, não consigo adormecer se a casa não estiver limpa, vizinhos, tenham paciência se à meia-noite andar a cirandar.
A única coisa que não vão ouvir é o aspirador, não tenho e recuso-me a comprar! 

Alcatifa nem vê-la ou senti-la por baixo dos meus pés de princesa e se for daquela farfalhuda!...esconde fauna e flora que eu não conheço, além de que tenho medo de mundos desconhecidos a meus pés.
 
As máquinas de lavar loiça e roupa são o meu braço esquerdo, porque do direito e das pernas preciso para limpar o chão, a casa-de-banho e a cozinha. 

Detesto estender roupa, resolvi tudo com a máquina de secar, cuidado no entanto com este monstro chupador de humidade, comprem sempre roupa um ou dois números acima senão correm o risco de uma bela manhã não terem nadinha que vos sirva, nem que em sonhos tenham perdido 5 quilos na noite anterior.  

Não tenho ferro de engomar, compro sempre roupa feita de material atar e r ao fumeiro’
Boa ideia para etiqueta de roupa - 'Atar e r ao fumeiro, roupa passada o ano inteiro.'
Detesto electrodomésticos pequenos, são todos supérfluos. Se me quiserem ver pelas costas mesmo depois de um enlace de longa data, é oferecerem-me uma faca eléctrica, não posso nem ouvir aquele barulho abafado de quem está a esquartejar um corpo em segredo. 
Na tasca onde costumava ir tomar café, agora não frequento tascas e tomo chá, o dono cortava os ‘assandes’ todos com aquela faca, se eu tinha o azar de lá estar, a minha bica parecia que tinha pregos. 

Como não faço bolos não preciso de batedeiras, formas, tabuleiros e toda a restante cangalhada...e não cresço para os lados!

Não faço fritos, não preciso por isso de fritadeira eléctrica, muito menos do cheiro lá em casa...e não fico uma balofa gordurosa!

Não me venham com a história de comprar uma Bimby pelo preço de uma semana nos Açores, não troco nem morta.
A Bimby não substitui tudo na vida, muito menos os electrodomésticos…que não tenho, nem quero ter!!!

Poder-se-ia quase concluir que sou uma vegan das limpezas, mais vulgarmente conhecida por mete-nojo, não gosto de limpar a casa mas gosto de ter a casa limpa.
 
Não tenho putos, por isso não se justifica ter uma empregada para limpar uma casa minúscula, pôr a lavar meia dúzia de cuecas e camisas e passar meia hora à procura de um aspirador e de um ferro de engomar que não existem, nem nos meus sonhos!

Faço reciclagem sempre que posso e se estiver para aí virada.
Não lavo o óleo das latas de atum e se tiver uma caixa do tamanho de um elefante… pode ser bebé, é que vou pôr no ecoponto e porque tropeço nela se tentar sair de casa! Cuidado a r estes elefantes de papelão no contentor, quando menos esperamos viram-se a nós, parecemos um Cristo com agrafes nos dedos e fita cola no cabelo!

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