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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

06
Ago20

Touros e homens de cernelha

Rita Pirolita
 
 

 


Aviso já que quando vou tirar sangue dá-me logo o fanico, só consigo estar deitada a olhar para o tecto!
Deixei de gostar de carne faz mais de 20 anos.
Odeio cenas de sofrimento e agressão, então em animais que não se podem defender ainda pior!...
Os caçadores para exibirem a sua pontaria e pensam eles, grande bravura, continuam a matar animais que nada podem contra uma arma de fogo.
Agem como se ainda vivessem numa sociedade dependente da caça para sobreviver ou talvez com medo de ataques de animais como por exemplo o coelho, que lhes pode ir ao cu em segundos sem darem por nada, o pato esse malandro que ainda não aprendeu a juntar o bico de forma a fazer broches como deve ser e as perdizes, essas matreiras que caminham rastejantes e quando menos se espera atiram-se à bicada aos tomates dos pobres caçadores!
No seguimento da escrita inevitável seria falar de touradas!
De quem é a bravura? Do homem?...Não parece!
Vejamos…
Primeiro pica-se o touro para que entre em arena a espumar, furioso da vida e capaz de levar tudo à frente, depois aparece um gajo vestido de bailarino paneleiro que de cima do seu cavalo espeta bandarilhas no lombo do animal que está lá em baixo, num gesto convictamente cagão.
Numa dança do gato e do rato, sendo que o homem é pior que um rato, o touro se espetasse um corno no cu do homem era o que fazia melhor mas vai-se esvaindo em sangue e fraqueza.
Começa o processo de amaciar a carne, prepará-la para um grupo que entra a seguir ao cavalo, todos em fila pirilau e com os tomates tão apertados que o sangue nem lhes deve chegar ao cérebro, com o uso frequente desta indumentária, de tanto aperto provavelmente terão dificuldade em conceber filhos, não se perde nada!
Atiça-se o animal cansado e anémico mas que resiste que nem um verdadeiro colosso, sem imaginar o seu fim corre na direcção de uns seres tão pequenos que têm que gesticular e grunhir alto para se fazerem notar e numa derradeira cornada tenta mandar tudo para o alho mais velho. Não bastando encornar uns quantos, ainda lhe agarram a cauda num mix de merda e areia para o fazer parar! 
No final temos uma plateia de veias temporais inchadas e sequiosas de mais sangue mas o festim acabou e os seres das calças apertadas deviam ser castigados com choques electricos por terem sido uns cobardolas!
Deste culto fazem parte cavalgaduras elegantes quando novos de gestos taberneiros que são muito cobiçados pelas tias-fêmeas por causa da sua riqueza, herdades herdadas e alguns têm mesmo goela para o fado. 
06
Ago19

Por falar em papel fino...

Rita Pirolita
 

Embora nunca tenha vivido no norte todo o meu sangue é de lá. Os meus avós tinham uma quinta, que para mim e para os meus primos era um universo infinito de exploração e experiências. 

Ora, quando chegava a altura de ir à casinha soltar o prisioneiro, sentados no trono, entretínhamo-nos a amachucar folhas amarelas da lista telefónica e isto não era nenhum segredo para combater a prisão de ventre, quanto mais amachucadas mais macias e perguntam vocês para quê esse ritual? Para limpar o CU!

Já havia papel higiénico mas era muito caro, só uma lista de páginas amarelas dava bem para 6 meses, se não andássemos de diarreia durava mais tempo. 
'Páginas Amarelas, vá pelos seus dedos!'

Ao lado do trono tínhamos uma banheira que na aldeia já era um luxo mas onde nunca tomei banho, só as aranhas tinham ordem para passear nas paredes esmaltadas. 
Tomava banho num alguidar de chapa, uma vez por semana para poupar a pele e despejava a água na horta, couves e alfaces andavam sempre lavadinhas.

Alumiávamos a noite com um candeeiro a petróleo ou velas, tudo cheirava a fumeiro, a sopa tinha o sabor de todas as sopas do mundo juntas, num pote de ferro de três pés, tudo era cozinhado a lenha numa cozinha de terra batida. Não havia frigorífico, tudo se guardava num "mosqueiro", uma caixa de madeira com uma porta de rede para impedir as moscas de entrar, mas se era para afastar as moscas não se devia chamar mosqueiro, que parece uma coisa com uma data de moscas lá dentro, enfim, nem tudo na vida tem uma explicação lógica. 
Ora esta pequena peça de mobiliário tinha que estar num local da casa fresco e seco e lá guardavam-se desde leite a manteiga, queijo e marmelada. 
Comíamos batatas com sardinhas contadas mas o azeite era divinal, as fatias de presunto eram tão finas que até o sol se via através delas e isto não era para poupar...só assim é que sabia bem!

Nesta visita guiada falei da casa de banho, da cozinha, a sala de jantar estava lá mas ninguém lhe ligava nenhuma, já que passávamos o tempo todo a brincar lá fora ou na cozinha a comer, sendo assim, só falta falar dos quartos. Dormíamos em camas de ferro com colchões feitos de palha, de manhã quando acordava estava metida num buraco que nem me mexia, saltava da cama, ajeitava a palha e deixava a arejar por causa da bicharada.

Um dia os meus pais resolveram dar um saltinho a Espanha para ir comprar caramelos e torrão de Alicante, eu não fui mas não se esqueceram de mim e trouxeram um recuerdo, como já sabiam que não gostava de bonecas, em vez de um chorão ofereceram-me uma bolsinha bordada a missangas, o meu primo recebeu um camião lindo, enorme e amarelo da Caterpillar, arranjei logo maneira de monopolizar as horas de serviço da viatura pesada, a bolsa ficou esquecida lá na quinta!

Os dias eram passados a correr, a brincar, a esfolar o corpinho...uma tarde bem me lixei, estavam todos a debulhar o milho quando me senti atraída por um monte fofinho de folhas e me esponjei durante uns bons minutos até que tudo no meu corpo começou a queimar, tinha a pele cheia de golpes finos mas que doíam como a porra, nunca mais!!!

Numa quinta não faltam animais, tínhamos desde cães, coelhos, galinhas, lobos a uivar à noite e carradas de gatos, são uma praga, os coelhos também mas esses acabam no tacho, os gatos bebés iam sabem para onde?...Para um balde cheio de água, coitados!!! Fiquei traumatizada.

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