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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

22
Jul20

Matryoshka rechonchuda e corada

Rita Pirolita
E se eu vos disser que às vezes parece que tenho uma vida dentro de outra, como uma matryoshka rechonchuda e corada, prestes a dar à luz uma réplica dissidente, prontinha a rabujar e esbracejar?...

Como se a vizinha de fora se portasse bem para ninguém desconfiar, que a filha meia-parida dentro dela está prestes a experiênciar a anseada simplicidade, como uma vida quase secreta que nem os mal-paridos devem desconfiar, só para afastar cobiça de quem não percebe, não abdicam do conforto mas invejam quem seja feliz com pouco, os que não estão preparados para que este conhecimento seja levado a si, mas de tão assustados vão querer cochichar e destruir, nos seus horizontes de pala equina, o que não podem ter mais ninguém tocará. 

Almas perdidas na agorafobia que têm da liberdade, da grandeza da felicidade, da falta de ar do riso, presas num elevador sem curvas de acidente que abre portas para um mundo alcatifado sem surpresas ou incertezas!
28
Jan20

Feios e meigos

Rita Pirolita
Tentam convencer as mulheres que por mais pequeno que seja, bem trabalhado proporcionará sempre prazer, que com conversa tudo se resolve e chega lá, pode é envolver mais mão-de-obra e demorar um pouco mais, que os preliminares são condição sine qua non para ter excitação garantida quanto mais um orgasmo, que o clítoris existe e todas gostam que seja estimulado à exaustão, que o ponto G não é a inicial da Gronelândia, que a maioria não sabe onde fica ou pensam que é um reino enregelado da DisneyWorld.
Não sei quem inventa tanto mas se todas somos diferentes nada disto pode ser a regra e as mulheres devem fazer ver que muito menos em matéria de sexo e prazer, não podem ser reduzidas a estatísticas e formatações.  
Faz falta ouvir mulheres reais dizerem que o tamanho para algumas importa, que não se resignam aos feios embora  trabalhadores e meigos, ou que pelo contrário serão o macho ideal por não serem tão solicitados e por isso menos susceptíveis de trair, que também não se queixem da infidelidade dos bonzões, já deviam saber melhor da cobiça e cabrice que anda à solta no mercado.
Que conhecer uma única queca na vida e ficar com o grande amor da adolescência para o resto da vida é careta e não mostra mundo, a não ser que vivam nas redondezas da Lagoa Azul. Que nem sempre estamos à procura de relações estáveis e para a vida, tipo conto de fada, quando a coisa acontecer logo damos conta do recado, com casório, divórcio e filhos tardios, ou não.  
Que podemos descontrair e ficar para tias mas com um passado recheado, para contar aos sobrinhos e mostrar o lado melhor da vida, aquele em que se faz o que nos deixam e muito mais que possamos inventar.
10
Dez19

Contos da Estrelinha Serigaita - Quando eu vim para esse mundo...

Rita Pirolita
Às vezes ponho-me a pensar cá de uma maneira, quase a queimar fusível!
Antes que dê curto circuito ou se estrague vou pondo para aqui.
Cada vez vejo mais desgraça a rodear-me neste mundo, perante a qual cada vez mais me sinto impotente e da qual cada vez mais quero fugir. 
Se não vir ou souber, não me sinto participar, nem culpa nem responsabilidade, como aquela que em cima me puseram, sem eu saber ou me perguntarem se queria, quando vim para este mundo, mesmo sem me chamar Gabriela.
A mãe pariu-me, uma gata sapata, chupada como ela de tanto vómito na prenhice, passariam para mim os enjoos até hoje, também me quiseram passar missão de salvadora de união talhada com Lucifer como padrinho, discórdia o seu nome do meio, acabando em desgraça hedionda mas até lá, tinha a mãe doméstica, tempo de sobra para se entregar a especulações do mundo das trevas, que o pai era assalariado ocupado, em tempo de horas-extra bem pagas!
A mãe nunca reconhecendo que se embeiçou pelo amor errado que lhe batia e partia a casa, que a violava e enchia de nomes, que a deixava à mingua de comida por gastar em putedo e me punha na rua com ameaças de morte de faca apontada ao gasganete, meteu na cabeça que a minha vinda ao mundo iria derreter o coração de qualquer sociopata, fazê-lo redimir-se e unir o que sempre permaneceu apartado. 
Nasci assim, com a incumbência de iluminar o caminho do amor celestial, em adultos que deviam saber melhor que eu, aquilo que devem quebrar ou continuar.
Apesar da minha feiura e escanzelice, a esperança manteve-se, até começar a mostrar uma independência, desapego, frieza e convicção precoces, típicas de quem assim vive, no meio de adultos confusos e irresponsáveis! 
As ervas daninhas também dão flor.
Vendo a mãe que não me revelei santa, culpou-me da mistura de sangue que fez.
Levava-me ao engano, pelos cabelos e querendo eu ficar a brincar na rua, lá era arrastada para bruxas e bruxos de lés-a-lés do país, para que confirmassem que estaria possuída e assim me pudessem culpar da discórdia que afogava os meus dias.  
Habituei-me a certa altura a não ir ao médico, que não me iria de certeza diagnosticar depressão ou anormalidade, isso não serviria de desculpa para a culpa do inferno!
Andei de terriola em terra ou cidadela, nas férias, alguns dias eram reservados a espíritas nos arredores de Lisboa, que me consultavam sem eu abrir a boca, que me receitavam rezas e misturas de ervanária, sem contar com as vezes que a mãe usava apenas a minha foto, como presença suficiente para escarafunchar a minha alma, visto estar em dia de escola, pagaria metade ou dava o que pudesse, como muitos pediam para parecer que não pediam e assim passavam por benfeitores a prestar serviço gratuito.  
Vi gente de olho revirado, boca esgaçada, de ares arrotados em estridente exibição nas salas de espera, seriam algumas primas ou vizinhas contratadas que ganhariam uns tostões pelas convincentes representações de exorcismo, possuídos achaques e mau olhado, gente torta que se punha direita, defumadoiros, chás, velas e ervas! 
Quanto mais eu berrava que não acreditava, mais maldição e peçonha me atribuiam! 
As tias de Trás-os-Montes aprovavam tudo isto e sugeriam cada vez mais casas de consulta esotérica, locais de culto com filas enormes à porta do salvador, onde apareciam emigrantes das Franças, a contar histórias de maldição curada com burburinho de relambórios, santas e amuletos compradas por centenas de contos.
Vinham de todos os cantos para limpezas de casas, da alma, do corpo, dos nados mortos e dos que viriam planeados ou por azar, por desgostos aos amores, ao jogo, traições de família, males de inveja e cobiça, banhos de sal e água benzida...
Tirar encostos, obsessões, mau estar, ossos e menstruações fora do sítio, olhos vesgos, deformações, aberrações e somos todos tolos nestas peregrinações. 
Uns bruxos viviam em calabouços de paredes a chorar humidade, em lugarejos inóspitos, onde as pedras vomitam musgos de verde musgo-veludo-felpudo, outros viviam em mansões assombradas de vazias, com eco em salas gigantes, frias de tijoleira mortífera-escorregadia, ofertas inusitadas espalhadas pelo casarão, até cavalos e carros, além de toneladas de ouro e dinheiro. 
Assim se rendiam os ignorantes ao encanto do sábio, que só tem um olho mas sabe muito, encena passagens de espíritos pelo corpo, com arrepios de teatro, abano de cão com água, reviro de olhos, arroto de sapo, asneiras e impropérios em voz grossa cavernosa, baba e gestos destrambelhados de velha gazeada, despenteiam-se, suam, choram de sofrimento e maldição e riem-se de gozo mafarrico, da bondade do Santo a quem rezar. 
Alguns fazem caretas, outros olham fixamente para te ameaçarem de pestana arregalada e assim te renderes, perante a vergonha de não acreditares e a falta de coragem de denunciares. 
Ai se começo a gritar, agarrada ao meu sexo, mais louca que os tolos, sou expulsa e irrecuperável para todo o sempre, como maldição para o negócio!



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