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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

22
Jul20

Reino animal domesticado

Rita Pirolita
Vou ser breve por este texto, porque não merece mais e muito mais não terá para ser acrescentado. 

Costumo dividir os tipos de casais essencialmente em três grandes grupos do maravilhoso reino animal domesticado!

Existem os casais que são de uma inocência atroz, de livro de conto-de-fada, provavelmente um ou ambos perderam a virgindade um com o outro e tudo indica que irão ficar juntos para sempre sem nenhuma traição pelo meio ou mesmo pensamento pecaminoso. 

Estes são amores remotos de aldeia, muitas vezes entre primos, não sei se ainda existem, se existirem têm todo o direito e ainda são o resquício daquilo que um dia todos desejamos mais ou menos secretamente e tão poucos concretizaram! 

Um amor pueril com sexo adulto, o melhor de dois mundos!

Os casais opostos ao anterior são a puta da loucura, parece que andam sempre em ácidos, fazem merda com uma cumplicidade de piscar de olho, no elevador ou em casas-de-banho públicas, a adrenalina não desgruda. Encontraram-se no momento certo e são perfeitos um para o outro, são os melhores amigos e cúmplices das partidas que pregam,  encenam discussões só para ver as caretas dos espectadores, não cobiçam mas comentam profusamente, sabem guardar segredos, são desinibidos e vivem o amor sempre a desafiar os limites da liberdade. Estão um para o outro mas não mortos para a vida! 

Sexo, paixão e loucura, a melhor pimenta a juntar ao mundo dos casais mais enconados!   

E por último, a maioria, pelo que observo são aqueles que ficam ali no limbo, nem são carne nem peixe, qualquer gesto ou discussão indica que se podem amar loucamente como matar de ódio, que podem haver traições mas a coisa mais ou menos consentida lá vai andando coxa e mal cheirosa, convencem-se que apesar de tudo foram feitos um para o outro, que o amor não sobrevive sem um pouco de tortura e ciúme e que estão condenados a aturar-se até ao fim da vida porque com o feitio que têm, acreditam que mais ninguém é credenciado para o fazer, munidos de uma paciência de Jó entremeada por explosões que acabam em sexo ardente de reconciliação. 

A vida é boa assim com agitação e desafio constantes, senão ficava apenas pelo trabalho ou desemprego, praia, putos e compras no LIDL. Vivem no mundo real da vidinha, com desilusões esperadas e alegrias vividas de cerveja e churrasco, tudo o resto são amostras reles, contrafacção ou publicidade enganosa!
10
Ago19

No reino do campismo

Rita Pirolita
Como já perceberam por anteriores encontros literários marcados aqui mesmo, sem hora ou dia, sou ferrenha adepta e praticante de campismo de tenda à medida.  
 
Embora com o avançar da idade esteja seriamente a pensar em comprar uma tenda grande, onde possa andar de pé sem parecer um caracol com reumático ou mesmo em comprar uma autocaravana ou em último caso e quando o esqueleto pedir, um alvéolo num parque de campismo, com uma requintada casa de madeira, com a entrada forrada a oleado, pedaços de mármore, ou tijolos de cimento a fazer canteiros e caminhos de jardim encantado com cogumelos e gnomos em barro, em 2 metros quadrados de cubículo, que ainda leva com um churrasco de tijolo a um canto e mesa e bancos de cimento para esfoliar joelhos, rabo e pernas, bem no centro. 
Não resta assim espaço para circular, ou estás sentado e comes ou desandas para o bar ou para a praia que dentro do pré-fabricado, se não houver ar condicionado, morres abafado que nem peixe fora de água.
 
O campismo de tenda, é considerado na sua maioria a versão pobre de férias, de quem não tem dinheiro para ter casa à beira-mar ou usufruir do pretensioso turismo rural, com pequeno almoço e arzinho condicionado. 
No meu caso, não tenho casa no Alentejo mas gosto de barraquice e até já gostei mais, não fossem as costas ficarem todas encarquilhadas e já não conseguir dormir em colchões de 3 mm, porque já não consigo apanhar bebedeiras de festival que me anestesiem a dor. 
 
O moço já começou a levar cadeiras de praia, porque já lhe custa comer sentado à japonês, num simples oleado estendido no chão, cheio de formigas, resina e caruma. 
Começou também a levar redes mosquiteiras, porque está cada vez mais convencido que o seu sangue atrai mais picadas que o meu, já lhe disse que passe a vegetariano mas ele está-se a borrifar e continua a dar-lhe nas feveras, no piano e no belo chouriço assado. 
 
Cada vez menos me preocupo com as pendurezas na hora de me ver livre da lycra, na minha praia de nudismo preferida, que não vou dizer qual, para não me incomodarem com pedidos de autógrafos e fotos indiscretas. Este corpo não vai para melhor mas também não está mal quase nos 50. 

Casqueiro alentejano que embaça e o vinho para empurrar já não pode ser aquele de pacote para temperar. 
Nunca deixarei de gostar de montar a barraca, o meu corpo é que já não acompanha muito esses gostos libertinos e esgrouviados. 
 
Chegou o momento de começar a pensar na casa com rodas, com WC e duche e uma cama virada para o mundo com vista para as estrelas!
 
Este será o passo que antecede a reforma no alvéolo, ao bom estilo retornado, que faz de cada Verão um encontro da grande família, que são os veraneantes deste tipo de casota. 

Irei passar a primeira semana da primavera, a lavar as cortinas com folhos, super inflamáveis, que se encheram de humidade durante o Inverno, a ajeitar as flores de plástico nos canteiros da entrada, mijadas pelos gatos que se reproduzem aos magotes sempre que há abrigo e comida. 
O moço passará as tardes no churrasco, já que um dos seus prazeres é comer e mexer no fogo. 
Eu passarei algum tempo no meu pequeno-enorme jardim virado ao pôr-do-sol, a limpar a relva de plástico de baixa manutenção e a dar banho ao cão. 
Vamos arrastando os ossos até ao bar ou à piscina, porque a praia já cansa muito...
Assim passarão os dias, num qualquer parque da costa alentejana.

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