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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

21
Jul20

Já me esquecia

Rita Pirolita
Cada vez mais tenho paciência para esperas reservadas ao meu ser. 
Espera aí sentada ou a fazer o pino que isto vai demorar para lá de 3 horas...
Sou calma, sonolenta ou desperta a observar pormenores e passagens de gente de passagem, doentes, em espera, acompanhantes, impacientes, a cruzar perna, a bufar, a revirar olhos, a levantar e sentar, agitados em idas à casa-de-banho sem parar, estardalhaço de crianças a chorar, a brincar, amachucar de papel de rebuçado, pacotes de batata frita ou doces drageias coloridas.  
É nesta minha espera que vejo passar um pouco de mundo à minha frente, do qual de vez em quando descanso, semicerro os olhos depois de os revirar num ensaio animado de desmaio falso, de cansaço, habituação e aceitação que já me vai sendo familiar para a velhice.
Quando fico impaciente junto-me aos agitados e faço parte do circo.
Se me podem começar a esquecer, de me esquecer de esperar, sem ter ansiedade de viver ou pressa de morrer?...
Talvez não esteja assim tão longe esse dia!

 

 
01
Abr20

Velhos jarretas

Rita Pirolita

 

Agora todos são solidários com a luta pelos direitos dos animais, antes andava tudo a falar das crianças e noutras alturas dos velhos. 
Vai de modas, na verdade são tudo boas causas e devemos proteger ou pelo menos não prejudicar, os que não se conseguem defender. 
Mas será que alguns são mesmo frágeis ou aproveitam-se da condição? 
Já vi muitos cães passarem-se da bola e desatarem à dentada.
Já vi putos atirarem-se para o chão do centro comercial a esbracejar e a rodar sobre as costas como um escaravelho de pernas para o ar, aos gritos, a chorar baba e ranho por não lhes fazerem a vontade de comprar tudo o que querem.
 vi velhos a correr todos à bengalada, a queixarem-se que ninguém lhes liga ou que são diabéticos e não se podem irritar. Que eu saiba, a diabetes não dá dores de cabeça, dentes ou ouvidos, que são as mais massacrantes. 
Aliás, hoje em dia, velho que não tenha diabetes, gota, osteoporose, colesterol elevado e joanetes, não é idoso que se preze e tem a garantia que ainda vai andar cá muito tempo, a consumir o dinheiro da reforma e a arrastar-se no queixume, dando cabo do juízo aos que o rodeiam.   
Eu bem os vejo no aeroporto quando vou viajar. 
Antes de levantar voo todos requisitam cadeiras de rodas até à porta de embarque, vão de cu sentado e passam à frente de todos, quando a viagem termina o mesmo número de cadeiras que foram requisitadas na origem do voo estarão no destino à espera dos mesmos velhos, é vê-los com a tesão do mijo a tentar sair à frente de todos, comigo não têm sorte que eu não lhes dou abébias. 
Se nem andavam na hora da partida ficam cá com uma energia de atleta à saída? Deve ser da mistura do RedBull com a despressurização, aquilo dá cabo de cabeçinhas com Alzheimer e Parkinson! 
Assim que põem um pé fora do avião metem a bengala debaixo do braço, saem disparados que nem foguetes e deixam os gajos da groundforce a arejar a cadeira de rodas e a lançar a cada velho que passa um olhar de comiseração e esperança frustrada, sem lhes darem oportunidade de praticar o bem e mostrar excelente serviço.
Nem todos os velhos são fofinhos, há-os jarretas ou velhacos e alguns até dá vontade de os matar antes de morrerem!
 
 
19
Dez19

Miúdas coquetes

Rita Pirolita

Nunca gostei de miúdas coquetes e rapazes mariquinhas, desde a infância até agora, mas olhando para trás só me posso rir e nunca chorar. 
 
Nunca alguém me conseguiu manter uns collants vestidos, davam uma comichão desgraçada nas nádegas ou mesmo uma Thermotebe, estalava tanto da electricidade estática que até deixava os cabelos em pé.

As miúdas picuinhas...tinha que as aturar no horário de aulas, depois metiam-se em casa a brincar com as Barbies e a estudar, enquanto eu cá fora andava entretida à porrada com os ciganos, a jogar ao espeta, ao pião, à carica, a saltar à macaca... 
Dentro do recinto da escola portavamo-nos todos bem e ninguém olhava a etnias, piolhos ou ranho. 
 
Só parava em casa uma tarde inteira, ao terceiro trambolhão que arrancasse mais uma vez a crosta dos joelhos.
01
Mai19

Cogumelos, lavanda e amoras

Rita Pirolita
 
Ter uma vida acolhedora, conforto, família, ser senhora de lar, ter filhos que amo todos os dias de um lenhador que me acolhe em braços firmes, viver no campo, ter pássaros a comer à minha mão, um lagarto que me aparece dia sim dia não e nunca se deixa apanhar, ser normal na alegria, no sofrimento, na perda, na morte e na doença, deixar-me chorar e rir nos momentos que me apetece, sem culpa ou arrependimento. 
Não sentir necessidade de sair e viajar porque o mundo está na minha casa e faço breves passeios ao pinhal ou à praia, mesmo ali à mão de semear, em forma de piquenique ou simples apanha de cogumelos, lavanda ou amoras.
Tudo é tépido e caseiro, debaixo das minhas unhas cheira a cebola e alho, o corpo a louro, o cabelo a fumo de lenha, os vestidos são de flores desbotadas mas não murchas, o fim dos longos dias quentes de verão são de um silêncio morno e envolvente com cheiro de pão-de-ló domingueiro no ar.
O outono cai pesado nas folhas, o Inverno mal-vindo, prova ser necessário com as chuvas, para que a Primavera se imponha com multiplicação desenfreada e mais tarde se deixe queimar e mirrar pela canícula do Verão.
As manhãs raiam ao som de galo acordado por ele próprio, os dias corremusculados de calma e compassados de preguiça, as noites são de paixão, jantares regados de vinho morno e aconchegados com ginja ou ponche quente.
E se depois de tudo isto não sentisse nada de especial, queria dizer que era uma mulher feliz com uma vida normal sem saber? 
É que agora e desde sempre, sinto desconforto e inquietação constante de alma, queria descansar um pouco da vida sem ter que morrer ainda, fazer um curto intervalo neste filme. 

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