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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

04
Ago20

Tampa da sanita para baixo?

Rita Pirolita
Dizem os entendidos em Feng Shui que as boas energias se piram sanita abaixo...
É capaz de ter lógica, aquilo é um buraco de merda e um poço de controvérsia quanto à respectiva tampa, quando existe claro. Para cima ou para baixo? 
Existe um número de mulheres irritadas proporcional ao de homens a quem chateiam a cabeça uma vida inteira para baixarem a tampa da sanita.
Querem que os homens mijem sentados? Se o fizerem de pé não é melhor levantar a tampa e a base? Se fizerem a descarga da aguinha amarela é ouro sobre azul, não? Acham que deita mau cheiro? É para isso que existem os sifões, mantêm aquela água na base para evitar a subida do cheiro nauseabundo que já sabemos a merda tanto tem! Ou pensavam que a água era para enfeitar e evitar correntes de ar? Se fecharem a tampa o cão não bebe e as cobras não sobem?
O que querem mais mulheres? Que o telemóvel não caia naquele buraco porque a tampa estava levantada? A culpa não é de quem a deixou aberta é de quem leva o telemóvel e outras coisas para o WC e tem mãos de alforreca, depois tem que meter a mão na água que parece limpa mas sabemos que está imunda de bactérias javardonas. 
Dêem-se por muito contentes que o último a usar a sanita tenha feito a descarga e esqueçam a merda da tampa!
Cá em casa a única mulher sou eu e faço questão de mantê-la sempre aberta para casos de emergência apertada que de vez em quando se verificam e porque se aquele buraco doméstico é um sorvedouro de porcaria, também deve levar a energia que não presta e a que presta também vai de certeza, até hoje não conheci sanitas selectivas, levam com aquilo que lhes dermos para comer.
Aproveita-se assim para renovar a energia da casa e inventa-se uma nova regra do Feng Shui!
20
Fev20

Balde do lixo

Rita Pirolita
Vou falar de um balde do lixo doméstico que caiu dentro de um contentor do lixo por minha culpa mas tudo acabou bem, apesar do mau cheiro!
Desde que me lembro de ter desenvolvido as minhas capacidades motoras em pleno que usava mais para correr, saltar e brincar, lá em casa já me incutiam a responsabilidade de tarefas, como limpar o pó todos os dias, sim, todos os santos dias, menos ao domingo, o que não custava muito num andar minúsculo de 2 assoalhadas.
Um quarto para os progenitores e uma sala que acumulava as funções de estar, jantar e à noite virava o meu quarto, com um sofá-cama forrado a bombazina verde-musgo, muito na moda, que abriu e fechou durante muitos anos, as vezes que foi preciso, no sono e na doença, cumprindo a sua função perfeitamente até ao fim do seu uso, que se deu com a mudança de casa e um quarto só para mim, mas só lá para a adolescência! 
Numa casa onde imperava a discórdia, destruição, gritos e violência ninguém se preocupava com educação ou compreensão, impunham-se regras para diluir a falta de respeito e iludir uma normalidade que nunca existiu. 
A obrigação de ajudar era uma forma de marcar autoridade por imposição maternal, quase como uma vingança e transferência de raiva, vinda de alguém que era tratada como gata borralheira e se queria sentir como a irrepreensível fada do lar, com poder no seu pequeno reino doméstico, já que a sua existência era todos os dias assombrada por discussões humilhantes e uma incompatibilidade visceral mantida à força, um amor doentio, obsessivo e destruidor, com resultados nefastos no futuro...para mim também! 
Os meus dias decorriam embuídos de uma inocência que de alguma forma me protegia do caos à minha volta e cujas memórias apenas mais tarde vieram a ser processadas, por uma cabeça que foi obrigada prematuramente a deixar de ser pueril. 
Nunca éramos desgraçados de quem alguém tivesse pena, não tínhamos onde nos queixar ou recolher, vínhamos ao mundo numa família que nos dava comida e nos punha na escola e só tínhamos que cumprir com o mínimo de obrigações, não fazer birras e se fosse caso disso levávamos dois tabefes que nos acertavam o passo, até à próxima choradeira típica de miúdos, por tudo ou por nada. 
A vizinha do prédio da frente batia na filha com colher de pau todos os dias, partia colheres a toda a hora no lombo da miúda e fartava-se de gritar com ela, eu como não levava tanto, encolhia-me como se as colheradas me estivessem a cair em cima do pêlo, como a dividir as dores em solidariedade para com a minha colega de escola que não esperava ver inteira no dia a seguir, mas lá aparecia ela sem ponta de queixa ou perda de peças, embora tivesse de certeza aquele rabo todo negro!  
Além da limpeza do pó e dos vidros, com vinagre e jornal amachucado que me deixava as mãos pretas mas os vidros imaculados também tinha a tarefa de ir despejar o balde do lixo, o que até gostava, visto que qualquer pretexto para andar com o cu na rua era bem vindo. 
Certa vez ao fim de um dia longo de verão lá fui despejar o lixo no contentor que ficava nem a 100 metros do meu prédio, era uma hora calma de fim de jantar, não se via vivalma e nem os pássaros se ouviam, derretidos na molenga dos ramos. 
Ao virar o balde para despejar aliviei demais as mãos e aquela porra escapuliu-se e foi parar ao fundo do contentor que ainda por cima estava vazio. 
Olhei incrédula para dentro daquele buraco mal cheiroso com paredes incrustadas de camadas de gordura e humidade fétida e não me dando por vencida nem ir a correr chamar a mãezinha que não era nada o meu género, investi em me desenrascar sozinha. 
Tentei esticar um braço ao máximo, depois os dois, depois aos saltinhos e depois de tanta tentativa infrutífera e a enxutar moscas com chapadas de raiva no ar, bichos da merda, que tinham tirado o fim do dia para me chatear e não tinham qualquer sentido de oportunidade ou condescendência com a minha difícil tarefa de salvar o balde do lixo de ficar no lixo, decidi empoleirar-me nas pegas laterais, qual mangusto chafurdeiro e com cuidado para não ir parar lá dentro e fazer companhia ao balde, empenhei-me no equilíbrio e de uma penada lá consegui alcançar o balde. 
Cheguei a casa como se nada fosse, calada que nem um rato, mas com os sovacos doridos e a tresandar a lixo. 
Não tive a pior infância do mundo, nem por lá perto, mas podia ter seguido caminhos piores e mesmo assim ainda bati em algumas portas erradas que me prontifiquei a fechar assim que desse com o erro e a retomar caminho que me parecia menos mau. 
Não tive muito tempo para brincar, a responsabilidade chamou-me logo a alinhar na vida muito cedo e agora olhando para trás, a minha sorte seria outra se me tivessem recolhido sem pena, qual cão de rua abandonado que amassem porque tinham para dar, sem se importarem com o meu curto mas já dolorido passado, traumas e medos e eu iria agradecer que para meu bem me dessem educação com um propósito e não o vazio imposto do "vais fazer porque sim, porque eu digo, posso e mando em ti!"
20
Set19

Estou-me a cagar

Rita Pirolita

 

 
Há quem pense que a leitura no WC é apanágio dos homens mas eu faço isso e não tenho pila, pilona nem pilinha. 
Quando está na minha hora se me esqueço de levar leitura para o trono e não existe nenhuma por perto, leio a composição do que estiver ao meu alcance, pasta dos dentes, shampo, detergentes, creme da cara, desodorizante, foi assim que descobri que alguns ingredientes do shampo são comuns ao dentífrico ou mesmo ao mais abrasivo detergente de limpeza, tudo em nome da higiene cheirosa e resplandecente. 
Ao contrário do que muita gente pensa, quem lê no trono apesar de ficar por lá em devaneio pelos glycois, petrolatuns e sorbitois, não fica a gramar o próprio cheiro, eu pelo menos faço descargas constantes a cada carrada. 
 
No fim do alívio já nem me lembro da falta que me fez a Dica, o Metro ou os folhetos de promoções do LIDL ou Aldi e acabo a gastar quase um rolo de papel higiénico e meio pacote de toalhitas húmidas para no final ter sempre a sensação que não ficou perfeitamente limpo...já me ocorreu usar WCPato para tirar as dúvidas mas não é indicado para o meu tipo de pele rabal. 
Muitas vezes depois de tanto afinco na limpeza parece que a manipulação do local estimula novamente a musculatura para mais um vazamento que esperamos seja o último do dia, pois as pernas já estão dormentes da primeira sessão e agachamentos.
 
Como podem constatar, nunca tive dificuldade em fazer e falar do assunto, ao contrário de algumas pessoas que conheci e sinceramente me causaram impressão. 

Uma vez resolvemos acampar, um grupo jeitoso de 6 que se distribuíram em tendas junto à barragem, numa semana de canícula em pleno Agosto. 
As instalações sanitárias disponíveis eram tipo sanita francesa, buraco no chão, o que em locais públicos me agrada de todo pois não tenho que pôr os pés em cima de uma sanita para fazer de alto o que podia fazer sentada, com o risco de partir um pé ou mesmo a loiça sanitária e protagonizar o Trainspoting. 
Os buracos no chão evitam respingos nas nalgas e buracos adjacentes, de água que tem para lá de 1000 doenças. 
 
Durante o acampamento não me imiscui de picar o ponto todas as manhãs como se estivesse em casa, esta minha rotina descarada sofreu sussurros e alguns olhares de inveja de pelo menos duas irmãs que ao fim de quase uma semana resolveram levantar a barraca e rumar a casa com duas horas de caminho pela frente. 
Timidamente as duas moçoilas, não podendo dar a desculpa que tinham que ir trabalhar porque eram estudantes, lá deixaram escapar entre dentes que só evacuavam em cagadeira doméstica. 

Apercebi-me que coisas naturais para uns, são verdadeiros pesadelos para outros e naquele verão estive-me bem a cagar para isso.

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