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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

25
Jul20

Club Monaco

Rita Pirolita
Vou-me detendo em assuntos algo profundos, políticos e religiosos não muito porque não os credito nem acredito mas escrever sobre frivolidades da humanidade, confesso que me ajuda a exorcizar este meu desgosto por gente, como se brincasse com o meu próprio blogue e comigo também!

Vou falar das típicas empregadas de lojas de roupa e acessórios em centros comercias, novas catedrais de consumo que há muito condenaram ao encerramento o comércio de rua, de empregados de extrema educação, sempre aprumados, que nos faziam quase sentir o aconchego de casa de família.

Mal comparado a Portugal, aqui pelo Canadá as empregadas são falsamente bonitas e a simpatia espontânea ficou esquecida nas profundezas dos óvulos que as pariram.

Quando se entra numa loja ou nos seguem tipo cão e muitas vezes largo gases ou não ligam nenhuma, quando ligam são umas melgas e só me apetece fugir dali, não comprar nada e nunca mais lá voltar. 

Como não há meio termo prefiro sempre que me ignorem e não me chateiem!

Os sorrisos são de esgar amarelecido, os comentários na caixa quase sempre despropositados, como quem cumpre a tarefa simples de registar uma coisa que já está vendida por natureza sem mais esforço, mais um cliente despachado que sai e dá lugar ao próximo, elas têm sempre um ar ocupado de quem passa horas a olhar para as paredes e as câmaras para elas! 

As empregadas portuguesas gozam de alguma simpatia e também muitas vezes de cabrice de quem se ri nas costas do cliente assim que ele não está a ver ou sai da loja!  

Criticam tudo, não tendo mais que fazer e estando a trabalhar por um ordenado que em nada condiz com os preços incrementados, produto de miserável exploração Made in China ou Bangladesh, não têm que mostrar a sua melhor e mais natural simpatia, essa será reservada para os mais próximos e amigos, se não levarem esses também por tabela com a falsidade por defeito de trabalharem por muita obrigação. 

Muito raras são as que se nota gostarem de vender e saber interagir com o cliente ou porque estão ligadas à marca faz muito tempo, ou porque sempre venderam e não sabem fazer mais nada tão bem e os empregos estão tão escassos que é melhor ir aguentando, mesmo com um salário pouco enaltecedor da experiência acumulada! 

Poucas empregadas têm a natural descontração de atender pessoas e encaram isso como um trabalho tão digno como outro qualquer.

Existem as miúdas novinhas que lhes admiro o desenrasque e despacho com que diminuem filas em horas de ponta e dias de saldo e as antigas costureiras que também limpavam escadas e agora que a coisa está escassa até fazem uma perninha numa qualquer loja em part-time, sempre prontas a modernizar-se e a acompanhar a vivacidade da juventude que anda a 100 à hora.  

Existe depois aquela sub-raça das hospedeiras de bordo, umas, empregadas de mesa no ar, outras empregadas de balcão em terra, que por trabalharem numa loja de marca XPTO se armam em empertigadas, até parece que têm mais dinheiro que o cliente que compra os trapinhos chiques ou são as maiores accionistas da empresa e vão lavando algum dinheiro por fora! 

Tomaram elas que essas maroscas lhes passassem pelas unhas, quanto mais comprarem uma coisita ou outra da marca, só porque têm desconto de empregada! 

Estas parolas normalmente não têm onde cair mortas e se as seguirmos até casa, vemos que apanham o autocarro para poupar na gasolina e não porque estão preocupadas com a poluição e se formos até ao fim do destino vamos parar a um qualquer bairro, social ou não, de prédios sem varandas ou com varandas forradas a alumínio ou ainda varandas cheias de tralha que até parece que a casa está entupida e quer começar a vomitar lixo pelas aberturas!

Juro que até compreendo esta gente, eu própria sou um produto dos arrabaldes proletários, no trabalho pelo menos podem brincar às princesas e não andam a vergar a mola à chuva, ao vento ou ao calor, estão sempre de pele seca, maquilhadas, unha impecável e cabelo alinhado o sangue é que nunca vai ser azul e o berço se não foi de ouro, ninguém lhes tira a ciganice do corpo! 

Muitas com a pestana postiça suburbana, denunciam demais a origem mas desfilam convictas, a pavonear-se à hora de almoço na fila do McDonalds, das sopas ou das bifanas!

Já agora deixo aqui os meus futeis anseios, embora não tenha estilo de gente fina nem carteira de gente rica, se estes dois chacras estivessem alinhados e me deixassem escolher uma loja que me vestisse até ao fim da vida, escolheria o Club Monaco!
26
Nov19

Sardinhada

Rita Pirolita
Agora que me sento em cadeira confortável e dia tépido que os últimos foram de canícula e abafamento de cancro do pulmão, vou descrever uma noite ambrósia de sardinhas, as verdadeiras protagonistas!

A prática do benemérito patrono do jantar no segundo dia de Outubro trouxe sardinhas na brasa, como o nome diz e obriga na sua correcteza em vez de peixe alinhado em grelha intermediária queima directamente em brasa nobre, composta apenas por pinhas bravas amansadas pelo poder da queimadura, crepitantes e fazedoras de um calor dispensável em noites de mais de 30º mas que mantêm o seu encanto incandescente, no escuro da noite de lua quase cheia e maré-baixa quase até ao fundo do horizonte como de um escorredouro de mar se tratasse, a deixar  descoberta a conquilha que escapa pela submersão quase constante de tantos donos de calcanhares que a querem comer sem a deixar crescer o suficiente para fazer rechonchudice que encha a boca numa explosão de sémen oceânico.

As pinhas crepitam e enchem o rosto de febre e luz, minguam e espalham, fazem-se à cama para receber a escamosa prata que em menos de 5 minutos se recolhe em gordura de ómega suculento, se faz transportar ao pão para ser despida da pele e comida aos lombos, a chupar os dedos que no leito da noite se vão esfregar em corpos e lençóis com a sua cheirosa morte devorada em prazer pelo menos até à manhã seguinte.

Rega-se com vinho, sangria, cerveja ou kombucha que a noite não está para escolhas difíceis e sim para libertinagem. 

Panos suspensos de yoga experimentado a medo que a idade e o peso nos tiram a leveza dos gestos e nos pesa a experiência da transcendente alma que pese talvez apenas um milésimo de grama. 

Assim se reconhece a sabedoria que vem em tempo tardio e corpo a mirrar, quando já não é precisa e se viesse em idade jovem tiraria a beleza dos momentos adolescentes que de drama a beleza têm em comum o encanto fadoso e desconsolo suicidário de parecerem intermináveis. 

Na idade do nosso tempo só o eterno é perdurável e a esperança no encanto acaba des-sonhada na morte!

Fala-se de motivação, seitas, descompressão de vértebras e alinhamento de chacras, todos sabemos ao que estamos, o simples e puro prazer de viver, comer um animal com olhos e sem orelhas ou pescoço que à meia hora se contorcia em rede rodeada de cães rafeiros e pescadores rudes modernos cobertos de camisolas NIKE, Lacoste ou TommyHilfiger. 

A dureza vestida de PRADA.

As conversas acidentam-se em ponte caída de quando em vez que nós os seres humanos teimamos vezes demais em não deixar fluir mas o tempo está aí sem pena ou compaixão, o dito já foi e o monólogo vira diálogo lançado ou picado, silêncio de dúvida ou ideia tardia calada a pensar na resposta contorcida no argumento enquanto a sardinha se revolve nas papilas intumescidas de saliva.

Todos nos rendemos ao simples alimento pela noite dentro que tanto nos dá energia para pensar e falar como nos atordoa os sentidos em sabor deleitoso...e companhia certa, aquela que está, a que não está nem errada é.

As melgas teimam na bicada de alguns e livram outros de tão pequeno ferimento que tanto incómodo causa.

A noite termina mas não acaba, não desce na temperatura, o convívio esmorece com o torpor da digestão, à sonolência da adiantada hora junta-se a moleza do mar como de dia trabalhoso no campo se tratasse, terminado em felicidade cansada e estômago recomposto por comida de fogo ancestral. 

Terminamos em abraços de despedida, dizeres de até amanhã e caloroso amor de alimento.

Destes momentos não guardo nada tal como guardo tudo sem ocupar espaço no tempo ou na alma.    

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