Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Contos e Descontos

22
Jul20

Reino animal domesticado

Rita Pirolita
Vou ser breve por este texto, porque não merece mais e muito mais não terá para ser acrescentado. 

Costumo dividir os tipos de casais essencialmente em três grandes grupos do maravilhoso reino animal domesticado!

Existem os casais que são de uma inocência atroz, de livro de conto-de-fada, provavelmente um ou ambos perderam a virgindade um com o outro e tudo indica que irão ficar juntos para sempre sem nenhuma traição pelo meio ou mesmo pensamento pecaminoso. 

Estes são amores remotos de aldeia, muitas vezes entre primos, não sei se ainda existem, se existirem têm todo o direito e ainda são o resquício daquilo que um dia todos desejamos mais ou menos secretamente e tão poucos concretizaram! 

Um amor pueril com sexo adulto, o melhor de dois mundos!

Os casais opostos ao anterior são a puta da loucura, parece que andam sempre em ácidos, fazem merda com uma cumplicidade de piscar de olho, no elevador ou em casas-de-banho públicas, a adrenalina não desgruda. Encontraram-se no momento certo e são perfeitos um para o outro, são os melhores amigos e cúmplices das partidas que pregam,  encenam discussões só para ver as caretas dos espectadores, não cobiçam mas comentam profusamente, sabem guardar segredos, são desinibidos e vivem o amor sempre a desafiar os limites da liberdade. Estão um para o outro mas não mortos para a vida! 

Sexo, paixão e loucura, a melhor pimenta a juntar ao mundo dos casais mais enconados!   

E por último, a maioria, pelo que observo são aqueles que ficam ali no limbo, nem são carne nem peixe, qualquer gesto ou discussão indica que se podem amar loucamente como matar de ódio, que podem haver traições mas a coisa mais ou menos consentida lá vai andando coxa e mal cheirosa, convencem-se que apesar de tudo foram feitos um para o outro, que o amor não sobrevive sem um pouco de tortura e ciúme e que estão condenados a aturar-se até ao fim da vida porque com o feitio que têm, acreditam que mais ninguém é credenciado para o fazer, munidos de uma paciência de Jó entremeada por explosões que acabam em sexo ardente de reconciliação. 

A vida é boa assim com agitação e desafio constantes, senão ficava apenas pelo trabalho ou desemprego, praia, putos e compras no LIDL. Vivem no mundo real da vidinha, com desilusões esperadas e alegrias vividas de cerveja e churrasco, tudo o resto são amostras reles, contrafacção ou publicidade enganosa!
20
Jul20

Logo se vê ou se esquece

Rita Pirolita
Não é o nível de gravidade que chama o Estado a assumir responsabilidades nem catástrofes naturais incontroláveis que não foi o caso no nosso país e sim a natureza suja das acções e alto nível de corrupção, abuso e aproveitamento do poder político e compadrios. 
Enquanto os bombeiros não forem particulares ou mais profissionais e não maioritariamente voluntários, o Estado tem responsabilidade, enquanto quem morreu ou perdeu as casas, era eleitor e pagava impostos, o Estado tem responsabilidade, enquanto deixaram a floresta chegar a este ponto de desordenamento por interesses económicos, o Estado é responsável, enquanto forem accionistas de empresas que fornecem coisas obsoletas que falham na catástrofe, o Estado é o grande responsável.
Enquanto deixarmos que nos enganem e inventem as desculpas que querem e podem, nós somos responsáveis porque deixamos que façam e digam tudo com total impunidade, sem uma única trovoada seca que lhes caia em cima mas vamos lá passar o verão atrás dos caracóis, da cerveja e da bola de Berlim, depois logo se vê ou se esquece.
19
Jul20

Agradecimento pós-férias

Rita Pirolita
Quero agradecer muito do fundo das minhas entranhas sem ser lamechas às pessoas que vão estar neste texto, quero agradecer por ter nascido também para as conhecer!

Começando pelo Corvo, ao Sr. Fernando que mesmo não tendo ganho dinheiro nenhum connosco no seu táxi por termos insistido em fazer os trilhos todos a pé, fez de anfitrião na festa local nunca tendo deixado as gargantas livres de cerveja, abordou-nos no seu inglês trapalhão e deixou-nos ir em bom corvino. Desta ilha levamos histórias dos seus cerca de 400 habitantes, ataram um GNR a uma árvore por logo no desconhecimento de novato ter começado a distribuir multas de estacionamento, todos andam sem capacete e nem pio com eles, um padre foi expulso e chamaram um barco que o levasse dali para fora, pelo menos até às Flores, visitas da ASAE, a quem fecham as portas dos 2 únicos restaurantes que existem e não lhes servem nem uma mealha, fica tudo sem comer e vão de requitó ASEAR para outra ilha.

Nas Flores, Sr. Jorge do parque de campismo de Santa Cruz, não esquecerei a boa disposição, o convite ainda a conhecer-nos mal para jantar em sua casa, pimenta da terra caseirinha, lapas, caracóis, bom vinho, amigos bem dispostos, sua amada esposa e seus mimados cães. Mulata, a égua vizinha a quem dava 3 cenouras por dia. Direcção Fajã Grande, passando por Ponta Delgada, a comer uma caldeirada de peixe no Sr. Meireles, dono do único restaurante da terra 'O Pescador'. Chegada tortuosa depois de mais de 20km a pé, a Fajã revelou-se linda e acolhedora. Ao Roberto do Papadiamantis, continua a ser feliz e não deixes que te estorvem vida. Sr. António e esposa, proprietários da mercearia mais catita, obrigada pelos pequenos-almoços de queijo e iogurtes artesanais. Sandra, Zé e filho Diogo, o puto mais estiloso lá do sítio, a quem ao segundo dia já tratava por sobrinho fresco e fofo, bons momentos passados na Barraca Q'Abana deste casal que se auto-intitulavam os Reis do Kebab, iguaria-novidade que dava direito a filas de 15 em 15 dias, o melhor da ilha, diziam eles orgulhosos, não fossem os únicos a fazê-lo! Especialmente para ti Toni, o caçador de polvos de fim de dia, cuida-te homem, não fumes nem bebas...pelo menos tanto! Querida burrinha velha que me dava os bons-dias com um macio olhar!

Um especial bem haja ao doce Leandro, filho de pai tardio, o Sr. Amaral que de nós se despediu de lágrima contida com um voltem em breve antes que eu morra, abraçamos o seu magro corpo com intenção forte de cumprir pedido e lá fomos 9 horas a marejar até ao Faial.

No Faial nada a apontar, minto, fomos fazer uma caminhada até Almoxarife e a dois terços do percurso o dono bem apessoado de uma propriedade convidou-nos para uma cerveja, não sendo usual passar ali alguém a pé, emigrado dos EUA, vivia com o companheiro, uma personagem hollywoodesca da longa e famosa série ainda a preto e branco, Perry&Mason.

No Pico, obrigada Marina lutadora e seu companheiro Marco, o carteiro de Arronches que encheu os churrascos de sardinha congelada, bom vinho e queijo alentejanos.

Em S. Jorje, Paula e Rogério do restaurante Açor, continuem a fazer pizzas deliciosas magistralmente compostas com o queijo local, o melhor das ilhas e a conservar por longa data os amigos Gilda e Pedro.

Na Graciosa, termas do Carapacho, ao Sr. Roque esposa e empregadas do restaurante Dolphin, obrigada pelo recato ultrapassado ao segundo dia depois de melhor nos conhecerem! À doce-atormentada Fernanda do parque de campismo!

À Magda e Jorge, responsáveis pelo parque de campismo das Cinco Ribeiras em Terceira, agradeço a boa companhia em jantares a ver o pôr-do-sol, regados com rosé do Pico, ao filho Pedro agradeço ter-me dado a conhecer o grupo de comediantes da ilha, 'Fala quem Sabe'.

Sta. Maria, Beach Parque a partir do meio-dia, festival Marés, não recomendável, dormir na praia, muuuuuito recomendável! Todos agradecemos à Sofia da Sweet Hearts de Ponta Delgada, a adopção do gato branco abandonado há um ano no parque de campismo, logo baptizado de Sete Cidades, por um olho verde e outro azul tal como as lagoas e pelas sete vidas gatideas.

Obrigada ao dono da cadela que nos ia atacando, por nos ter dado água e laranjas e ter oferecido guarida das abelhas enfurecidas que por ali andavam, não evitando que fosse mordida no pescoço, obrigada à vizinha mais abaixo que deu gelo e Benadryl! Agradeço ao meu moço ter tirado prontamente o ferrão para evitar mais agonia, não me tendo mesmo assim poupado a 4 dias de dor e inchaço que mais parecia uma girafa engasgada com corno de elefante!

S. Miguel, um grande obrigada Sónia, por nos ter dado boleia para lá da meia noite e mesmo tendo a casa cheia de família deu guarida à nossa minúscula tenda no seu pequeno quintal!

Agradeço as boleias oferecidas que não aceitamos, aos condutores de autocarros da rede pública que fizeram de guias também, dando as melhores indicações e conselhos para os trilhos e que tantas vezes se desviaram da rota para nos facilitar a vida ao nos deixarem o mais perto possível dos locais!

Agradeço a todas as vacas a quem fiz mu e me devolveram cumprimento com olhar curioso!

Chegada ao Funchal, a tonteira da azafama, a solicitação dos restaurantes ao turista, poluição, pobres, drogados e desgraçados, casas em escarpas que parece me vão engolir, eu não vivia aqui! 

Relaxe de chegar a Porto Santo, deserto dourado, água turquesa e uma característica portuguesa de estragar o naturalmente bonito!!! Dá mais trabalho construir o péssimo que estar quieto! Conseguiram destruir e atafulhar a paisagem com hotéis e mamarrachos na linha das dunas! Gente simpática e uma fauna de tios de contrafacção em férias, aquele tio mais rasca, de tipo algarvio mas de Albufeira, não de Vilamoura ou mesmo Cascais.

Metam-se na poncha mais tradicional do universo, pela noite dentro, no bar Fontinha.

Que volte a ver esta gente toda e mais alguma da mesma estirpe, numa próxima visita às ilhas que desejo e vislumbro ser para breve, querer não me falta e dinheiro arranja-se, haja vontade! 

A minha homenagem está cumprida, a todos os acolhedores desconhecidos espalhados por esse mundo, até mesmo aos que me esqueci sem má intenção.

Este texto vai estar com toda a certeza sujeito a acrescentos de memória!
19
Jul20

TinTin e o Templo do Sol

Rita Pirolita
Ando a rever as aventuras de TinTin, desta vez os episódios estão dobrados e não têm legendas, não podendo ouvir o sonante francês em versão original que seria uma recordação mais fidedigna. 
O moço disse que os desenhos animados na altura, eram mais despretensiosos, embora seja uma palavra cara demais para a faixa etária de quem via estes bonecos de TV, assenta muito bem esta definição! 
Na altura, para além de ser criança vivia numa época definida por valores, tradições, atitudes e modas um pouco diferentes e verifico o quão tudo mudou, não forçosamente para melhor.
O Capitão Haddock dos mil trovões estava sempre mal disposto, fumava cachimbo, bebia alcool, às vezes demais até ficar grogue, isto tudo à frente de crianças e passado num só episódio, o Templo do Sol. 
Já não me lembrava destas coisas que nunca me fizeram confusão nenhuma, mesmo quando as vi pela primeira vez no écran a preto e branco lá de casa.  
Nessa altura muitos homens fumavam cachimbo, fumava-se em todo o lado, até na televisão em entrevistas, directos ou mesmo noticiários, em locais públicos e o meu pai em casa também fazia bem de chaminé. 
Antes de entrar para a primária já eu ia sozinha, sem medo que me raptassem, ao café da minha rua buscar doses de caracóis com muitos oregãos e garrafas de litro, não de 7 e meio, de cerveja ou vinho branco ou tinto à pressão. 
O café cheirava a petiscos, cerveja entranhada no balcão de madeira, que a ASAE ainda nem sonhava em existir e fumo, muito fumo que pairava por cima das cabeças e de um chão repleto de cascas de amendoim e tremoços, beatas, pastilhas Pirata ou Gorila e mais que viesse colado aos sapatos das dezenas de pessoas que passavam por ali todos os dias para beber um copo à pressa depois do trabalho e antes de jantar, assim as mulheres não chateavam muito, ou fazendo sala e ficando noite dentro, esparramados nas cadeiras de pau desconfortáveis que nem sepos ou encostados a segurar o balcão, para não cairem eles e o balcão! 
Todo este filme se passava em frente à minha futura escola primária! 
Ninguém ficava ofendido com esta promiscuidade e eu muito menos fiquei traumatizada, achava piada àquele ambiente confuso de tasca, com barulho de fundo de apitos de jogo da bola! 
Aos fins-de-semana e mais por altura do bom tempo, todos se sentavam na esplanada de olho em nós que brincávamos nos passeios ou no meio da estrada de uma rua sem saída, que era só das gentes daquele bairro do Feijó. 
21
Mar20

Millennials, centennials e snow flakes

Rita Pirolita
Mais um jantar de amigos de conquilha coberta de coentros e acidosa laranja amarela, tarte de côco em bocadas tropicais, vinho tinto mostoso e verde picante, cerveja luposa no goto e ao gosto de cada um e de todos! 
Noites quentes de calafrio tardio, cão satisfeito a rondar a mesa em tentadas infrustradas de petisco fácil. 
Por cada olhar canino tão convincente, que parte corações, iriamos até ao fim do mundo buscar um osso de roer, mesmo que não precisasse e estivesse a rebentar de obesidade, não é o caso ainda mas com tanta insistência não demorará a chegar ao estado de intumescida salsicha com pernas!
Ar feliz em casa de mar, cheiro a fumeiro e cacimba de lua, as conversas saem parvas com ruidosas gargalhadas sem vizinhos para queixa, as falas tornam-se sérias por breves segundos, a minha tentativa forçada de tirar nabos da pucara para escrever este texto sai frustrada com perguntas tão corriqueiras que nem as reconheço como minhas, armada em psicóloga da fava bruxosa ou terapeuta de banha cobreira que recorre a métodos brumosos para obter respostas. Ainda bem que a tentativa não tem resposta que a alimente, em pouco tempo percebo que nem a noite nem o convívio são de forças medidas, nunca serão, shame on me!...
As ideias e deduções seguintes são imaginação despretenciosa de como se foi confirmando ao que hoje se chegou!
O tema que desse fruto, esperava eu, seria a desgastada caixa de Pandora que revive como Fénix, homens e mulheres que de tão reprodutiva coelhice, nunca se extinguirão a não ser por força maior catastrófica de natureza desalmada e impiedosa com a pequenez sexual.
As mulheres são mais inteligentes? 
Para mim que o sou, não... 
Os homens que planam na pragmância levam a vida com mais esperteza e contemplativo esforço! 
As mulheres são difíceis de aturar e não se aturam a elas! Engalfinham problemas para inventarem soluções, baralham-se e voltam a dar-se!
São primorosas picuinhas de introspecção dilatada, porque uterinam as crias? 
Os homens acomodam-se em atitude de vida que está bem assim na constança do ócio, as mulheres esbracejam e sangram energia em gritos de protesto, não foram à guerra mas querem arranjar uma sua!
Dos primórdios os homens não engravidam, um só espalha crias em úteros abertos e receptivos que depois de fecundados, se a cepa pegar e o enxerto não desmaiar, tão depressa não estarão disponíveis para nova aventura. 
Os olhos fêmeos brilham de atracção ao melhor exemplar testeróneo que garanta cria forte e sobrevivente, não uma semente definhosa, que não desponte da terra, nem lhes cresça para dentro bem fundo e arreganhe em orla de gordura sangrenta.  
Degladiam a procriação pelo macho mais dotado que lhes dê varão, usam dos métodos mais escabrosos e escondidos de traição às restantes fêmeas pela primazia da escolha, a evitarem a segunda-mão no leito que cabe às mais ousadas e tratadas com menos requinte e respeito. 
Fémea usada e engravidada não é surpreendida na virgindade nem tem novidade, macho experiente tem procura para envolver, dominar e sustentar.
Abespinham-se com piropos e criam leis que os condenam, quando os machos querem é espalhar semente ao vento, debaixo de humidade moliqueira ou apenas dar música de acasalamento em competição garbosa e marialva.
O choque é de vontades e aumenta o fosso, quando os seres que se julgam civilizados ainda lutam para serem instintosos, como se vestíssemos um macaco com fato Hermenegildo Zegna e o largássemos a engatar macacas numa discoteca, cheias de perfume a lixiviar as feromonas, o símio fica baralhado e acaba por se lenganhar no fácil sem consequência, engancha o esporádico de prazer fugidio, sem prolongamento genético! 
Ela pensa da altivez da eleita e escolhida mas ele é que se entrega à escolha, em torpor e libertino desleixo.
Elas já não são domésticas nem falsas submissas, apaixonam-se por cartões de crédito não podem por isso reclamar muito crédito, vivem e largam o momento.
A estabilidade dos millennials e centennials está na mudança supersónica, snow flakes que morrem ao focinhar chão! 
Nos jantares que nunca chegam ao fim, forçamos o cansaço a fazer despedidas, de barriga cheia e alma regada, o cão adoptado de rua e lixo espraia-se nas pernas de um macho rendido a sofá fundo e morno de lareira!        
22
Fev20

Tenho pena

Rita Pirolita
Tenho pena que me tenham criado para ser submissa e não tenham aceite a minha diferença, por mais pequena que fosse mesmo inserida no sistema.

Tenho pena de pais que não participaram na revolução do nosso país, mesmo que mais tarde se tenha revelado ilusória, que ficaram em casa calados porque a incerteza os assustava e o regime era certo e paternal. Ideias políticas que se amordaçavam mesmo à saída dos lábios porque o voto sendo secreto é uma boa desculpa para o silêncio de uma vida inteira que evita conflitos, perseguições e despedimentos.

Os tempos avançaram mas não mudaram, a única diferença é que agora podemos eleger de uma lista controlada os que nos roubam, as mentes continuam presas ao medo da critica, da luta, da voz alta da indignação.

A informação tem dono e como um vírus cibernético deposita alienações nas cabeças dos mais antigos, 'os trabalhos já não são para a vida e a culpa é de quem não quer trabalhar',  porque vidas anteriores foram gastas com dedicação escrava, na escola a levar vergastadas nas orelhas, no trabalho a cumprir horários e a lamber as botas ao gordo patrão, na vida a engolir sapos, a pagar impostos e contas a quem mais nos rouba e nunca fez nada pela vida a não ser enriquecer à custa da exploração do suor dos outros.

Tenho pena de quem torceu o nariz quando os retornados ocuparam facilmente cargos públicos, em vez de frontalidade justa, abusou de coscuvilhice doméstica para os acusar da novidade da droga, o tratar por 'tu' com uma falta de respeito pela parcimónia do antigo regime, a tão invejada descontração típica de locais mais quentes e onde a vida é mais gozada, regada com cerveja e comida picante.

Serve a desculpa que todos fizeram o melhor do seu pior? 

Tenho pena que as bestas abrandem o mundo!

Esta é a insustentável leveza de um universo que não se move nem muito menos levita de tão feio e pesado.

28
Jan20

Cocho - colher de cortiça para beber água

Rita Pirolita
O que é tipicamente português?
Mesmo que estejamos nas Galápagos e passe uma tartaruga a nadar ao pôr a venta de fora vê logo, ora ali está um fumador de SG Ventil, boa companhia para beber jolas e ver uma partida de futebol no sofá, a tirar macacos do nariz e a ajeitar os tomates durante 95 minutos de tensão desportiva.
O tipo de respostas a esta questão são inesgotáveis, podem ser pessoais ou generalizadas mas estarão sempre ligadas a uma imagem de foleirada e brejeirice...e disse!
Os fervorosos adeptos de futebol sofrem de amor incondicional ao seu clube que amam mais que mulher e filhos, passam o tempo na tasca lá do bairro, então desempregados ou reformados, falam encostados ao balcão enquanto comem tremoços em beijos chupados, deitam abaixo a mini, copo de três, traçado, imperial ou lambreta, com o dedo mindinho esticado para exibir a unhaca da cera, a outra mão enfiada na algibeira chocalha o molho de chaves, acompanhada de um abanar de perna que mais parece ansiedade para o tiro de partida, a ver quem chega mais tarde a casa e faz mais curvas pelo caminho.
Camisa sempre aberta com fio de ouro repleto de penduricalhos, crucifixo, figa e corno, foi daqui que a Pandora tirou a ideia para vender caríssimo, pechisbeque de qualidade achinesada duvidosa.
As esposas destes senhores estão em casa, gordurosas e  gorduchas a fazer crochet, à janela a coscuvilhar e a competir com as vizinhas nas doenças inventadas, a acreditar nas noticias da TV ou a chorar com o último episódio da novela e a gritar para a desgraçada que vai levar um balázio - 'Foge, chama a polícia ou dá-lhe com um tacho na cabeça, que essa mula falsa que está atrás de ti é amante do teu marido!'
Os filhos destas senhoras mantêm o gosto ferrenho pelo clube e sede pela cerveja, trazem CDs ou esqueletos pendurados no retrovisor do carro, os pais põem um cocho e na parte de trás uma sevilhana de renda para pôr o rolo de papel higiénico ou um cão pelo de pêssego de olhar vidrado a abanar a cabeça, deitado em manta de crochet. 
As filhas destas senhoras são divas suburbanas de salto de agulha e calça justa que trabalham na Berska, num call center ou têm um cantinho de unhas. 
Estas famílias ainda conservam o guarda sol dos anos 70 com manchas de ferrugem, rebordo de franjinhas branco amarelecido e padrão de florões LSD peace and love.
O que não é tipicamente português mas muito kitsch, são as Nossas Senhoras de Fátima fluorescentes, galos de Barcelos que mudam de côr conforme o tempo e o Gato da Sorte de pata levantada, que por acaso tem algumas semelhanças com o 'Toma' do Povinho, de bigodes e tudo!   
 
19
Out19

Grávidas ou gordas?

Rita Pirolita
 
Por causa de umas fotos de uma cantora, que mostrou o seu corpo após um mês de ter sido mãe do segundo filho e também porque sempre existiram grávidas, magras, assim-assim, balofas, gordas, baixas, altas...
 
Estar grávida deve ser muito bom e motivo de orgulho para quem gosta. 
Eu que não tenho filhos por opção, tenho uma visão muito objectiva e distânciada o suficiente, para não criticar e apenas constatar factos. 
Na boca de muitas mães, a beleza da maternidade sobrepõe-se a mazelas, ao mau estar, à depressão, à emoção, ao choro por tudo e por nada, ao peso excessivo, às  noites mal dormidas, às crostas nos mamilos, às estrias, às pernas inchadas que nem um elefante, a uma recuperação lenta e dolorosa fisica e sexual, mas muitas e com as redes sociais ainda mais, começaram a mostrar que como tudo também este estado de graça das mulheres, tem um lado menos bom e mais desconfortável, que elas, de sorriso na cara, querem partilhar com o mundo e preparar futuras mães para coisas naturais que acontecem a quem tem um ser dentro de si a crescer sem parar, até que não caiba mais e tenha que saltar cá para fora.
Não me choca nada ver grávidas ou mulheres após o parto com uns quilos a mais, o seu corpo conta uma história que espero, esteja mais repleta de curvas felizes que tristes percalços. 
As mulheres acabam sempre por ser as piores críticas umas das outras, a verdade é que não se deve incentivar a obesidade ou a anorexia e sim promover a aceitação.

Neste caso vou falar de momentos embaraçantes entre géneros diferentes, pondo a cabrice feminina de parte.
O moço tem sido vitima de enganos sucessivos que lhe têm custado amizades e provocado alguns amuos. 
 
Das muitas vezes que encontrou colegas que já não via faz muito tempo, para ai desde a secundária, em alguns casos precipitou-se e perguntou para iniciar conversa por cortesia, quantos meses faltavam para a feliz hora da cria saltar cá para fora? Ao que percebia pelo embaraço ou simples linchamento com o olhar, que aquilo não era gravidez mas sim casos graves e de gravidade lipídica. 
Começou a aprender com as repetições de maus encontros, que se não conseguia distinguir uma orca de uma orca grávida, mais valia ficar calado para não andar sempre a meter a viola no saco e não ir cantar a mais freguesia nenhuma. 
Estes breves encontros, encurtados ainda mais pela nossa estupidez e precipitação, acabavam com a triste justificação do outro lado, que o seu estado se devia a um problema de tiróide e não de gula. 
Para mim esta explicação chegava e sobrava, para aquilo que queria saber de alguém que não via faz anos.
 
A mim também me aconteceu com amigos meus, que não tinham gravidez nenhuma a não ser de cerveja, parece que tinham sido atacados por um enxame de abelhas e andavam num torpor tal como se fossem alérgicos às picadas e estivessem só na esplanada à espera que passasse, para se atirarem ao caminho para casa, de cabeça mais leve.

É por estas e por outras, que o moço para não se sentir discriminado continua seriamente e com afinco a tentar a sua sorte, como candidato à maior barriga Nenuco do ano.
 
Nenhum de nós alguma vez fez observações intencionalmente maldosas, fosse a quem fosse mas a nossa inocente distracção, culminou em momentos de vergonha e embaraço.
 
Perdemos a oportunidade de reatar contacto com alguns amigos à pala desta brincadeira e mesmo que emagreçam ou deixem de beber tanta cerveja, nunca mais na vida os vamos recuperar.
19
Out19

Puto português vs puto 'amaricano'

Rita Pirolita

 

 

As comparações que vou fazer foram todas comprovadas in loco.  
Os putos 'amaricanos' têm um pai que para os vestir, pôr na escola e alimentar, tem 2 ou 3 empregos, por isso só o vêm de 2 em 2 semanas, de barriga empinada, em frente ao barbecue com uma cerveja na mão, faz hambúrgueres em barda com um molho picante e pensa que fica a saber falar mexicano, come cachorros em pãozinho branco que parece algodão e derrete marshmallows espetados num pauzinho, na fogueira do gazibo. 
Convida os amigos para o backyard com hora marcada de chegada e de partida, desde que tragam cerveja não pagam entrada na festa. 
Os putos bebem Coca-Cola e a sua noção de comida saudável resume-se a comer tudo acompanhado de pickles, o cu agradece, não chateiam, passam a tarde a fazer bombas na piscina com o chihuahua a ladrar sem parar, rola uma weed entre os adultos e o ar cheira a uma mistura de suor com chulé e merda. 
A meio da tarde já estão todos com um tremendo escaldão nos cornos, mais duas horas acaba a cerveja e vai tudo para casa.
 
A familia do puto português: 
Nem o pai nem a mãe trabalham, vivem da reforma da velhota acamada e de uma tia que já morreu, que pelas contas já tem mais de 120 anos, têm por isso tempo de andar na festarola dia sim dia sim, sem dar tempo da ressaca se instalar. 
O menu é variado, desde salada de pimentos, sardinhas,  caracóis, bifanas e piano acompanhado de bom pão e bem regado com Sagres, vinho carrascão e Licor Beirão.
As Renatas Vanessas e os Brunos Miguéis, bebem Trina e Cola marca branca do Continente e quando ninguém está a ver escorricham os copos dos adultos, por esta altura os mesmos petizes já cortaram o rabo ao pitbull para se parecer com um boxer e o cão danado, já distribuiu dentada por todos. 
Debaixo de um calor abrasador e na falta de piscina, dá-se banho de mangueira a todos. 
A policia é chamada trinta vezes ao local por causa da kizomba em altos berros e dos rateres. 
O cheiro a incenso do chamon, comprado fresquinho na Quinta do Conde, acalma toda a gente, joga-se uma bilharada na tasca da esquina e a noite continua em alegre diversão, até que a cerveja os separe.  
21
Set19

Cozinhar para o povo!

Rita Pirolita
 
 
Até o Dr. Oz fala de comida, de dietas, de sumos Detox e leva fígados, vesículas e rins para mostrar a todos o mal que faz ao corpinho comer porcaria...

Mas hoje estou aqui para escrever sobre os programas de cozinha e os sentimentos que me provocam, já que não posso comer e cheirar o que fazem atrás do écran. 

Os olhos também comem?...Pelo menos quando vejo receitas do meu agrado começo a salivar e quase me consigo imaginar na mesa do repasto

Não me importo de comer mas sou uma esquisita do caraças, não posso comer, cheirar ou ver ovos, carne, sangue, banha de porco, polvo, ostras, baba de camelo, molotof e a lista continua.

A Filipa Gomes é a nossa Nigella Lawson portuguesa, lambonas rechonchudas sempre em dietas, num duelo interminável entre balança e goludice, não são lingrinhas como o Anthony Bordain, o Henrique Pessoa ou o Chacall, que parecem ter a bicha solitária ou andam sempre em petiscos, provam tudo e não comem nada. 
O Jamie Oliver se fosse português era criticado por usar poucos vegetais mas como é inglês toda a gente acha que faz comida muito saudável, basta pôr no BBQ uns pimentos e um alho francês e voilá, adeus colesterol britânico

A pioneira Maria de Lourdes Modesto com o seu inigualável livro Cozinha Tradicional Portuguesa, que todas as mães tinham no enxoval e a poupadinha Filipa Vacondeus e o seu arroz de cordéis de chouriço, tão bem retratada no Cozinho para o Povo do Herman, que nos pôs à procura de paprika nos supermercados, quando aquilo era simples colorau.
 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub