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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

19
Fev20

Starbucks, McDonalds, ervanárias, talhos e hospitais

Rita Pirolita
Se eu que vivo no Canadá entrar num Starbucks em Portugal e disser às pessoas que lá estão enterradas nos sofás, agarradas ao seu Samsung última geração ou laptop da maçã que nas Américas do Norte este estabelecimento tem o café mais barato e não dá status frequentá-lo, só os sem-abrigo que já perderam o brio, amor-próprio e pouca riqueza que tinham, deambulam por lá à espera de alguma coisa quente, uma aguinha tingida?...Sou insultada de certeza! 
Leva-me a concluir que os portugueses são uns cagões ignorantes, que só por pagarem muito por um café que sabe a surrapa e bichos rastejantes chamuscados, sobem na hierarquia da socialite, mostram que estão na moda mesmo que na verdade o que saiba pela vida seja o expresso, bica ou cimbalino, mais barato lá na tasca do bairro, em chávenas ratadas mas escaldadas ou só quentinhas, como tanto se deseja, a ressacar logo pela manhã.
Já nem precisamos de dizer curto, longo ou normal, forte, fraco ou pingado, por inteiro, sem princípio ou sem fim, italiana ou metade de uma italiana (uma amiga minha costumava pedir esta bomba, resumida numas poucas gotas no fundo da chávena)...porque o Sr. António lá do sítio, além de tirar um café no ponto com amor, já nos conhece de ginjeira e assim que nos vê entrar agarra-se logo ao manipulo!
Quase nos viu nascer, viu os nossos queridos avós partirem e a dedicação e sofrimento da nossa mãe a tratar deles até ao último dia, além de que o Sr. António que também pode ser Zé ou Joaquim, serve Delta ou Sical, lote Platina, produto com tratamento nacional com certeza!
Os canadianos que podem e os que não podem, esfolam-se por poder, preferem ir ao Tim Hortons, porque pagam mais caro pela mesma merda que servem no Starbucks, não piam e ainda trazem donuts de graça, pensam eles, como se não os tivessem já pago na factura inflacionada. 
Mais pobre que isto?...Caganice na mesma mas com mais frio que nós!
Como os cagões são uns empertigados, se eu entrasse no Starbucks nestes preparos, chamavam logo dois ou três seguranças, porque não podem sujar as mãos nem perder a compostura e até lá defendiam o direito à liberdade de escolha, com sermões a tratar-me por você, para se disfarçarem de tios e tias de Cacilhas via Paio-Pires, Cavadas ou Arrentela, de extremada educação que nunca tiveram nem veio de berço!
Se eu entrar num McDonalds e começar a distribuir folhetos a retratar a forma como aquela comida é processada, a destruição e poluição que provoca a sua produção, o gasto astronómico dos recursos de água potável e por fim o alto nível calórico e o alto teor de viciação que os açúcares de má qualidade têm, incluindo as bebidas que estão na mesma linha para fazer pamdam com a comida...aí o cenário já vira cirqueiro!
Os frequentadores destes locais são jovens cabeçudos de chapéu à rapper, enfiado até às narinas e calças ao fundo do cu, conduzem um Clio todo artilhado ou um Seat preto mate, mais viciados em fumar pombos que no açucar mas alegam não ter dinheiro para comer melhor ou gajos de fato armados em ocupados que parece que trabalham na bolsa e apenas têm 10 minutos para comer mas a verdade é que vendem aspiradores porta-a-porta, além de que a desculpa que dá mais pontos, é que a dieta mediterrânea sai muito cara e é difícil na prática!...
Esta última sentença não virá da boca dos McDonaltistas mas já ouvi gente que parecia culta, afirmar isto. 
Minha gente, a dieta mediterrânea só sai cara se os nossos políticos continuarem a reduzir o nosso espaço marítimo e deixarem os espanhóis pescar a nossa sardinha para depois a venderem mais cara novamente a Portugal, se continuarmos a deixar os nuestros hermanos, invadir o Alqueva com oliveiras plantadas umas em cima das outras para rentabilizar o espaço e a água, acho muito bem e depois? Produção mais barata, para vender o azeite mais caro no estrangeiro, à custa da exploração desenfreada dos nossos recursos naturais? 
Se continuarmos a delapidar a produção nacional de cereais, frutas e legumes e depois importarmos tudo ou vendermos apenas para o estrangeiro o pouco que temos de melhor qualidade e andarmos a comer porcaria cheia de químicos, resultado da massificação de enormes produções estrangeiras...não vamos longe!
Além de que, embora pareça pobretanas e medida de último recurso, do tipo só por cima do vosso cadáver, podem sempre levar na marmita e virar vegetarianos, não vos faz mal nenhum, pelo contrário e não venham com a conversa de que não passam sem um bom bife, porque isso de carne, já pouco ou nada tem! 
Ora bem, do McDonalds já me arrisco a que não chamem a polícia mas que façam justiça pelas próprias mãos com os pés, chuto no cu e lá vou eu parar ao olho da rua, rumo ao próximo local de sensibilização... 
Imaginem eu entrar num talho a protestar contra a exposição de cadáveres e cheiro a sangue e que o consumo de carne devia ser reduzido, o de enchidos então nem se fala, os portugueses comem chouriços e presunto como os chineses comem arroz e se decidirem incluir a carne na dieta, pelo menos exijam maior qualidade e controlo e menos violência e descuido na sua produção...Como se isso fosse possível mas isto é para calar os que deviam visitar um matadouro, para pensarem duas vezes antes de meterem um naco de animal à boca! 
É melhor não o fazer, já sei, arrisco-me a sair dali debaixo de fogo de facas voadoras e gente carnívora que se me deitam a mão, chupam-me o sangue todinho em 3 segundos. 
Aviso já que o meu sangue é azul da parte do pai por ser do FCP e verde da parte da mãe por ser vegetariana, por isso terão a sensação de estar a chupar clorofila, como vampiros não vão gostar e vai-vos dar cabo do sistema nervoso e imunitário!
Ultimamente o que tem dado polémica é a lista de alimentos que não podem fazer parte do menu dos hospitais e estabelecimentos similares e da obrigatoriedade, que não está a ser cumprida, de incluir refeições vegetarianas nas escolas.
Embora duvide de todo do altruísmo e preocupação do Estado com a nossa saúde, acredito que nesta área e mais ainda na educação, o melhor exemplo de conduta deve ser dado, se não onde? 
Todos continuam a ser livres de comer o que quiserem e de certeza que não passarão a ter vontade de comprar tabaco na ervanária ou carne na peixaria. 
Quando a maioria já não tem arcaboiço para entender e sentir a liberdade dentro de si, repudiam-se quase todas as sugestões como atentados à livre escolha, julga-se tudo como uma proibição e assim se subvertem as prioridades de uma nação.
Se gostam mais da previsível segurança do admoestador condicionamento, como podem lutar com verdade e convicção pelo que desconhecem e talvez por receio não desejem assim tanto?!
21
Set19

Dégolas!

Rita Pirolita
 
 
Como já perceberam, não sou fundamentalista com nada e até gosto de dedicar algum tempo da minha vida a experimentar coisas que pareçam válidas e exequíveis, para assim ir fazendo as minhas escolhas, aproveitar um pouco daqui e dali para tirar as minhas conclusões, boas ou más, passando é claro por muitos erros.

Há muitos anos decidi não comer mais carne, ovos ou beber leite, tudo isto me andava a enjoar, o cheiro, o sabor, as digestões difíceis e longas demais, enfim, passei a sentir-me melhor e isso foi o mais importante. 

Um dia quis ser mais saudável que a própria saúde e comecei a fazer uma alimentação macrobiótica, muito disciplinada e rigorosa, acompanhada por um interesse crescente pelo budismo e consequente evolução e limpeza espiritual. 
Escusado será dizer que adorei a descoberta mas aquilo não era para mim, andava na rua a arejar o esqueleto com o peso que tinha perdido.

Deixei-me de coisas e passei a guiar-me mais pela minha intuição sem nunca pôr de parte o precioso conhecimento que até ali tinha adquirido. 
De facto comecei a andar mais espevitada e não abandonei a fórmula até hoje.

Continuando a adorar a cozinha portuguesa, que é uma das melhores do mundo, de vez em quando faço incursões pelo seitan ou pelo tofu, pelo couscous ou pelo bulgur, cogumelos e vegetais sempre a transbordar do prato e sopa forever!
Já me aventurei a comprar comida vegetariana processada e a desilusão foi grande, desde salsichas de soja a queijo ou patés vegetarianos...dégolas!
Nunca represento um problema para os amigos quando me convidam para jantar, não têm que fazer um prato especifico para mim porque sabem que me desenrasco sempre com os acompanhamentos. 

Faço por ser flexível, até porque gosto muito de viajar, e ser picuinhas em países como a China, Malásia ou Filipinas?... Ninguém te liga nenhuma e se não fizeres pela vida passas fomeca.

Por tudo isto, não lido bem com pessoas que se controlam demais na esperança de viverem até aos 200 anos e morrerem saudáveis...que seca, esses mais vale despachá-los logo, jovens e ainda belos para não azucrinarem mais a cabeça aos outros.

Não concordo com o sacrifício de animais para satisfazer prazeres gastronómicos, está provado que não precisamos de carne para viver ou sobreviver, pelo contrário, o seu consumo excessivo traz problemas de saúde e ambientais, por outro lado sou capaz de gracejar sobre o excesso de zelo de determinadas pessoas em seguir à risca o que quer que seja, privando-se de dar e receber alegria e da liberdade de fazer asneiras de vez em quando.
03
Mai19

Testemunhas de Jeová

Rita Pirolita
Já fui interpelada na rua por pares de velhotas com a revista 'Despertai!' na mão.
Eu nunca entregaria uma revista com este nome logo pela manhã ou à tarde na altura da sesta, com medo de agressões!
Já fui abordada por miúdos novos que também andam aos pares, falam numa língua de outra dimensão, em nome da Igreja Adventista do Sétimo Dia. 
Nunca convidam para tomar uma jola na esplanada da tasca, que por mim não tem que ser forçosamente no sétimo dia, aliás para esse tipo de coisas não há dia nem hora marcada.
Estes mancebos são todos loiros, de olhos azuis e da mesma altura! Serão todos filhos da mesma mãe? 
Se forem, não devem ter possibilidades económicas para renovar o guarda-roupa e os fatos passam de geração em geração!
As velhotas lá por andarem aos pares não pertencem ao mesmo grupo dos mancebos mas que andam todos a falar do mesmo, disso não tenho dúvidas!
Por serem tantas só me leva a crer que a partir do desaparecimento do Jeová, que já foi há muito tempo, foram todas compradas, não estiveram lá, não viram nada, têm que inventar tudo e a K7 nunca falha!
Nunca abro a porta às Testemunhas mas certo dia descuidei-me e abri a porta de casa atarantada, num acto desesperado de fazer tudo ao mesmo tempo, agarrar e acalmar a cadela que não parava de ladrar com o som da campainha e assim evitar que fugisse porta fora. O meu pet estava apenas a cumprir a sua missão e muito bem!
Deparei com um casal, também em missão mas não sabiam ladrar, faziam-se acompanhar de uma miúda para aí de 10 anos, possivelmente já em formação para futura espalhadora da palavra ou como estratégia de marketing. 
Isto não é exploração de trabalho infantil? 
Nesta igreja deve ser tudo abençoado em nome do tal. 
Com muito esforço, este casal de ar simpático e submisso, tentou falar da sua missão porta a porta...a espalhar não sei o quê...e que vinha aí o dia do Julgamento...
Não dei muita atenção porque não tinha problemas com a justiça, nem tinha deixado nenhuma multa por pagar. 
Amigos do Jeová, esse dia vai demorar colhões de anos a acontecer, com o enorme rol de testemunhas que têm para ouvir até ao dia do Apocalipse! 
Descansem, não são os únicos, os tribunais em Portugal sofrem do mesmo problema!
Aceitei a revista e fechei a porta, depois virei-me para a peluda e tive uma conversa em canês muito séria, 'tinha passado o tempo todo a ladrar e não deixou ouvir o que aquele simpático casal tinha para dizer.' Será que o raio da bicha viu o Diabo??? 
Acredito que os cães vêm coisas que nós não vemos, nem que estejam mesmo à frente dos nossos olhos e sejam do tamanho de um palácio…nós somos os burros a olhar.
A revista usei para forrar o caixote do lixo!
Também podiam oferecer mais serviços, tal como entrega expresso de marmitas ao domicilio com opções vegetarianas...
Realmente Portugal é um bom exemplo de respeito pela religião, costumes e culturas diferentes.
Os chineses não pagam casa porque comem e dormem nas lojas e para poupar mais ainda não se deixam morrer, pelo menos em território português.
Nunca ninguém no meio da rua se atirou à testa de uma monhé  para raspar a pinta e ver se tinha prémio?!
Por acaso adoro comida Indiana, é muito condimentada e tem imensas opções vegetarianas, o que me levou a crer que a maioria dos indianos não comiam carne. 
Certo dia essa crença foi posta em causa, precisamente quando fui almoçar com um amigo indiano que já vivia há muitos anos em Portugal. 
Contou-me que já tinha sido dono de um restaurante no Porto, o que não deixava dúvidas pela sua compleição física dilatada. Nesse restaurante além de outras coisas também servia carne e quando a família vinha da Índia visitá-lo tinha que os fazer acreditar que carne por aqueles lados, nem vê-la nem cheirá-la
Saímos do restaurante até as cuecas cheiravam a caril, o meu amigo apenas tinha no papo uma sopinha, não sei se foi para me impressionar...mas não se devem julgar as pessoas apenas pelo aspecto!
Buda também era vegetariano e olha o corpinho que deitava, se calhar comia da gaveta como os algarvios!
 

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