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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

05
Ago20

Sério mas não muito

Rita Pirolita
 

 

Para descontrair da vida séria vou recordar coisas giras, frescas e fofas. 
Caramelos espanhóis que partem os dentes e cubos de pastilhas Gorila que enchem demais a boca e fazem doer os maxilares. 
Versão mais rasca de pastilha não havia que as Pirata muito magrinhas e rijas, pior que caramelos.
Se por descuido engolíamos uma pastilha amaldiçoavam logo o nosso futuro com idas ao hospital porque se ia colar às paredes do estômago, diziam.
Apesar de ser filha única nunca fui criada com mimo e nesta situação especifica que me aconteceu milhões de vezes e sobrevivi, os meus pais limitavam-se a dizer com um ar descontraído que me fazia prever e ter a certeza que não ia morrer no segundo a seguir, 'não te preocupes, o que entra sai', por isso quando engolia pastilhas só imaginava que da próxima vez que me peidasse iria fazer um balão de tal forma grande que ia parar às nuvens presa pelo cu.
Gelados da Olá? No cardápio havia Epá com uma pastilha enorme e redonda no fundo, Perna de Pau, Super Maxi e 2 ou 3 sabores de gelados de água, carregados de açúcar, talvez um Cornetto ou outro. 
Coca-Cola nem vê-la, pelo menos na minha casa, também nunca achei piada aos refrigerantes, só às bolhas mas não podia ir ao café e pedir só as bolhas à parte.

Lembro também o vinho Teobar que ia buscar à tasca a 1 minuto de casa mesmo em frente à minha escola primária, que promiscuidade, bêbados, crianças e escola tudo à distância de um passo, estas garrafas tinham tampa achatada de plástico transparente, selada com ar pouco inviolável a prata verde (tinto) ou amarela (branco)…
Já agora Sr. Evaristo avie aí este Tupperware de caracóis que lá em casa já estão preparados os alfinetes e não são os de ama, que esses não puxam o bicho para fora da casca, espetados em rolhas de cortiça para a gente saber sempre onde estão e não os engolir com a molhanga da caracolada ou picar as mãos. 
Em cima da mesa já está o jarro enorme para receber meia dose desse vinho, branco ou tinto e metade cerveja, SAGRES claro, eu não me lembro de outra nessa altura, misturam-se para ai umas 2 colheres de sopa de açúcar branco, não havia cá dietas com porra de açúcar mascavado, bebe-se e faz-se AAAAAHHHHH no fim de cada golada e a esta bebida chama-se Serenata. 
Mais uma coisa que o moço nunca bebeu ou conhecia e eu já molhava o bico na altura da primária.
Calma! Não fui criada a sopas de cavalo cansado, mas depois de uns golitos daquela bebida dos deuses era capaz de cantar uma ou duas serenatas e só queria sopas e descanso!

19
Jul20

Bonecas de Badajoz

Rita Pirolita

Como já dei a entender muito explicitamente em alguns textos nunca gostei de brincar com bonecas, sempre as achei uma imitação aberrante dos seres humanos, senão vejamos. 
Era tudo assexuado, agora é que não, mas eu nasci antes do 25 de Abril, só na altura que me começaram a crescer as maminhas é que os bonecos passaram a ter mamilos, pipi e pilinha...e eu passei a olhar para bonecos de carne e osso. 
A ausência de buracos nestes brinquedos não contribuía nada para que acreditássemos que os outros meninos eram assim, fazendo de nós os únicos diferentes e esburacados.

Havia um rego do cu mas não um buraco, lábios entreabertos mas sem vislumbre de língua ou amígdalas, narinas tapadas, ouvidos sem orifício auricular. 
Coitados, não faziam chichi, não caia ranho, eram surdos e mudos, não cagavam, também é verdade que não comiam e não davam trabalho como os Tamagotchis.
Os bonecos do xixi, do peido, do cocó, do choro, das bolinhas de cuspe e da papinha dada, vieram muito depois. 
Barbies nem vê-las porque eram caras. 
As minhas bonecas vinham de Badajoz que era o mais longe que os meus pais conseguiam viajar na altura e tenho impressão que os brinquedos vinham de barraquinhas de tiro ou eram brindes de consolação por comprarem tantos quilos de caramelos.  

Olhos vidrados, pálpebras que fechavam à mínima mexida no caçula de plástico, com aquele movimento dantesco e assustador de olhos esbugalhados de um azul transparente à boneco Chucky, com pestanas farfalhudas, penteadinhas e todas do mesmo tamanho, sobrancelhas tatuadas e cabelo áspero a cheirar a fio de cana de pesca sem uso, o terror. 

Das duas únicas bonecas que insistiram em me oferecer para me formatarem numa futura mãe extremosa, uma ficou ao canto da sala durante anos sem lhe tocar, era uma boneca enorme de plástico rijo vestida à espanhola mas de mini-saia, uma badalhoca descarada, com um cabelo negro que me fazia lembrar a Nossa Senhora dos Passos da procissão da terrinha e ainda cheirava mal, a porca, também nunca lhe dei banho. 
A minha eleita no restrito grupo tinha cabeça de borracha mole que também não cheirava muito bem, corpo de trapos, um ar simpático com sardas e uns olhos pintados, verdes, redondos, enormes, sem pálpebras maléficas a abrir e a fechar, tinha um cabelo cor de fogo já de si muito curto mas que um dia resolvi encurtar ainda mais ao aparar as pontas espigadas, na esperança que crescesse nem que fosse um milímetro. A minha querida Ambrósia ficou com um corte à tigela, bem na moda nessa altura, como o que a minha mãe me costumava fazer em casa porque não havia dinheiro para cabeleireiros. 
Note-se que a minha mãe não foi para cabeleireira só mesmo por muita falta de jeito que acabou por se confirmar na minha própria cabeça, ao fim de muitas tentativas frustradas de aperfeiçoamento.

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