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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

25
Abr21

Sem ninguém que nos goste

Rita Pirolita
Nasci antes do 25 de Abril de 74 mas sem idade ainda para ser gente de fazer a Revolução, agora tenho idade para dizer que no tempo de Salazar é que era bom mas nunca o direi. Já nasci com o carimbo póstumo de dizer em liberdade nos arrabaldes da capital, ditada pelo cravo e capitães. 

O herói morreu cedo e vai ficar até tarde, as gentes celebram este dia com amargo de pobreza e desprezo.

O que retenho a seguir a 74 é a moda colorida na cidade, as viúvas e homens cinza no resto de Portugal até hoje ficaram. 

Ninguém nos governou, continuamos sem ninguém que nos goste.
08
Ago20

Silly Season

Rita Pirolita
Dia 1 de Agosto de 2017, ouvi a notícia de que a aprovação das medidas que permitiriam acelerar as indemnizações às vitimas dos incêndios foi adiada para Setembro, apenas porque o maior partido no poder se absteve de votar. 
Os políticos que por incúria deixaram que esta catástrofe natural, o fogo em si, passasse a humana são precisamente os mesmos  que adiam a medida que permitiria acelerar o processo de ajudar quem ficou desamparado. 
Esta foi a forma mais desrespeitosa que toda a corja política arranjou de ir de férias com os juros dos milhões de donativos e suspender vidas que não as deles até Setembro.
"Queimam" tempo para que caiam no esquecimento os mortos, quem ficou vivo sem nada que seja vencido pelo cansaço, dor e sofrimento da espera. 
Agosto vai canicular debaixo de chuva e trovoadas, repleto de emigrantes e afogamentos em ribeiras e rios, ninguém vai ligar à informação contida e controlada, a típica censura embrulhada em silly season, políticos pançudos rumam a praias famosas e chiques ou retiros frescos regados com bom vinho.
O tuga bem azeitado derrete o ordenado mínimo, o RSI, ou o subsídio de desemprego em sardinhadas, caracoladas, caldeiradas, cerveja e namoradas, vêm a novela do almoço no parque de campismo, sofrem ataques cardíacos, golpes de calor e escaldões e morrem à porta das urgências por falta de médicos que nem para os turistas chegam. 
Está tudo bem por cá, excepto o que está mal, muito mal...    
12
Fev20

Quem não?

Rita Pirolita
Quem não? 

Sentiu desprezo portas dentro, viu compaixão cega e ajuda oferecida a quem não merecia, abuso de laços de sangue, desrespeito, humilhação e domínio em troca da comida que vai à mesa.
A qualquer movimento dizem que não fazes mais que a tua obrigação que não precisam de saber se simplesmente estás bem, se precisas de alguma coisa mas apesar de não prestares para nada e não mereceres, até te dão os Parabéns todos os anos e telefonam pelo Natal em jeito de missão cumprida. 
Os filhos têm a obrigação de se preocupar com os pais, de lhes obedecer e nunca pôr em causa os seus infalíveis métodos de educação, uma chapada nunca fez mal a ninguém e a violência preenche o dia-a-dia à falta de melhor, num lar sombrio que baste. 
Quando sais de casa não há olhar para trás, não há lugar a lágrimas de saudade que te enfraqueçam.
Ao mínimo pedido de ajuda em passageira dificuldade, vão-te fazer amargar cada palavra de apoio e cada tostão será cobrado, não socumbes por orgulho e segues sem amparo. 
Podia ser eu, a continuar o mesmo tipo de vida mas não, sou eu a contrariar, a evitar percurso tão errante e vicioso. 
Se tivesse rodeada de simples cuidado e bondade seria hoje mais assertiva, livre e menos defensiva.  
Neste caminho que vou correndo, a fugir de gente que me atinja com malvadez e desamor, quem me fez nascer desistiu de viver por cansaço de tanto desleixo e frieza miserável...
Quem ficou tem no meu olhar a acusação e o julgamento da culpa que não sente, com quem tenho que conviver por pena e que pensava eu me fizesse mais forte e melhor, mas apenas me aumenta o nojo.  Não sinto previlégio no sofrimento, não quero ver pena nos olhares, não me é permitida saudade ou luto nem queixa por injustiça, apenas aceitação de uma vontade doente que se cumpriu e me venceu.

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