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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

09
Ago20

Boîte de fronteira

Rita Pirolita
 
 
A cada dois meses pelo menos, o meu corpo faz um upgrade involuntário e automático do programa de GPS e baralha-se todo, nesta idade de mudança à qual chamo carinhosamente com alguma raiva, a segunda adolescência da meia-idade. 
Tira-me do sério umas vezes sentir-me balofa e outras seca que nem carapau; umas vezes livrar-me de tudo e outras guardar toda a merda; andar deprimida e um pouco menos deprimida; irritada e um pouco menos irritada; começar a ver braços e coxas de manatim em qualquer espelho ou montra que reflita o meu vulto de elefante...sinto-me um trambolho!
Sinto-me tão sexy como um transformista camafeu reformado que ainda trabalha para matar a fome, numa qualquer boîte de fronteira.
Quem disse que as mulheres melhoram com a idade como o vinho do Porto?
Só mesmo os homens poderiam ter inventado esta expressão, para nos saltarem para a espinha sem terem que aturar as nossas queixas de pneus, pandeiro grande e falta de senso porque já não temos 20 anos e gostávamos tanto! 
30
Mar20

Heidi, o avô dela, Pedro e o cão São Bernardo

Rita Pirolita
Por motivo que a vós não vos diz respeito e a mim não me apetece partilhar, estive à entrada do Parque Nacional de Jasper, sítio pipi de estância de ski e alojamentos de montanha, como se fossemos vizinhos da Heidi, do avô dela, do Pedro e o cão São Bernardo, sim aqui também os há e convivem bem com os gigantes malamutes, huskys e outros patudos grandes e peludíssimos!
Eu sei que a Heidi era dos Alpes Suíços mas isto por aqui é igual, então coberto de neve parece que nunca saímos do mesmo sítio e o c@r@lho do frio é o mesmo, qual Truman Show!
Como já disse não interessa porquê mas estive a poucos quilómetros da entrada do Parque, alojada num hotel que é um verdadeiro tesourinho deprimente, em modo canadiano. O modo piroso americano já todos conhecemos, quanto mais não seja dos filmes que nos impingem.
A cultura por aqui não é muito diferente mas tem alguns pormenores que merecem atenção à altura.
Começando pelos empregados que são todos índios, simpáticos qb, talvez até demais para um hotel quase motel de beira de estrada, de passagem para os que querem ir fazer ski ou snowboard mas não têm tanto dinheiro assim, pagam o forfait e livram-se de dar balúrdios por alojamento com pé na estância! 
Lá me vou armar em Eça de Queiroz, de descrições chatas mas não relações incestuosas que não tenho irmãos, sou uma cabra filha única, desmamada bem cedo que detesta gente caprichosa, mimada, Drama Queen e mimimis!
A arquitectura exterior é prego e racha, meia bola e força, como todas as casas aqui.
Tudo é feito em madeira, não há cá design personalizado ou de autor, é para o que serve e nisso até nem desgosto da atitude, mais vale assim que gastarem balúrdios em mariquices e depois sai uma bela merda que muita gente não sabe como nem consegue usar, não aprecia e ainda se perde no acesso aos quartos ou restaurante porque é tudo um labirinto, fruto de devaneios criativos do designer, que normalmente é paneleiro e maluco, que faz parte do lobizinho de outros tantos paneleirões e tias, que remodelam casas e jardins e ficam loucos com a mistura do moderno e antigo vitoriano, dos espelhos e dourados à jogador da bola! 
Devem andar todos a comer no mesmo sítio, para terem gostos tão próximos!
Que culpa temos nós na equação para levar com as frustrações e traumas do artista, pagos a preço de ouro, num espaço mal concebido, mal iluminado e mal aproveitado, tudo em mau e sempre a largar a lã todinha, tipo prato gourmet comido de dedo mindinho esticado e a ser enrabado ao mesmo tempo?...
Deixamos o exterior do alojamento, igual a tantos outros que abundam por aqui e no interior temos uma recepcionista índia que em vez de tailleur, imagino-a melhor de pena na cabeça e vestes coloridas, de mão na boca a fazer uau uau uau, como saudação de boas vindas e convite para mais tarde dar umas baforadas no cachimbo da paz, ali no cantinho da sala ao lado da mesa de bilhar. 
A alcatifa é bicho que prolifera por todo o Canadá, numa estagnação de tempo, para grande tristeza minha, encarquilhação das unhas, arrepio de todo o couro cabeludo e restante penugem corporal, além da electricidade estática e do ar condicionado, que me põem doente a toda a hora!
As cores são de uma monotonia para boi dormir até morrer.
Só para que não se riam sem acreditar, em muitos bairros, a planta das casas é toda igual e a cor também é exigido que o seja, o moço já disse que se vivesse num bairro destes, teria dificuldade em encontrar a sua própria casa e corria o risco de ir parar a casa alheia, que se fosse o lar de uma vizinha boazuda e gira nem tudo estaria perdido!...
Quanto a isto estou descansada porque vivemos num apartamento e vizinhas giras por aqui e arredores é coisa que não abunda, existe para troca muito camafeu e fufa, se alguém estiver interessado...
Ora bem, detida nas cores ainda me apraz observar que as paredes são de tom cocó, de cinza a castanho, pode existir um azul cinza ou um rosa cinza mas tudo muito apagadinho, já quase a desmaiar com falta de cor. 
O bar, salão de jogos, sala de pequeno-almoço, almoços, jantares e reuniões, é um e o mesmo local, decorado com as mesmas cores deprimentes e alcatifa coçada de tanto aspirador barulhento. 
Abundam molduras tortas e cheias de pó, ou se calhar nem tanto assim mas insistem no à média luz te vi, à média luz te amei e foi à média luz que à merda te mandei, que dá um ar sujo, porco e peganhento a tudo. 
As fotos variam entre vaqueiros e jogadores de hóquei, uma mesa de bilhar a um canto jaz triste com passado de grande movimento alcoólico e tacadas, vending machines em quase todos os cantos além de café e micro-ondas.  
Para meu espanto, que não sou de cá, à saída desta sala ouço água a correr e vou a ver, deparo-me com um lago interior claro, porque lá fora tudo congela, com água limpa e quatro peixes lá dentro, VIVOS a rabear e a olhar para mim à espera de comida, pormenor de monta, uma luz vermelha sai do fundo negro do lago-tipo-banheira-de-bebé.
Parece que estou numa viagem de LSD ao mundo dos motéis perdidos no meio do nada, onde todos os dias entram putas e saem dealers mortos!
Perto deste hotel existe um supermercado com prateleiras muito organizadas e empregadas simpáticas e bem dispostas, tanto que até estavam agarradas à barriga de tanto rir, enquanto uma delas me registava as compras, dirigindo-se a mim também ao contar a história de um cliente que vive na zona e apareceu para pedir um refund de uma galinha que tinha comido e lhe tinha causado alucinações, a senhora não podendo disfarçar mais o riso, chamou o gerente para resolver a misteriosa galinha aromatizada com erva. 
Afinal estamos no Canadá, sítio de maluqueira certa e séria!
Para que não pensem que sou mentirosa aqui deixo fotos deprimentes mas reais.
Sim, estive lá e ao pequeno-almoço às 6 da manhã estava a comer waffles congeladas, porque tive medo de as meter na torradeira por estarem a pingar, depois deixei de ser tão parva e agarrei-me a um muffin a pingar gordura, senti-me mais parva ainda. 
Desisti e bebi um café a saber a mata-ratos, dei um murro no peito e lá fui eu toda lampeira, preparada para a loucura do dia!
Estive o tempo todo a perguntar a mim própria, que c@r@lho faço eu aqui, num sítio desolado e congelado? Figura de quem bate bem da bola não é de certeza!


Banheira dos peixes!


Mesa de bilhar abandonada e triste, de notar o bom gosto nas cores e padrões contemporâneos!
02
Mai19

Campistas

Rita Pirolita
Os campistas são bizarros, normais ou anormais, previsíveis, excitados, prazerosos, descontraídos ou contraídos e vão sendo outras coisas mais...  
Os 'tios' que antes de jantar aparecem de banhinho tomado, com ar de donos do parque de campismo, com a madame a reboque de braço enganchado, para o moscatel ou whisky com muito gelo. 
Homens de porte de titans, agarram ao colo com ligeireza lulus franceses de 2 quilos, de orelhas borboleta, olhos esbugalhados e ladrar irritante. 
Avós babados ou pais chiques e betos, fazem-se acompanhar de cão de marca, de língua azul, com 50 camadas de pêlo, preparado para dormir no congelador. Se a raça sofre muito com o calor, porque não vivemos na Sibéria e se está preparada para puxar trenós mas não é muito amistosa com crianças, pessoas em geral e apartamentos ou varandas são autenticas prisões...nada disso interessa, o que interessa é que o preço do cão mostra a riqueza de bolso e a pobreza de espírito.
Tratam os filhos por você Martim 'práqui' ou você Matilde 'práli'.
 Gente da barraca que nunca conseguirá tirar a barraquice de dentro de si...estão no sítio certo para armar barraca. 
Os que abraçam o balcão do bar, debruçam o peito e encostam a barriga com delicadeza, como quem vai tomar balanço e saltar à barra, mas afinal só querem fazer figura de engraçadinhos, tudo isto para pedirem 2 cafés porque já jantaram na caravana, ela de pochete debaixo do braço, cabelo curto de baixa manutenção à camafeu, em pescoço de galinha marreca, ele de calção, sapato de vela e barriga descaida de grávida em fim de tempo. Depois do café levam as chávenas vazias até ao balcão, como a mostrar aos outros o bom comportamento a imitar, pagam o serviço mas até dão uma mãozinha e deixam a mesa limpa para o próximo casal maravilha de jarretas. 
Os que conhecem todos e mais alguns, os que conhecem alguns de muitos e os que não conhecem ninguém, nem sabem do que falo porque não fazem campismo, como os festivaleiros radicais de trazer por casa, que dizem que  aparecem no parque de tenda em riste mas depois não assumem a dependência do comodismo e não põem lá os cotos. 
Os que lavam roupa e estendem sem pudor as peças intimas, os que guardam tudo e depois logo lavam em casa. Os que lavam louça de alguidar, com detergente e esfregão e os que comem enlatados e sandes. 
Os que com mais de 50 anos ainda se aventuram a conhecer Portugal em bicicleta e pedalam debaixo da canícula pós almoço. 
Aqueles que já passam dos 40, ainda não tocaram os 50 e insistem em tendas à medida, onde se entra quase em voo e de onde se sai a rebolar como baleia encalhada em águas rasas...quanto mais pensar em pedalar, dar cabo dos glúteos, gémeos, nalgas e outros apêndices afins. 
Mulheres de meia idade que se passeiam desnudadas em praias naturistas como se tivessem 16 anos, a engatar surfistas de abdominais definidos, ombros largos, olhos verdes e cabelo queimado, a curtir música techno e a fumar ganzas como se não houvesse amanhã.
Sarrabecos que se vestem à noite como se tivessem chegado de uma importante partida de golfe, com a sua dama loira de voz grossa que fuma Marlboro, não Ventil, tabaco de pobre, pequeno e mirrado, que não fica elegante entre dedos o tempo suficiente para espalhar dondoquice.
Os que vêm o jogo da bola de fim-de-semana e barafustam como se o caso fosse grave e talvez situação de fim do mundo, com bitaites na fila da frente, sempre a virar a cabeça para trás, à procura de aprovação em adeptos desconhecidos.
Os dias acabam em tendas pequenas ou grandes, bungalows, caravanas, carrinhas pão-de-forma, abrigos, tipis ou ao relento, em noites quentes e bem regadas com cerveja ou bebidas fluorescentes de discoteca da aldeia! 
  

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