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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

05
Ago20

O poder dos intermédios

Rita Pirolita
 
Se já são gordas não comam em público com cara de nojo de quem está a fazer uma dieta rigorosíssima para ser modelo plus size, com o vosso corpinho ninguém acredita que não querem devorar num minuto o que têm à frente!...
Se já fizeram todas as dietas do mundo e nada resultou ou estão naquela idade de merda que tudo cresce menos o dinheiro na carteira, mais vale serem rechonchudas felizes ou gordas assumidas que magras impossíveis de aturar. 
Tudo o que fazemos nunca chega e ficamos escravas do absurdo inatingível. Queremos ser o imaginário de ninguém.
O culto da independência esconde a incapacidade de saber estar acompanhado. 
Vivemos na ilusão dos amigos distantes, para nem cheirarem a nossa orgulhosa solidão numa selfie. 
Se temos 500 mil likes no facebook, outros 5.500 biliões não sabem de nós, se acabamos de sair do cabeleireiro ninguém nota...e o meu moço tem uma ejaculação ocular com a mulher do anúncio que exibe pernas até à cintura...e eu não me importava de ser lésbica ou pegar na mão dele e ir ter com a photoshop baby para um ménage à trois!
Eu sei que aquelas gajas não existem assim na vida real, mas quando tenho mais umas gramas em cima do pêlo sinto-me uma porca em pé e até os brincos me ficam mal! 
Imagino que só existo com photoshop e sem intermédios!
 
25
Jul20

Breakfast at Tiffany's

Rita Pirolita
Quantas pessoas não sonham em tomar o pequeno-almoço na cama nem que seja uma vez na vida? E nunca tomam ou nem têm quem lho prepare ou sirva?! 
Eu gostava de saber onde raio tem origem este gosto burguês, recuará ao tempo dos reis ou apenas começou com os filmes americanos e novelas brasileiras?
Se querem que vos diga acho uma foleirada tomar a primeira refeição da manhã ou qualquer outra na cama, com os dentes cheios de gosma, a boca a cheirar a aterro sanitário, ramelas nos olhos inchados, cabelo no ar e pijama desalinhado!... 
Ou não me digam que para comer na cama se levantariam com antecedência para se arranjarem, para não arrepiar a torrada e entornar o sumo de laranja com o susto da vossa fronha logo pela manhã?... 
Querem parecer ricos e fazem o que está ao vosso alcance, sem o carro e a vivenda mas enfiados num qualquer buraco da Amadora ou Baixa-da-Banheira? 
Sonhar é gratuíto e existe uma vida melhor que esta mas é cara como a porra!
Não têm sumo de laranja espremido na altura e decidem comer todos os dias os entediantes cereais? 
Acham que é sensato e prático comê-los na cama com o azar previsível de entornarem tudo e terem que limpar lençóis e mantas, do que mais se parece com vómito? 
Queriam além de tudo ter um príncipe alto, moreno, musculado e de olhos azuis a preparar o repasto todo nu no meio da cozinha, aparecer à entrada do quarto e vocês fingirem-se excitadas com a surpresa, quando estão é mortas de fome e em 10 minutos têm que enfardar tudo pela goela abaixo, tomar banho, maquilhar-se, vestir-se e zarpar para o trabalho que já estão atrasadas?... 
Minhas queridas sonhadoras de meia tigela de cereais a boiar em leitinho de amêndoas, estes pequenos almoços são apenas para a classe que não trabalha, que tem um rapaz bem-parecido e espadaúdo para tratar da piscina da mansão, que por acaso também se ajeita no bricolage de tronco nu. 
Vão lá ao café Tiffany's por baixo do vosso prédio, beber um galão e comer um salgadinho, armadas em finas de unhaca de gel espetada no ar, a exigir o galão com 12 gotas de leite de soja, café biológico de máquina com o princípio mas sem o fim, bem prensado e a escaldar, servido em copo frio para não queimar os dedos. 
O salgado tem que ser aquecido em micro-ondas apenas 30 segundos e o Correio da Manhã tem que estar disponível em mesa limpa de mealhas ou sumo peganhento.  
Sejam lá felizes com estes parcos minutos à patroa a mandar no empregado de café que com jeitinho até desentope canos lá em casa tarde e a más horas!
15
Jul20

Sem aviso

Rita Pirolita
E eu a pensar que a vida ia só ser atribulação de pão seco, mealhas desgarradas, agora espalho dourada manteiga, levo colherinhas de geleia à boca que me entretenho a penicar com pequenos beijos.

Os dias começam em esperança de pequeno-almoço alvorado, os músculos do tempo esticam em turpor de cama.

Sem a espera de dias melhores, apenas vivo sem fazer contas ao que me espera ou resta.

Quando morrer não aviso, enquanto viver vou deixando de avisar.

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