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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

25
Abr21

No dia da Revolução

Rita Pirolita
No dia da Revolução lembro-me que o meu pai queria ir comprar tabaco nem que fosse a Cacilhas que naquela altura ficava no fim do mundo. 
A minha mãe descabelava-se que "era muito perigoso", que "era uma revolução e que estaria tudo fechado em todo o lado". 
O meu pai deixou de fumar por umas horas ou talvez um dia, deixou de fumar por um mês por causa da maldita operação à vesícula e depois finalmente deixou de vez depois dos 50, agora está feito hamster atleta de passadeira de ginásio.
O meu fumar começou por curiosidade, todos começam assim já sei, mas comigo foi por ficar especada aos 7 anos a olhar para o meu pai a fumar, ele não vai de modas, “queres?” e espeta-me com o cigarro nos beiços que até embacei, ainda por cima aquilo parecia mata-ratos, SG Filtro, curto e forte, primo directo do SG Gigante, longo e forte. 
A minha mãe salvou-me do vício, com a frase, "o que estás a fazer à menina?"
14
Jul20

Tudo igual

Rita Pirolita
Se me fizerem a mais que gasta pergunta, onde estavas no 25 de Abril de 74? 

Eu respondo que apesar de um par de anos por essa altura me lembro da minha mãe feita barata tonta a arrepiar sapatos no soalho de tacos grossos, alguns levantados, rádio ligado a medo e logo desligado a seguir, vezes sem conta por receio que a revolta entrasse à boleia das ondas hertzianas. O meu pai agarrado à nicotina a ressacar por falta de SGFiltro, a pensar ir a Cacilhas comprar tabaco por que tudo tinha fechado e Cacilhas era o buraco mais sujo que garantidamente estaria aberto mesmo em dia de revoluções irrepetíveis.

Eu devia andar por ali a cirandar e de vez em quando lá a minha mãe me agarrava que não sabendo o que pensar de tal situação muito menos saberia o que fazer com mais uma à sua responsabilidade, ainda sem idade para entender a revolução iria ser sua filha forçada, parida no Estado Novo e abandonada aos que destruiam, não comiam nem deixavam comer, fugidos os ricos voltaram depois da Reforma Agrária para pegar no poder que deixaram em suspenso.

De uma pobreza extrema como ervas daninhas cresciam num jardim inculto crianças ranhosas, agora obrigadas a ir à escola ou literadas à distância de uma inovadora tele-escola!

De divórcios em barda ficou a capital cheia, mini-saias, cabelos oxigenados e fumadoras, licenças de isqueiro para o catano e soutiens para o galheiro. 

Estagnação e miséria continuaram no interior e zonas rurais ali mesmo aos pés da cidade, as viúvas continuariam de negro como as ciganas, até ao fim da vida, as sopeiras sofreram empurrão para casar e se arrumarem com o mais composto e de posses que aparecesse.

Comunistas convictos que viviam sem televisão ou carro a reboque dos comunistas mandatários e capitalistas, a AD e a APU conviviam nas paredes de qualquer bairro, os cartazes dos vários partidos, demais, acumulavam-se em camadas de cola-ranho a pincel, em luta que contínua do povo que jamais será vencido, lado a lado com anúncios de touradas.

Idas a Fátima, por mais sacrifício que se fizesse tirar pão da boca para dar aos santos de pedestal e ao cura ainda respeitado, violador de todas as regras de uma vida com parcimónia teatral, abuso descarado nos prazeres da comezaina e beberrice e mais escondido o salivar por carnes fêmeas e bezerras!

Todos a trabalhar e a reclamar para ganharem tanto como o patrão, greves e sindicatos, cooperativas desfalcadas, políticos oportunistas. 

Que todos tenham direito a pão, saúde e ensino, o trabalho dignifica, não aos escravos do campo que nos dão a comida, cursados em classe média começaram a ter e saber demais, nem todos podem ser ricos, é melhor que sejam mais os pobres, amofinados e controlados, sem casa grande de ostentar, enfiados e arrumados em drogas e quezílias. 

O progresso travado traz libertinagem, falsa liberdade e servilismo.

Deixamos sempre passar tempo demais para nos esquecermos que quase tudo está igual.

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