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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

06
Jul20

Um conto ou dois

Rita Pirolita
Nem sei se vos conte um conto ou dois, sem acrescentar três pontos. 
Eram assim aqueles dias de cabelo comprido, crespo e ondulado, os outros escorridos, loiros e brilhantes, alta e magra, joelhos negros de cicatrizes, outros alvos e gorduchos. 
Semblante de cigana de bairro pobre, quase a viver na rua, com casa virada do avesso.
Sou líder da minha tribo e rodopio para me transformar em super-mulher, tão invencível que até os rapazes se baralham mas não se deixam ficar.
Serei sempre a rapariga que joga carica e berlinde, à macaca, ao canivete e ao pião, aos carrinhos de rolamentos, monta bicicleta alheia, e ao fim do dia olha para as bonecas mas mexe nos carrinhos.
Televisão a preto e branco, escola à tarde, férias de verão em três meses de praia a perder de vista, dois de campismo, calor matinal, abrasador à tarde, noites cálidas, pão com manteiga e açucar, hortas de abelhas, moscardos e minhocas, ervilhas de cheiro e feijoeiros, correria na mata sem medos.  
Regresso às aulas, fim de dias longos, começo de humidade, chuva e estrelas de Natal, frio invernal de galochas.
Amanhã o silêncio será quebrado mas agora vou dormir sem história nem conto...
04
Dez19

Papel de parede

Rita Pirolita

Todos sabem a beleza ou dor de cabeça em que um papel de parede se pode ou podia transformar, na altura que mais esteve em voga.
Nos anos 60 os padrões eram de uma alucinação de LSD e mezcal, cores explosivas, desenhos cheios de movimento e corpo, malmequeres, girassóis, flamingos, cornucópias, selvas de folhagem vibrante, bolas, espirais e estrelas que trocavam os olhos em sobreposições e jogos de traço.
Papéis espessos, com relevo, pesados de cola, mal postos, tiras desencontradas ou descaídas, remendos, manchados de humidade ou comidos do sol, a descolar,  a forrar armários, cabeceiras de camas ou mesmo casas-de-banho...
Tudo tão saturado e piroso que cada vez que entravamos em algum sítio com estes padrões ficávamos sem ar, oprimidos, sentíamos que a qualquer momento podíamos ser engolidos pelo compartimento e desaparecer por um ralo de alcatifa farfalhuda e cheia de pó e cabelos!
Uma coisa ficamos a saber, estes adereços de parede, eram tão difíceis de tirar que mais valia sobrepor tímidas e deslavadas flores com camadas de animais, depois mudar para desordenadas ramagens ou geometria desacertada, conforme as tendências que a Vogue ditava! 
Na altura que saiu de moda, era ver-nos a descascar paredes sufocadas de tanto enfeite, com o que tivéssemos mais à mão, desde facas, espátulas, colheres, tesouras, martelos, escopro... 
Os papeis evoluíram muito, ele há-os laváveis, personalizados, assinados por criadores de moda...
Os de boa qualidade e padrões de bom gosto, continuam a ser caros, a aplicação continua a requerer algum tempo, calma e um pouco de jeito, se houver experiência anterior, tanto melhor!
Apesar da moda ter voltado, já é difícil terminarmos a tarefa de aplicação, enrolados num colete de forças de papel ou com cola viscosa no cabelo, olhos e roupa.
Agora as aplicações reduzem-se a uma só parede e a cola é mais fácil de colocar e também tirar quando nos aprouver! 
Os padrões vão buscar muita da inspiração de há anos, com um toque refinado de palácios de paredes forradas a seda!
Dourados e pretos misturam-se em gosto refinado, clássicas flores de lis, turquesas mar relaxam, vermelhos agitam e laranjas vibrantes acolhem, cores puras com relevos que são um autêntico baile para os olhos e sinfonia para os sentidos!
Pensavam que além de papel de parede ia falar de quê?...De carpetes peladas ou peludas...e do Natal? Também podia mas sou alérgica!
27
Mai19

Quanto mais 'miga' menos se lhe arrima

Rita Pirolita
Temos conhecidas de vista, aturáveis, conhecidas por arrasto ou solidariedade com amigos nossos, conhecidas do trabalho e depois vários níveis de amigas. 
 
Já tentaram catalogar os vários tipos? 
Eu vou tentar sem me rir muito.
 
Aquela amiga que pensa ter intimidade suficiente para nos tocar e estar constantemente a tirar cabelos, migalhas de bolacha ou borboto da nossa roupa. 
 
Há aquela que se dedica a sacudir a caspa dos ombros e aproveita para nos recomendar a melhor marca de shampoo anti-caspice ou a não usar blusas escuras.
 
A que se acha a maior sumidade com direito a MBA na área da amizade, reclama exclusividade em saber os nossos segredos mais obscuros e íntimos, tem que saber quem namoramos antes do próprio namorado, fica ciumenta se damos mais atenção a outra, chora no nosso colo porque não sente que é a melhor e única amiga e nós lá temos que a confortar sem que perceba que boas amigas vão-se encontrando ao longo da vida e ninguém tira o lugar a ninguém
Estas amigas não percebem que o coração não tem compartimentos e mesmo que tivesse, quando está tudo ocupado, arranja-se sempre lugar para mais um inquilino.
 
As amigas que nos procuram quando têm problemas com o namorado ou estão sozinhas e querem ir sair nem que seja ao centro comercial, a ver se arejam a solidão patarecal e quem sabe arranjam macho, conforme o nível de desespero, às vezes até marcha o rapaz do totoloto.
 
As que se estão a candidatar a grandes amigas e vão fazendo leves incursões nas nossas rotinas com mexericos como desbloqueadores de conversa. Só cai na armadilha quem quer!
 
Há umas de quem continuamos amigas porque o rapazito com quem andam é mais interessante que ela e até chegamos a pensar que não o merece e que nas nossas mãos estaria mais bem entregue. Nunca temos intenção de desfazer lares mas às vezes eles também chegam às mesmas conclusões que nós e a coisa até se proporciona, perdemos uma amiga e ganhamos um curto mas bom período de diversão.
 
Aquelas que ficam chateadas por virem a saber que o moçoilo com quem andam passou pelas nossas mãos e têm nojo de comer restos.
 
Aquelas que são tão chatas, narcisistas e mimadas que servem para ir ao centro comercial em dias que nos apetece beber um café e ver montras sem a intenção de comprar seja o que for, porque o guarda-fatos lá de casa rebenta pelas costuras
Nestes dias tomamos a decisão anual de dar roupa para a igreja, para nos sentirmos melhor com a desculpa de ajudarmos os mais necessitados, quando o que queremos mesmo é renovar os trapos e passamos nós a fazer de princesas pobrezinhas, sempre a queixarmo-nos que não temos nada para vestir ao olhar para um roupeiro quase vazio, isto na perspectiva de quem tem tudo o que quer e até demais.
 
Aquelas que estão sempre a cobrar saídas porque estão sozinhas e nós arranjamos namorado pouco tempo, estão-se sempre a insinuar, até parece que invejam a quantidade de quecas que damos. Elas quando estão acompanhadas ainda fazem pior, voltam a dar à costa todas chorosas, quando os gajos lhes dão com os pés porque voltam para a ex ou porque acabam por confessar que são casados e têm uma família numerosa ao estilo africano.
 
As peganhentas, que num par de meses de amizade nos tratam por 'migas' ou 'quiduxas'.
 
A amiga beta que está sempre a criticar tudo o que vestimos, calçamos, cabelo, make up, unhas, postura...e diz que o faz para nosso bem, para termos um ar decente e não brega, quando o que a corroí é a inveja desmedida do nosso corpo e das nossas conquistas.
 
As que se aproximam porque vêm que temos muitas 'connections' e através de nós acham que até podem arranjar emprego, gajo ou entrar nos sítios da noite frequentados por betos da linha com graveto.
 
No fundo estas são todas amigas 'contrafeitas'!!!
 
A verdadeira amiga é tão autêntica que não existem palavras para a descrever, todos sabemos o blá, blá, blá de trás para a frente - 'está lá sempre e quer se queira quer não, diz o que pensa mesmo que faça mossa.'

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