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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

01
Abr20

No aconchego da família

Rita Pirolita
É tão bom sentir o aconchego dos jantares de família aos fins-de-semana ou em dias de celebração, quando os presentes são mais que muitos num lar farto de bonança, bafejado por harmonia e tão iluminado que até as bochechas afogueadas dos petizes reluzem. 
Calorosos ajuntamentos que acabam sempre na sonolência de discussões imberbes onde não se degladia razão. 
Estar à lareira embrulhada em ronhice de gato a beber um bom vinho e ter ainda melhor companhia, mesa ambrosia, crianças a brincar, a correr e a gargalhar.
Os cães lá fora ladram aos pássaros numa azafama própria de quatro patas e os felinos meio domésticos, meio abandonados, são cúmplices de vigília. 
Saber que mesmo depois de adultos quando estamos de maleita, chateados ou magoados a mãe nos aconchega, o pai nos defende de ataques e investidas e os irmão ficam do nosso lado em total conluio cigano. 
Ter a certeza que nunca vamos ficar na rua ou passar fome, não o merecemos, somos boas pessoas, só nos deram amor e cuidaram com carinho extremoso, não fazemos mal a ninguém, não precisamos de dilacerar a nossa alma em acontecimentos viscerais, tudo é doce e suave, até a morte dos mais velhos é chorada com admiração e mantida viva a memória da herança de exemplos altruístas, de compaixão e união indestrutível.
As lágrimas e os soluços são sustentáveis na partilha, já os sorrisos são distribuídos por todos em doses generosas quase a ficar sem ar de tamanho júbilo.
A casa de família é conservada por todos e cuidada como ninho perfeito do amor desinteressado, as férias são sempre em grupo numeroso no meio de dádiva e alegre confusão.
As mais pequenas discussões são resolvidas em nome e respeito pelos mais velhos que ainda vão estando mas também pelos que já partiram e rondam na garantia do equilíbrio, para proteger das incautas e fugazes desavenças e roturas.
Em alguns domingos vai-se à igreja cumprir tradição, arejar a perfeição e agradecer por tamanha harmonia que só poderá vir de bafejo divino.
Os nascimentos são celebrados efusivamente como continuação de tanta bondade que impera no seio de todos.
Esta podia ser eu, bem gostava que fosse mas não, nunca tive nada disto e imagino que a maioria de vocês também não e deduzo isto só para não me sentir tão só nesta minha estranha forma de vida mas se a vossa é melhor, aproveitem ou tivessem aproveitado.
21
Mar20

Os deuses nunca estiveram loucos

Rita Pirolita
Lembro-me do tempo do auge da criação e gestão aceitável das cooperativas, logo a seguir à Revolução de 74 na senda da Reforma Agrária.  
Por breves momentos na história de Portugal o povo tinha a sensação que se podia governar e orientar, até começarem a subverter o espirito de solidariedade cooperativista com ganância e roubos. 
Na altura da crença única no mito, na era primordial da humanidade, que não me lembro, porque não estava lá mas pelo que resta e perdurou até hoje, consigo perceber as pueris e desinteressadas rezas, oferendas e sacrifícios a seres superiores, que à altura era o entendimento possível para os fenómenos do Universo. 
Saberiam os nossos antepassados assim tão pouco sobre o papel avassalador dos deuses? Umas vezes mostravam-se irados e outras bem-feitores de mãos largas, depois da tempestade espalhavam a bonança de colheitas generosas, mais alimento, mais bocas a nascer! 
Começamos a ser demais para nos entendermos, coisa em que já não éramos bons quando seriamos apenas dois, o Adão e Eva como todos sabem, começaram logo com divergências, ela comeu a única maçã de que dependia a máscula sobrevivência, romanceada em tentação e ele toma lá que vais ser mal parida por uma costela minha! 
Depois quando pensávamos que sabíamos muito da vida mandamos os deuses aos porcos com o comunismo e deu no que deu, porra e meia e merda inteira.
Passamos a acreditar em homens que se endeusavam a todo o momento, na ansia louca de que o seu caminho era inquestionavelmente certo, tão certo que descambou sempre em coisas tão desequilibradas como a fome e a guerra que continuam a matar milhões, domínio cego, ditaduras, desgraça, escravatura...You name it!
As mesmas atrocidades se repetem na destruição do ateísmo que esconde o capitalismo e louva o Deus dinheiro. Igreja e politica enrolam-se em lençóis de prostituta promiscuidade.
Para fugir à responsabilização pusemos a nossa vida nas mãos de líderes que pensamos eleger democraticamente. Ilusão mais ilusionada não há! 
E assim nos deixamos levar por promessas de maus pregadores e pagadores que representam e bem o nosso egocentrismo, narcisismo e misantropia. 
Sendo assim como podem representar os sentimentos de altruísmo humanitário se ele nunca existiu e esteve sempre no segredo dos deuses, como as tempestades e as estrelas cadentes nos antípodas da pré-história? 
Os deuses nunca estiveram loucos, não seria melhor deixá-los intocáveis lá bem em cima e não termos a pretensão de os ter mal representados cá em baixo? 
Se bem não fizer?...Pior do que já provocamos não virá ao mundo!

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