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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

01
Fev20

Swarovski

Rita Pirolita
Se tantas lojas existem da Swarovski, muita gente deve comprar para oferecer ou fazer colecção de quinquilharia cara e frágil e que como bons bibelôs que são, cumprem bem a sua função, não servem para nada, a não ser para apanhar pó e perder o brilho intenso, característica que melhor define o cristal. 
Agora até começaram a surgir acessórios de moda, como pulseiras, brincos, anéis, broches...mas no início apenas se viam colecções de animaizinhos que eram lançados de tempos a tempos por espécie ou grupo, passarinhos, tigres, pandas, cavalos, dragões e tanta outra bugiganga como estrelas ou gotas de água...
Que prazer se tirará em olhar para uma lágrima de cristal ou um cavalo estático num esgar de esforço com as crinas ao vento, ou um tigre a rugir cristalizado no tempo? 
A loja tem a política, não sei se ainda mantem, de enganar os compradores com a balela que o produto não perde valor no mercado entre coleccionadores e até a própria loja o pode comprar de volta. 
Imagino que o possam fazer em casos raros de peças antigas e de produção limitada mas nunca praticarão preços de leilão em plena loja. 
Ou seja, a pessoa tem que ficar com uma quantidade de tarecos que ou estão devidamente acondicionados nas caixas originais ou se estiverem expostos, têm que ter seguro contra sismos, crianças, animais e pessoas com mãos de aranha, serem limpos de tempos a tempos e manipulados com muito cuidado. 
Para uma coisa que não serve para nada e ainda pica nos olhos com o brilho, não merece tanto cuidado e preocupação nem muito menos o dinheiro que custa!
A Swarovski é uma marca de classe média alta, que frustrada por não conseguir chegar aos diamantes e rubis se fica por algo com brilho intenso mas que igualmente não serve para nada senão para a cagança, tal como os pretos gostam de andar carregados de correntes e dentes de ouro, montados em carros brancos de jantes douradas.
Os verdadeiros ricos devem achar tudo isto uma mexeroquice, no máximo digna de jogador da bola! 
Como já perceberam eu não ligo nada a estes pechisbeques de vidro ou outros que sejam, os únicos cristais que me detenho a apreciar, são estes da minha varanda, mais naturais mas tão efémeros como o preenchimento do vazio com vazio! 
 
 
16
Mai19

Bibelôs e afins

Rita Pirolita
Digo eu que os bibelôs servem para fazer monte mas há quem os exponha religiosamente, à mercê de uma pasta de humidade e pó, que dá uma tonalidade baça no geral e escura nos interstícios. 

Dispostos em prateleiras e prateleirinhas, servem para recordar quem os ofereceu e em que data, quando algum se escapa das mãos e parte, a cola pespega, e a disposição de acaso apenas aparente, volta a ser respeitada, por tamanhos, cores e origem. 
Às vezes lá se perde um dedo minúsculo de uma bailarina ou uma pétala de flor que a bucólica menina cheira ou até uma asa de uma andorinha, mas não é por isso que ninguém deixa de dançar, cheirar ou voar. 

Os bibelôs pertencem todos à mesma classe de especados, que não fazem nada e servem para muito menos, podemos por isso ter em saudável convívio uma Notre Dame de Lourdes, que o tio emigrado trouxe de uma peregrinação ao santuário, vira-se a santa de pernas para o ar e chama-se Made in China, na melhor das hipóteses diz Limoges, estava eu a escrever, que a religião convive bem com uma folha de couve do Bordalo, um manguito do Zé Povinho ou mesmo uma lagosta a marinhar chaminé acima. 
 
Jarras de vidro grosso, em casas onde não há dinheiro para flores todos os dias, sempre podem servir para matar algum meliante que queira forçar a entrada no doce lar.
Fruteiras de uma vida inteira, sem nunca terem levado com fruta lá dentro, jazem esquecidas em cima de frigoríficos ruidosos com 30 ou mais anos, que as coisas dantes eram feitas para durar, assentes em pequena peça de crochet de linha número zero, que mais parece renda de bilros, amarelinhos e tesos da peganhenta gordura de anos consecutivos de frituras.
 
Pechiché, faz-me lembrar coisa mal cheirosa, pode congestionar ou esconder-se no lusco-fusco de um hall minúsculo, à espera que alguém marre com ele ou parta o dedo pequeno do pé, nas salientes patas de leão, como também pode fazer parte do conjunto de quarto, com espelho de painel triplo em forma de vieira de Vénus de Milo.
 
Que mais posso acrescentar sobre estes apêndices, perfeitamente dispensáveis num lar?... 
As passadeiras, tapetes e tapetinhos, mandam velhos todos os dias para o hospital com cabeças rachadas, as banheiras partem fémures e bacias e matam entre três a sete dias, qualquer um com mais de 80 anos...
 
Ainda bem que o IKEA nos veio mostrar a inutilidade do supérfluo e a necessidade dos senhores que montam as coisas!  

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