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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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15
Jul20

Velhos de morte

Rita Pirolita
Sabem quando se fala dos velhinhos que nos são familiares ou mesmo familiares de sangue, avós, tetravós, bisavós, tios-avós, avós de amigos, mães velhinhas?...

Da velhice vêm os velhacos, os doces ou amargos, as coscuvilheiras, as beatas, as timidas ou conservadoras, as fogueteiras ou badoleiras, os compreensivos e suaves, os irrascíveis ou maus como cobras, as bestas e os bestiais, os ditadores, os sumiticos e sovinas, os marotos e malandros e os que nunca deixaram de ser bons, daimosos e boémios, com piada ou sem graça, asneirentos...

Ficaria aqui infinitamente a descrever o que os novos refinam em velhos e nunca mudam!

Bem vistas as coisas recordamos até umas poucas gerações à frente o que foram os nossos atrasados defuntos, depois tudo se esfuma, excepto os que ficaram na história por actos inventados de bravura que na realidade foram precipitados acasos, condicionados por acontecimentos muitas vezes alheios à força deificada do personagem.

Os nossos antepassados, anónimos para o resto do mundo, são recordados e falados quando vamos buscar gestos ou atitudes siamesas, não considerando que somos todos da mesma cepa torcida e retorcida, damos uma importância especial ao nosso tio que um dia pegou num cajado e pôs 100 homens em fuga para salvar a honra de ser pobre mas honesto!

Na cabeça dos ascendentes as atitudes mais estapafúrdias são sempre justificadas com uma forte razão de agir, ou sim ou sopas ou vai ou racha que no momento outro desfecho, no quente da situação, não se vislumbrava, algumas vezes dava-se piada à historieta no meio de tanta desgraça.

Falamos da força e bravura de se viver em tempos idos sem latas de Coca-Cola ou tupperwares, sem pensos higiénicos ou rápidos, de parteiras, bruxas e aberrações, de cataclismos de céu-fogo e lua dançante, chuvas de sapos e canivetes, visões, loucuras e milagres.

Loucos para os que vêm a seguir, não seremos também nós que morremos de cancro mais que nunca, que tanto desafiamos a natureza e cada vez menos sabemos ler e respeitar os seus desígnios e ciclos, que andamos sempre a contrariar o que é simples???

Quando alteamos com mais ou menos verdade dilatada, atalhamos e encurtamos o triste fim de cada um, mesmo que tenha sido em sofrimento prolongado ou atrozmente repentino e fulminante e por mais hediondo que alguém seja, parece que vira santo e bravo na boca das gentes recentes e nem merecia a morte quanto mais se fosse em sofrimento! 

A vergonha que temos de alguns iguais, leva-nos a desculpar o seu veneno numa oportunidade esfarrapada de redenção da humanidade, para que cada um tenha a desculpa de puder fazer mal e mesmo assim não merecer morrer ou ser alvo de maldição finada! 

Aquela parte da vida em que perdemos faculdades e somos uma névoa fraquinha, não interessa engrandecer porque os velhos em momento de mareio e ensandecimento já não discernem se a vida é uma preparação para a gozona e acabrunhenta morte ou apenas a salvação de repetir o errante viver!

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