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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

08
Ago20

Atracção

Rita Pirolita
Todos se degladiam pela atracção de turistas, nem que seja a aldeia mais ranhosa e perdida no meio do deserto fronteiriço, sem qualquer vestígio histórico de monta como se os turistas fossem a única fonte de rendimento do país, mesmo em aldeias que não tenham ninguém...
Se calhar têm que começar a criar lugares assombrados com histórias ancestrais de terror, assassinatos sangrentos, pegadas de dinossauro em lajes de cimento ou virgens santas que perderam as cuecas, talvez assim comecem a florescer os extintos negócios locais e daí até alguém pensar em reanimar a indústria, agricultura e pescas, seja um passo!...
Isto sou eu a deduzir na minha inocente tuguice azeiteira!
Mesmo as mais pequenas autarquias, são apetecíveis, não são novidade as acusações constantes de derrapagens de orçamentos ou corrupção, de abandono das gentes em áreas tão fracturantes como a saúde, o ensino e a justiça...
É tudo tão fácil mas fazem todos o mesmo...não fazem nada e comem tudo!
Não têm a noção que além de não saberem disfarçar bem a mentira, o discurso convicto apela ao voto, a imagem é tendenciosa, nem sempre os de esquerda têm que se apresentar de camisa esgoelada sem gravata, quase de jardineiras e as ladys da direita de fato Chanel, quase com kiwis. 
As pessoas não se importam de ser enganadas, até têm mostrado que gostam mas queridos autarcas elevem o nível da coisa e caros eleitores reivindiquem mais requinte e beleza na mentira!
14
Jul20

Se assim fosse...

Rita Pirolita

Morava na casa onde minha mãe nasceu, os pais foram-me deixando ficar, por protecção e ajuda em início de vida, mudei-me para a rua abaixo, ao pé dos avós maternos. 

O primeiro namorado foi do largo do mercado, ao cimo da rua, depois de coordenadas quezílias e amuos, acabamos por ficar juntos com forte aval da família. 

A mãe avisava para a vida com alguns espinhos mas nada que não se ultrapassasse com muito carinho e dedicação! 
Assim o fiz a quem vi fazer!
Íamos jantar a casa dos avós todos os dias, aos fins de semana ficávamos em casa dos pais a vegetar, a ouvir os canários e periquitos a palrear, o cão deitado de barriga ao sol a giboiar em cima de nós, tinhamos ovos e galinhas caseiras até não poder mais, bolos doces como a família, cheirava a comida de forno, cobertores em sofás de afundar, TV a reunir todos em frente aos Jogos sem Fronteiras, Festival da Canção ou Miss Portugal, tapetes em soalho para não arrefecer os pés, casacos para todos para o resto do corpo, música para a alma, clássica ou portuguesa, luz cálida de abundância remediada, névoa de sonho à hora das refeições.
Os avós adoravam-me e faziam qualquer coisa por mim, os pais desdobravam-se em sacrifícios para me darem todos os mimos possíveis, sem medo de me estragarem, nunca sem desrespeitar ou abusar do amor, aproveitei toda a união familiar, era eu o seu orgulho.
Fazíamos praia combinada com demorados piqueniques, visitávamos e eramos visitados pelos primos e tios, sempre de cesta plantada de iguarias da terra, cobertas com panos alvos de linho a serem levados de volta para a próxima visita, repleta de chouriças, azeite luminoso, couves doces, nabiças amargas e fruta picada, castanhas já livres de ouriço, nozes e avelãs sem ranço.
As festas populares eram de presença obrigatória e combinado convívio, os feriados religiosos com passagem pela igreja mas sem grande aparato, em nome da tradição.
Um dia o avô morreu de ataque fulminante, o coração explodiu, a avó disse que foi de tanta bondade, chorou o amor de uma vida de forma tão bonita e doce em homenagem de lágrimas e cerimónia simples.
Continuamos a viver todos juntos, perto em ruas, casa e coração, os Natais e aniversários eram celebrados com alegre parcimónia e saudade recordada e contida. 
Casei, depois de estudos concluídos e trabalho arranjado por conhecimentos do pai, lá nas finanças, o avô já não estava nem viu netos, dois lindos gémeos que romperam para a vida, um casalinho sonhado por todos de feições suaves e calma beleza, meninos de sua mãe, dóceis, sem sobressaltos ou traumas, mimados pelos avós e bisavó, mostrados a babar elogios no bairro onde todos respeitavam a família pela antiguidade e nada a apontar! Perfeita!
A avó foi deixando de andar, tratamos dela em casa, recusamos o lar de idosos, recorremos ao médico em domicílio, fizemos tudo para seu conforto, morreu feliz rodeada por todos, com dor minimizada pelo aconchego e amor verdadeiro e inocente. 
Os pais foram envelhecendo, os doces gémeos botaram corpo, orgulho meu e do pai que tanto os protegia, homem caseiro, ganhador, dócil de gestos contidos, não se bebia nem fumava em casa limpa e arejada todos os dias, não se levantava a voz, não se discutia com gritos de mãos agarradas à cabeça, tudo exemplar, sem trauma ou segredos.
Os pais partiram, deixaram a casinha de suas alegrias, naturalmente a mim, filha única, genro e netos adorados, ficamos algum tempo em desabafo de luto, os gémeos mostraram-se à altura da séria morte, choraram o que deviam, controlaram a dor e a vida continuou sem extravaso, sem sobressaltos de outro planeta. 
Fui sempre feliz, não dei desgosto aos pais, mereço os filhos que tenho, fui talhada para ser abençoada!
 
Se assim fosse...eu era outra que não esta, tão imperfeita pela mágoa, tão avessa a que me agarrassem para me destruir, sempre atraí sentimentos de desprezo, sempre fui cavalo para espicaçar e besta a abater, a culpar pela minha força, para domar, porque a liberdade natural é invejada, quase tanto como a riqueza ou a beleza!
06
Dez19

Incongruências

Rita Pirolita
Porque tanta 'boa moça' brasileira e das Américas latinas, aparece em selfies nas redes sociais, com corpos de menina, já a braços com uma ou duas crianças, orgulhosamente apresentadas já em poses exibicionistas, numa relação aberta com um jovem igualmente imberbe, em trajes de terras quentes com calções a exibirem nádegas, pernas de subnutrição e braços escanzelados cobertos de tatuagens, umbigo furado, língua de fora a exibir o piercing, arames nos dentes, com sorriso aberto de lábios cheios sabe-se lá com quê, alusões a maconha que circula todos os dias, maquilhagem apalhaçada, rosa choking misturado com verde selva...Senhoras gordas, inchadas, intumescidas de arroz com feijão e muita cerveja, de 35 anos que mais parecem ter 60 e querem aparentar 18, com pechisbeque de mau gosto ao estilo Kardashian ou Ana Malhoa, unhas de gel de quem não lava louça e come do tacho, peitos enormes em blusas para adolescentes, calções apertados a esborrachar a celulite, sandálias douradas com o dedão a tocar o tapete persa Made in China.  
Os cenários são tão variados quanto assustadores, uma rua de bairro em terra batida, com esgotos a céu aberto, uma sala que serve de cozinha, casa-de-banho e dormitório não sei para quantos, uma torneira que dá para uma cama, paredes em tijolo à vista e alguns azulejos brancos ou pirosamente floridos e misturados, bacias e baldes por todo o lado, a apanhar água ou a fazer de vasos improvisados. 
Desculpem, mas não consigo digerir tanto kitsch nestes cenários, sem me questionar...o que é que não bate certo nisto tudo? Ou se calhar bate tudo certo...
Ainda bem que a democratização das redes sociais e é pena que tenha só ficado por aí, tenha conquistado as almas cheias de mau gosto, mais longínquas e desfavorecidas em beleza e riqueza...mas gostava de não ver algumas coisas antes de morrer e mais ainda o que virá!  
Todos devemos sonhar e não ter medo de mostrar para quem nos queira botar uma olhadela mas se a vossa ambição é serem vedetas de bairro, fiquem por aí, porque as verdadeiras ainda fazem pior figura!
Descubram as diferenças...



19
Out19

Grávidas ou gordas?

Rita Pirolita
 
Por causa de umas fotos de uma cantora, que mostrou o seu corpo após um mês de ter sido mãe do segundo filho e também porque sempre existiram grávidas, magras, assim-assim, balofas, gordas, baixas, altas...
 
Estar grávida deve ser muito bom e motivo de orgulho para quem gosta. 
Eu que não tenho filhos por opção, tenho uma visão muito objectiva e distânciada o suficiente, para não criticar e apenas constatar factos. 
Na boca de muitas mães, a beleza da maternidade sobrepõe-se a mazelas, ao mau estar, à depressão, à emoção, ao choro por tudo e por nada, ao peso excessivo, às  noites mal dormidas, às crostas nos mamilos, às estrias, às pernas inchadas que nem um elefante, a uma recuperação lenta e dolorosa fisica e sexual, mas muitas e com as redes sociais ainda mais, começaram a mostrar que como tudo também este estado de graça das mulheres, tem um lado menos bom e mais desconfortável, que elas, de sorriso na cara, querem partilhar com o mundo e preparar futuras mães para coisas naturais que acontecem a quem tem um ser dentro de si a crescer sem parar, até que não caiba mais e tenha que saltar cá para fora.
Não me choca nada ver grávidas ou mulheres após o parto com uns quilos a mais, o seu corpo conta uma história que espero, esteja mais repleta de curvas felizes que tristes percalços. 
As mulheres acabam sempre por ser as piores críticas umas das outras, a verdade é que não se deve incentivar a obesidade ou a anorexia e sim promover a aceitação.

Neste caso vou falar de momentos embaraçantes entre géneros diferentes, pondo a cabrice feminina de parte.
O moço tem sido vitima de enganos sucessivos que lhe têm custado amizades e provocado alguns amuos. 
 
Das muitas vezes que encontrou colegas que já não via faz muito tempo, para ai desde a secundária, em alguns casos precipitou-se e perguntou para iniciar conversa por cortesia, quantos meses faltavam para a feliz hora da cria saltar cá para fora? Ao que percebia pelo embaraço ou simples linchamento com o olhar, que aquilo não era gravidez mas sim casos graves e de gravidade lipídica. 
Começou a aprender com as repetições de maus encontros, que se não conseguia distinguir uma orca de uma orca grávida, mais valia ficar calado para não andar sempre a meter a viola no saco e não ir cantar a mais freguesia nenhuma. 
Estes breves encontros, encurtados ainda mais pela nossa estupidez e precipitação, acabavam com a triste justificação do outro lado, que o seu estado se devia a um problema de tiróide e não de gula. 
Para mim esta explicação chegava e sobrava, para aquilo que queria saber de alguém que não via faz anos.
 
A mim também me aconteceu com amigos meus, que não tinham gravidez nenhuma a não ser de cerveja, parece que tinham sido atacados por um enxame de abelhas e andavam num torpor tal como se fossem alérgicos às picadas e estivessem só na esplanada à espera que passasse, para se atirarem ao caminho para casa, de cabeça mais leve.

É por estas e por outras, que o moço para não se sentir discriminado continua seriamente e com afinco a tentar a sua sorte, como candidato à maior barriga Nenuco do ano.
 
Nenhum de nós alguma vez fez observações intencionalmente maldosas, fosse a quem fosse mas a nossa inocente distracção, culminou em momentos de vergonha e embaraço.
 
Perdemos a oportunidade de reatar contacto com alguns amigos à pala desta brincadeira e mesmo que emagreçam ou deixem de beber tanta cerveja, nunca mais na vida os vamos recuperar.

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