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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

19
Jul20

Bonecas de Badajoz

Rita Pirolita

Como já dei a entender muito explicitamente em alguns textos nunca gostei de brincar com bonecas, sempre as achei uma imitação aberrante dos seres humanos, senão vejamos. 
Era tudo assexuado, agora é que não, mas eu nasci antes do 25 de Abril, só na altura que me começaram a crescer as maminhas é que os bonecos passaram a ter mamilos, pipi e pilinha...e eu passei a olhar para bonecos de carne e osso. 
A ausência de buracos nestes brinquedos não contribuía nada para que acreditássemos que os outros meninos eram assim, fazendo de nós os únicos diferentes e esburacados.

Havia um rego do cu mas não um buraco, lábios entreabertos mas sem vislumbre de língua ou amígdalas, narinas tapadas, ouvidos sem orifício auricular. 
Coitados, não faziam chichi, não caia ranho, eram surdos e mudos, não cagavam, também é verdade que não comiam e não davam trabalho como os Tamagotchis.
Os bonecos do xixi, do peido, do cocó, do choro, das bolinhas de cuspe e da papinha dada, vieram muito depois. 
Barbies nem vê-las porque eram caras. 
As minhas bonecas vinham de Badajoz que era o mais longe que os meus pais conseguiam viajar na altura e tenho impressão que os brinquedos vinham de barraquinhas de tiro ou eram brindes de consolação por comprarem tantos quilos de caramelos.  

Olhos vidrados, pálpebras que fechavam à mínima mexida no caçula de plástico, com aquele movimento dantesco e assustador de olhos esbugalhados de um azul transparente à boneco Chucky, com pestanas farfalhudas, penteadinhas e todas do mesmo tamanho, sobrancelhas tatuadas e cabelo áspero a cheirar a fio de cana de pesca sem uso, o terror. 

Das duas únicas bonecas que insistiram em me oferecer para me formatarem numa futura mãe extremosa, uma ficou ao canto da sala durante anos sem lhe tocar, era uma boneca enorme de plástico rijo vestida à espanhola mas de mini-saia, uma badalhoca descarada, com um cabelo negro que me fazia lembrar a Nossa Senhora dos Passos da procissão da terrinha e ainda cheirava mal, a porca, também nunca lhe dei banho. 
A minha eleita no restrito grupo tinha cabeça de borracha mole que também não cheirava muito bem, corpo de trapos, um ar simpático com sardas e uns olhos pintados, verdes, redondos, enormes, sem pálpebras maléficas a abrir e a fechar, tinha um cabelo cor de fogo já de si muito curto mas que um dia resolvi encurtar ainda mais ao aparar as pontas espigadas, na esperança que crescesse nem que fosse um milímetro. A minha querida Ambrósia ficou com um corte à tigela, bem na moda nessa altura, como o que a minha mãe me costumava fazer em casa porque não havia dinheiro para cabeleireiros. 
Note-se que a minha mãe não foi para cabeleireira só mesmo por muita falta de jeito que acabou por se confirmar na minha própria cabeça, ao fim de muitas tentativas frustradas de aperfeiçoamento.
22
Abr20

Náuticos

Rita Pirolita
O moço sempre gostou de desportos náuticos e agora com mais tempo livre que o trabalho está mais brando, passa algum tempo a ver videos no YouTube dedicados ao tema, eu de vez enquando lá vou deitando o olho mas confesso, algumas vezes até fico enjoada de tanto balanço, mesmo estando em terra com o rabo bem assente no sofá, outras vezes fico a rebentar de orgulho, quando passam pelos Açores, paragem quase obrigatória para quem atravessa o Atlântico e dizem maravilhas de tudo, desde a comida, à paisagem, passando pelas suas gentes. 
Bem, mas o reparo que queria trazer a este texto é o seguinte, spesar de não perceber nada de timonice em águas profundas, que me faz impressão não ver o fundo às coisas, fico impressionada com a grandeza e aparato dos catamarans e a beleza dos marinheiros e marinheiras que se juntam em casalinhos muito bem resolvidos com a vida, que gozam de uma elegância e ar saudável de fazer inveja a qualquer um, elas sempre loiras, Barbies à vela, acompanhadas de um bom motor a bordo, de tronco defenido, cabelo comprido e olhos azul-mar ou verde-alga, que valha-me São Neptuno! 
Ele é viagens para as Fiji, para o Hawaii, para a Austrália, enfim, rotas de muitos dias, com alguns abanos e avarias pelo meio mas nada de monta, que morram todos à fome ou comidos pelos tubarões, as refeições são regadas por bom vinho, que nunca falta a bordo, eu que sou uma enjoadinha se fosse a bordo passava o tempo todo deitada a vomitar! E vinho? Nem ver a garrafa, quanto mais cheirá-lo!
Não acho nada mal que gente gira faça estas viagens, com ou sem patrocínio mas têm que levar sempre muito dinheiro na carteira e além do mais ter uma conta bem recheada em terra. 
Como estava a escrever, não acho nada mal espalharem tanta beleza em alto mar, a questão é, como é que eu e aqui o miúdo, somos um casal tão giro, feliz, comunicativo, cúmplice, muito dado à folia, aventureiro...e o único barco e respectivo dinheiro para o sustentar que algum dia vamos ter será de papel e não me venham dizer que é por eu enjoar!...   
19
Dez19

Miúdas coquetes

Rita Pirolita

Nunca gostei de miúdas coquetes e rapazes mariquinhas, desde a infância até agora, mas olhando para trás só me posso rir e nunca chorar. 
 
Nunca alguém me conseguiu manter uns collants vestidos, davam uma comichão desgraçada nas nádegas ou mesmo uma Thermotebe, estalava tanto da electricidade estática que até deixava os cabelos em pé.

As miúdas picuinhas...tinha que as aturar no horário de aulas, depois metiam-se em casa a brincar com as Barbies e a estudar, enquanto eu cá fora andava entretida à porrada com os ciganos, a jogar ao espeta, ao pião, à carica, a saltar à macaca... 
Dentro do recinto da escola portavamo-nos todos bem e ninguém olhava a etnias, piolhos ou ranho. 
 
Só parava em casa uma tarde inteira, ao terceiro trambolhão que arrancasse mais uma vez a crosta dos joelhos.

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