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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

04
Ago20

Menos sobressaltos, mais quietude

Rita Pirolita
Os velhos são danados, marretas, tristes, debochados, desbocados, raramente bem dispostos, cheiram mal ou a toalhitas húmidas, naftalina ou Old Spice, nunca a fresco acabado de lavar. 
Então eu agora que mais me aproximo da entrada na 3ª idade ando paranóica com a limpeza e cheiros corporais, felizmente fico pelo aroma ainda a lavado mas com um uso exageradíssimo de toalhitas por dia. Ideal para mim seria deter acções de uma fábrica de toalhitas e papel higiénico e teria um stock em casa até ao tecto, maior que o da Makro!
Cada vez mais tenho que ter medo de tomar banho para não morrer de pneumonia ou partir a bacia ou o fémur com uma escorregadela na banheira ou poliban!
Quanto ao feitio...vou refinar aquilo que sempre fui!
Além dos pormenores físicos e cheirosos denoto nos velhos uma queixa constante de netos que os visitam mais amiúde que deixam de visitar de todo ou filhos que trabalham muito e nunca têm tempo.
Os velhos arranjam todo o tempo do mundo que já têm de graça, tanto que até entedia. Pretextos? Todos e mais alguns para se juntarem à família nem que isso implique ir a qualquer sítio que detestem, passam a adorar tudo o que nunca lhes passou pela cabeça, já pouco importa, de outra forma ninguém lhes liga!
É nestas armadilhas de chantagem ou engano emocional que nunca cairei na vida por ausência de filhos e família. Andam embevecidos pela engraxadora doçura de parentes mais próximos que julgam ser a família de coração e por serem de sangue têm forçadamente que se dar bem. 
Eu que tenho pouca ou nenhuma família muito menos família com que me dê regularmente ou de vez em quando, não me dou bem nem mal, não me dou, assumí por isso desde muito cedo que prefiro não ter a ter falsos familiares, estou muito mais descansada, sem sobressaltos, não tenho ninguém que me ajude mas também não tenho quem me chateie ou empate.
Parece que desde muito cedo a maioria das pessoas se iludem a receber aparas de amor na forma de serem precisas e nunca preciosas ou desejadas.
Quanto mais explorados mais amados, mais dependentes uns dos outros. 
Qualquer carente que não conhece a essência do amor é sôfrego de cuidado e qualquer típico bom familiar se aproveita ao dar esmolas de atenção!
Não é melhor viver na verdadeira solidão que na enganosa companhia?
A lucidez de saber com o que contar sem esperar nada agrada-me e desempoeira a visão de um futuro descontraído, livre de compromissos, enquanto que os que constroem e alimentam ilusões com ofertas doentes e envenenadas estão na mão do abandono sofrido e surpresas muito más!
Faço questão de ter menos sobressaltos, mais quietude e contemplação!
20
Jul20

Ocupas-rastafaris-contrafeitos

Rita Pirolita
Eu sou muito open mind, viajei muito, papei muito concerto e sempre que posso vou acampar à beira mar mas não me peçam para aturar ocupas-rastafaris-contrafeitos com a conversa dos retiros, nem pagam as ganzas que fumam nem tomam banho, não lavam os dentes e andam com roupa cheia de buracos e quinoa nos dreadlocks do jantar de há uma semana, só porque é cool e os pais pagam!
04
Dez19

Contos da Estrelinha Serigaita - Ciganos

Rita Pirolita
Depois da mercearia, no caminho para casa, dois ciganos adolescentes que ainda permanecem na escola primária onde ando, perseguem-me, lançando olhares peganhentos e palavras melosas. 'Aiiiiiiii, fazia-te isto e aquilooooo, porque estamos fora da escola e no recreio só atrás dos pavilhões te podemos apanhariiiiiiii....' 
Acelero o passo e penso em porto de abrigo assim que entro no meu prédio e eles, travando o fecho da porta, pressentem local onde ninguém vê. 
Atiram-se a mim de mãos ávidas em má imitação adulta, à procura de curvas que ainda não estão lá, beijos de línguas salivadas e mau cheiro de quem não toma banho faz meses ou talvez nunca tenha tomado desde que nasceu, consigo gritar mesmo de mão na boca que me abafa, sem ninguém aparecer, assustam-se só com a ideia de vizinhos em meu socorro a enxotar a pouca vergonhice e desistem de continuar a invasão. 
Subo as escadas em relâmpago, entro em casa, largo as compras, nervosa na impotência digo à mãe, a mãe não dá muita importância e atalha os meus soluços de raiva... 
- A culpa é tua, para a próxima defende-te e não deixes que te toquem! 
30
Nov19

Contos da Estrelinha Serigaita - Nascimento

Rita Pirolita

se·ri·gai·ta 
(origem duvidosa)

substantivo feminino
1. [Informal]  Mulher ou rapariga ladinaespevitada ou respondona.
2. [Informal, Depreciativo]  Mulher magrageralmente pretensiosa ou irrequieta.
3. [Ornitologia]  Ave trepadora.
  
O nascimento da serigaita estrelada deu-se em espaço de repasto aberto ao público, pertença de avós maternos que viviam por cima do negócio que atraia do Porto gente para o arroz de lampreia, cobra pintalgada de ventosa de rocha em água doce. 

Por trás dos montes, nasceu em Outubro/Outono, noite dentro, tumultos de parteira, esperanto de dias, que o feto feito não queria sair e já veio com horas somadas em dias de atraso, em altura de máquinas que não olhavam entranhas, sabia-se do sexo pelo nariz da mãe, luminosidade da pele ou forma da barriga e pouco mais, as mais bonitas, as dos rapazes. 
Mãe prenhe de 6 meses, parecia que sofria de ervilha plantada no ventre, aos nove e mais, parecia não grávida completa ainda. 
Mesmo em atraso, a saída forçada com ferros fez estragos em couro cabeludo molinho, cheia de sangue placento e sangue seu que jorrava da cabeça, tenazes que lhe arrancaram cabelo com raiz, deixando cicatriz com feitio de América do Sul de pernas para o ar, uma pêra ainda pendurada na árvore, pele macia que expandiu com o crescimento, ainda que farta cabeleira nunca deixasse perceber a violenta marca da saída por entre pernas para o mundo.
 
Gritos de dor de parto e aflição de morte à nascença, calma imposta pela parteira, que é muito experiente e conhece as profundezas do mistério fêmeo sem surpresa. 
A ferida mostra-se inofensiva, sem ameaça de a mandar para o outro mundo sem antes dar o primeiro choro. 
A magreza e feieza da menina não saiem com o banho, virá a beleza para lá dos 18.

Composta, já sem choro regressa à capital, onde pela primeira vez o pai a vê, não queria ele rapariga, queria rapaz para a bola...

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