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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

22
Jul20

Cruzeiro dos cagões

Rita Pirolita
O moço tem uns primos novos ricos muito cagões, aqueles da melhor estirpe que costumam passar férias de cruzeiro pelo menos duas vezes por ano. 
Aqui pelo Canadá ninguém se visita com frequência, muito menos sem marcação ou em cima da hora, assumi que era o melhor comportamento a ter com esta gente que sempre que tem oportunidade e a que lhes dou é uma vez por ano e já é muito, lá exibem então aos pobres as fotos das férias. 
Eles de smoking, mandatory, bem como os miúdos tão pequenos e já vestidos de anões, esganados por gravatas ou laços, hirtos que nem pau de vassoura, elas nunca discretas, hirtas também, com aquelas cintas apertadíssimas de contenção de gordura que comprimem e arrumam a banha nos pulmões, fígado e estômago, para depois em efeito trompe-l'oeil aumentarem o volume dos pneus, disfarçados a tanto custo e falta de ar, com vestidos de cetim e lantejoula, as verdadeiras bolas de espelhos dos meus queridos anos 70.
Só tenho a dizer que não se denigre assim a imagem de tão original bola que nasceu antes destas porcas em pé! Adiante porque ver estas coisas põe-me doente!
As fotos são comentadas com orgulho da riqueza blink blink como a dizer nas entrelinhas, olhem para nós que passámos tanto sacrifício a poupar mas não somos mão-de-vaca, avarentos, somos mais espertos que os nossos avós, que andaram feitos parvos a poupar para nos deixar, até gozamos a vida, gostamos de ver a família feliz, enfiada num barco por duas semanas, mas depois queixam-se que para sairem do cruise all inclusive, nos portos de passagem e irem visitar qualquer coisa no autocarro do mijo, pagam uma pequena fortuna, ao ponto das excursões ficarem tão ou mais caras que o próprio cruzeiro em si, um balúrdio para estes somíticos, além do dinheiro que choram gasto nos recuerdos Made in China, acham sempre que sabem regatear preços e fizeram o melhor negócio da China ao comprar pechisbeque que nem em Paris as putas lhe pegam.
O que importa é que vêm anafadinhos e contentes, já que pagaram é encher a mula até à caganeira final, depois dizem que o balanço do barco dá uma certa indisposição! Pois, pois...
Devem pensar que os que organizam as viagens são parvos e não aproveitavam todas as ocasiões para sacar dinheiro a quem faz questão de exibir que tem!
E aqui entram outra vez no bolso dos pacóvios!
Eu juro que nunca presenciei isto porque nunca fui em nenhum cruzeiro muito menos com eles, é coisa que não me atrai, estar fechada num barco e não puder fugir, ou se fugir borda fora morro, às vezes é preferível a aturar certa gente mas adiante, estava eu a dizer que as primonas do moço relatam tudo com tanto entusiasmo e clareza que faço logo o filme na minha cabeça com banda sonora, figurantes e subtítulos para surdos! 
Já se chegaram a auto-intitular, connoisseurs de vinho e arte e quando disseram isto, arregalei os olhos e fiquei à espera da surpresa que aí viria, assim a frio, sem vaselina! 
Ora bem, então parece que lá pelo meio do cruzeiro andam uns senhores credivelmente bem vestidos, que devem ser os maiores charlatães do mar, os piratas ao lado destes seriam meninos de coro, mas elas são tão burras que nem se apercebem disso, a convencer os incautos ricos que têm a mania que são mais espertos que todos e ninguém lhes come as papas na tola, a comprar garrafas de vinho caras, dando-lhes umas dicas de degustação, como um workshop dissimulado de como enganar gente inculta e cagona em 5 minutos e até conseguem, porque as primas compram às caixas e andam a bebê-lo o ano todo quer apeteça ou não e a cada garrafa que abrem à nossa frente falam dos taninos, dos frutos silvestres, do chocolate e das aparas de carvalho como se aquilo nem fosse para beber de tão precioso e caro mas apenas para cheirar, voltar a tapar e esperar um mês que dará um bom vinagre! 
Ora tenham paciência, uma garrafa quando se enceta é para beber até ao fim e se for boa abre-se outra!
Atrás do vinho vem a arte, misturar os prazeres de Baco com a cultura é de uma finesse que se aproxima um pouco mais dos verdadeiros ricos eruditos, e lá caem os patos outra vez na lama ou serão os parentes? Bem, não interessa. 
Os quadros são vendidos como se fossem de artistas que já se sabe quase de certeza, dizem eles, vão ser famosos, portanto o vinho sendo o veículo de apreciação das coisas boas da vida, a arte será um investimento em potência que mais tarde se irá resumir a um mono pendurado na sala à espera que valorize e com sorte até combina com as cortinas e acaba por ficar, só para não se renderem à frustração de terem sido enganados e terem que ficar com uma coisa que nem faz bolos ou bons assados!
Esta gente até em algum momento pode passar fome mas têm que ter um palácio tão grande que nem um burro consegue olhar para ele de alto a baixo, uma frota de carros que gasta mais que 10 camiões TIR, cantar no duche árias de ópera que desconhecem mas os mais ricos assim fazem nos filmes, não há cá banhos de imersão, não que estejam preocupados com o desperdício de água mas apenas e só, para poupar e amealhar ainda mais. 
Dividem a família por voos diferentes para em caso de acidente a fortuna não se dar toda por perdida, mais uma vez tal como fazem os multi-milionários! 
Devem-se sentir bem nos papéis que criam e tão bem desempenham! Eu por mim nem compro bilhete, até pago para não ver, se for preciso!
 
Escrevi muito outra vez para concluir apenas que sem grande esforço, aos cagões se vende toda a merda desde que seja grande e cara! 

PS - Já sei, vão dizer que sou uma gozona e não perdoo uma mas haviam de conhecer a minha sogra, é muito pior, antes de dar um tombo em plena rua, já se está a rir da figura que vai fazer, eu ainda fico ali agarrada aos joelhos e depois é que desato à gargalhada, para aliviar a dor, mas ela nem dá tempo, puxa logo da melhor profilaxia do mundo, o riso!
26
Fev20

Sair de pijama à rua...

Rita Pirolita
No país dos veados e eu não tenho cornos que saiba, dos ursos e eu não sou nada peluda, que tenho a certeza, dos esquilos e eu não tenho pelos no rabo, porque tenho a certeza que não sou peluda, os chamados cuelhos por oposição aos pintelhos do pinto ou pito, dos coiotes e eu não uivo, das cabras e eu sou do monte e não da montanha... 
Trago ainda no corpo, clima de gente e não de ursos, o vício entranhado de pensar no que vestir antes de sair à rua.
Nem me passa pela cabeça sair de pijama e casaco da neve como tanta gente aqui faz, figuras tristes. 
Dou-me ao trabalho de abrir o armário da roupa e olhar para as coisas que possam fazer pamdam, não tenho muita roupa mas a que tenho está bem escolhida para rimar como deve de ser e não embarcar na moda da falta de gosto, que também abunda por estas terras de esquimó.
Fazem questão de vestir a pior coisa que têm lá por casa, tão má que mais parece o pano do chão e despentear o cabelo de propósito atrás, na nuca, para ter aquele ar 'negligé', de quem acabou de acordar e sai para a rua com a beleza que Deus lhe deu, que não é nenhuma e ainda piora quando se querem vestir pior que um sem-abrigo, andam de calças rotas, que aquilo é mais buraco que pano e com camisolas cheias de buracos das traças mas tudo a exibir a marca cara como a porra.
É para dizer que têm pouco mas bom? Que estão solidários com as pessoas que vivem na rua? Que usam a roupa à exaustão até ficarem naquele estado miserável e por isso mostram que são muito poupados e andam a contribuir para um mundo melhor com uma vida mais sustentável?
Não sei mas andam todos convencidos que andam a fazer uma boa figura e uma pessoa nem se aproxima para lhes dar uma moeda ou oferecer um café e donuts do Starbucks, porque têm cara de malucos em vez de desgraçados e esfomeados!
Pois eu ainda dedico uns segundos de preocupação com a indumentária e ao início ainda me chegava a vestir toda bonitinha, para depois cobrir tudo com um casaco da neve que mais parecia um edredão, linhas direitas e tufos tipo Michelin.  
Comecei a entranhar a ideia que não merecia a pena desperdiçar tempo com cores ou padrões, o melhor era resumir a cor ao preto, que dá com tudo e que fosse confortável e quente para depois lhe espetar em cima com um casaco tipo chouriço nada feminino, que não realça curvas nem banha, só serve para o que foi criado, proteger bem do frio e nessa tarefa dou os meus parabéns a quem concebeu estes cobertores ambulantes, cumprem o propósito.  
Não cheguei ao ponto de colocar sequer a hipótese do pijama, seja de que padrão fôr e tenho quase a certeza que nunca lá chegarei, mas também já estive mais longe de compreender o seu desfile em público! 
29
Nov19

Mete nojo aos cães

Rita Pirolita

A única coisa proveitosa que a idade me tem trazido é uma capacidade galopante de ver coisas estúpidas em tudo, de fazer piada de quase tudo, de me rir da palerma que sou em levar a sério o que é passageiro e finito, a vidinha, ela própria!!! Essa bitch, que de resto com a idade só me vai trazendo num crescendo massacrante, desgostos em forma de dores nas costas, joelhos e ancas, incontinência, rugas, mamas e nádegas descaidas e moles e por ai fora numa lista interminável de decadência.
 
Digam lá se o melhor remédio não é rir e deitar o mau aspecto que cada vez mete mais nojo aos cães, para trás das costas?!

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