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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

14
Jul20

Se assim fosse...

Rita Pirolita

Morava na casa onde minha mãe nasceu, os pais foram-me deixando ficar, por protecção e ajuda em início de vida, mudei-me para a rua abaixo, ao pé dos avós maternos. 

O primeiro namorado foi do largo do mercado, ao cimo da rua, depois de coordenadas quezílias e amuos, acabamos por ficar juntos com forte aval da família. 

A mãe avisava para a vida com alguns espinhos mas nada que não se ultrapassasse com muito carinho e dedicação! 
Assim o fiz a quem vi fazer!
Íamos jantar a casa dos avós todos os dias, aos fins de semana ficávamos em casa dos pais a vegetar, a ouvir os canários e periquitos a palrear, o cão deitado de barriga ao sol a giboiar em cima de nós, tinhamos ovos e galinhas caseiras até não poder mais, bolos doces como a família, cheirava a comida de forno, cobertores em sofás de afundar, TV a reunir todos em frente aos Jogos sem Fronteiras, Festival da Canção ou Miss Portugal, tapetes em soalho para não arrefecer os pés, casacos para todos para o resto do corpo, música para a alma, clássica ou portuguesa, luz cálida de abundância remediada, névoa de sonho à hora das refeições.
Os avós adoravam-me e faziam qualquer coisa por mim, os pais desdobravam-se em sacrifícios para me darem todos os mimos possíveis, sem medo de me estragarem, nunca sem desrespeitar ou abusar do amor, aproveitei toda a união familiar, era eu o seu orgulho.
Fazíamos praia combinada com demorados piqueniques, visitávamos e eramos visitados pelos primos e tios, sempre de cesta plantada de iguarias da terra, cobertas com panos alvos de linho a serem levados de volta para a próxima visita, repleta de chouriças, azeite luminoso, couves doces, nabiças amargas e fruta picada, castanhas já livres de ouriço, nozes e avelãs sem ranço.
As festas populares eram de presença obrigatória e combinado convívio, os feriados religiosos com passagem pela igreja mas sem grande aparato, em nome da tradição.
Um dia o avô morreu de ataque fulminante, o coração explodiu, a avó disse que foi de tanta bondade, chorou o amor de uma vida de forma tão bonita e doce em homenagem de lágrimas e cerimónia simples.
Continuamos a viver todos juntos, perto em ruas, casa e coração, os Natais e aniversários eram celebrados com alegre parcimónia e saudade recordada e contida. 
Casei, depois de estudos concluídos e trabalho arranjado por conhecimentos do pai, lá nas finanças, o avô já não estava nem viu netos, dois lindos gémeos que romperam para a vida, um casalinho sonhado por todos de feições suaves e calma beleza, meninos de sua mãe, dóceis, sem sobressaltos ou traumas, mimados pelos avós e bisavó, mostrados a babar elogios no bairro onde todos respeitavam a família pela antiguidade e nada a apontar! Perfeita!
A avó foi deixando de andar, tratamos dela em casa, recusamos o lar de idosos, recorremos ao médico em domicílio, fizemos tudo para seu conforto, morreu feliz rodeada por todos, com dor minimizada pelo aconchego e amor verdadeiro e inocente. 
Os pais foram envelhecendo, os doces gémeos botaram corpo, orgulho meu e do pai que tanto os protegia, homem caseiro, ganhador, dócil de gestos contidos, não se bebia nem fumava em casa limpa e arejada todos os dias, não se levantava a voz, não se discutia com gritos de mãos agarradas à cabeça, tudo exemplar, sem trauma ou segredos.
Os pais partiram, deixaram a casinha de suas alegrias, naturalmente a mim, filha única, genro e netos adorados, ficamos algum tempo em desabafo de luto, os gémeos mostraram-se à altura da séria morte, choraram o que deviam, controlaram a dor e a vida continuou sem extravaso, sem sobressaltos de outro planeta. 
Fui sempre feliz, não dei desgosto aos pais, mereço os filhos que tenho, fui talhada para ser abençoada!
 
Se assim fosse...eu era outra que não esta, tão imperfeita pela mágoa, tão avessa a que me agarrassem para me destruir, sempre atraí sentimentos de desprezo, sempre fui cavalo para espicaçar e besta a abater, a culpar pela minha força, para domar, porque a liberdade natural é invejada, quase tanto como a riqueza ou a beleza!
06
Ago19

Por falar em papel fino...

Rita Pirolita
 

Embora nunca tenha vivido no norte todo o meu sangue é de lá. Os meus avós tinham uma quinta, que para mim e para os meus primos era um universo infinito de exploração e experiências. 

Ora, quando chegava a altura de ir à casinha soltar o prisioneiro, sentados no trono, entretínhamo-nos a amachucar folhas amarelas da lista telefónica e isto não era nenhum segredo para combater a prisão de ventre, quanto mais amachucadas mais macias e perguntam vocês para quê esse ritual? Para limpar o CU!

Já havia papel higiénico mas era muito caro, só uma lista de páginas amarelas dava bem para 6 meses, se não andássemos de diarreia durava mais tempo. 
'Páginas Amarelas, vá pelos seus dedos!'

Ao lado do trono tínhamos uma banheira que na aldeia já era um luxo mas onde nunca tomei banho, só as aranhas tinham ordem para passear nas paredes esmaltadas. 
Tomava banho num alguidar de chapa, uma vez por semana para poupar a pele e despejava a água na horta, couves e alfaces andavam sempre lavadinhas.

Alumiávamos a noite com um candeeiro a petróleo ou velas, tudo cheirava a fumeiro, a sopa tinha o sabor de todas as sopas do mundo juntas, num pote de ferro de três pés, tudo era cozinhado a lenha numa cozinha de terra batida. Não havia frigorífico, tudo se guardava num "mosqueiro", uma caixa de madeira com uma porta de rede para impedir as moscas de entrar, mas se era para afastar as moscas não se devia chamar mosqueiro, que parece uma coisa com uma data de moscas lá dentro, enfim, nem tudo na vida tem uma explicação lógica. 
Ora esta pequena peça de mobiliário tinha que estar num local da casa fresco e seco e lá guardavam-se desde leite a manteiga, queijo e marmelada. 
Comíamos batatas com sardinhas contadas mas o azeite era divinal, as fatias de presunto eram tão finas que até o sol se via através delas e isto não era para poupar...só assim é que sabia bem!

Nesta visita guiada falei da casa de banho, da cozinha, a sala de jantar estava lá mas ninguém lhe ligava nenhuma, já que passávamos o tempo todo a brincar lá fora ou na cozinha a comer, sendo assim, só falta falar dos quartos. Dormíamos em camas de ferro com colchões feitos de palha, de manhã quando acordava estava metida num buraco que nem me mexia, saltava da cama, ajeitava a palha e deixava a arejar por causa da bicharada.

Um dia os meus pais resolveram dar um saltinho a Espanha para ir comprar caramelos e torrão de Alicante, eu não fui mas não se esqueceram de mim e trouxeram um recuerdo, como já sabiam que não gostava de bonecas, em vez de um chorão ofereceram-me uma bolsinha bordada a missangas, o meu primo recebeu um camião lindo, enorme e amarelo da Caterpillar, arranjei logo maneira de monopolizar as horas de serviço da viatura pesada, a bolsa ficou esquecida lá na quinta!

Os dias eram passados a correr, a brincar, a esfolar o corpinho...uma tarde bem me lixei, estavam todos a debulhar o milho quando me senti atraída por um monte fofinho de folhas e me esponjei durante uns bons minutos até que tudo no meu corpo começou a queimar, tinha a pele cheia de golpes finos mas que doíam como a porra, nunca mais!!!

Numa quinta não faltam animais, tínhamos desde cães, coelhos, galinhas, lobos a uivar à noite e carradas de gatos, são uma praga, os coelhos também mas esses acabam no tacho, os gatos bebés iam sabem para onde?...Para um balde cheio de água, coitados!!! Fiquei traumatizada.

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