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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

05
Dez19

Retórica gramatical

Rita Pirolita
Precisamos de nos sentir precisados! 

De sermos chamados dos melhores pais do mundo, melhores avós, filhos, netos, alunos, amigos, trabalhadores, combatentes...

Precisamos de um papel que nos defina e prenda por prazer!

Precisamos de admiração e aceitação, nem tanto de compreensão, muitas vezes nem nos entendemos a nós próprios ou não queremos, quanto mais os outros darem-se a esse trabalho, tantas vezes inglório, superficial e pouco lucrativo!

Precisamos do mundo para lhe pousar os pés, mais para o espezinhar, coisa que temos feito até hoje de forma magistralmente egoísta mas o mundo não precisa de nós para continuar a girar, nem se rende às nossas guerras e maldade, apenas responde na mesma moeda mas sempre em trocos, porque os grandes diálogos do mundo, são naturais e imprevisíveis, incompreensíveis por mentes tão pequenas como as nossas, encarados como castigos a inocentes. O mais que poderiam ser, era castigos à nossa prepotência! 

Temo-nos erradamente em tão grande conta, que achamos que a natureza age apenas para nos martirizar e irritar e não para equilibrar as suas energias, estando nós apenas no seu caminho imparável!

A nossa sensibilidade perdida deu lugar à irracionalidade da religião, da incompreensão da morte, sofrida e chorada e nunca entranhada como transformação incontornável.  

Quereríamos nós aproximar-nos de deuses imortais que não existem em parte alguma do Universo?

Só nós inventámos o nosso poder, tão frágil e efémero? 

Com tal ruinosa imaginação e falta de senso, os humanos alheados perdem muito em não observar com olhos de ver. 

Os animais não racionalizam a morte, já nascem com ela nas entranhas sem saber, esta ignorância pura e primitiva, encerra a verdade do sentido e instinto da vida. 

O mundo se-lo-á sempre até à sua extinção e continuará a girar mesmo que não estejamos cá para o chamar pelo nome de mundo. 

E assim consegui reduzir a existência humana a pura retórica gramatical!

Os restantes seres, que não aprendam a falar, continuem a sentir e a ser felizes sem saber, a viver num mundo que não lhe sabem o nome! Já agora, para quê?
29
Nov19

Primos direitos...e esquerdos?

Rita Pirolita

 

 

Os graus de parentesco sempre foram um desafio para o meu raciocínio.
Nunca cheguei a perceber a extensão familiar dos compadres alentejanos mas sei o que são camaradas.
Facilmente baralho e troco tudo.
Pais e filhos, irmãos, avôs e avós, sogras e sogros, até aqui não me baralha, genros e noras também não, embora fosse mais fácil mudar só o género em vez de dar um nome diferente, por exemplo as noras podiam ser genras, já os genros se fossem noros não soava muito bem!
 
Bisavós, trisavós e tetravós e pára por ai, nãopentavós, porquê?
 
Os primos são sempre direitos, não há esquerdos, há chegados ou afastados mas não distantes e até que grau se é primo suficientemente afastado para com total certeza não arriscar a ter filhos malucos. Porque é que nas primas mais se lhe arrima? Só para fazer rima?
As tias-avós são umas lambonas açambarcadoras, acumulam logo dois parentescos numa só pessoa.
 
Enteados, são entremeados por uma família ou outra?!
 
Cunhados e cunhadas, é sinal que já há gente a mais para dividir a herança da cara-metade! Enquanto não se chega a esse ponto, às vezes pelo caminho vai-se dividindo a cama!

Toda a gente antes de ter um parentesco tem um nome, mas sabe tão bem receber uma boa herança de um tio ou primo do Brasil que nunca vimos nem sabíamos que existia, quanto mais saber o nome!

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