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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

18
Jul20

Sem corpo ou mundo

Rita Pirolita
Não sei se aquilo de que vou falar tem alguma explicação em psicologia ou psicanálise mas sinto ainda mais agora o que sempre senti desde que me sei como gente, desde que tenho memórias, desde os 3 anos.

Um desconforto enorme por estar neste mundo como se a minha existência estivesse desajustada no tempo e no espaço, quase errada, sinto-me excesso, à parte, apartada, pensar este corpo atribuido é estranho, não me reconheço, não me sou familiar ou una, este corpo errado ou certo não o sinto meu. Sinto distância, desempatia, sinto-me ludibriada na raça a que devo pertencer. 

Tenho nojo e ao mesmo tempo pena de pedófilos, assassinos, ladrões, gente má e sovina, das vitimazinhas e das almas infelizes e em sofrimento dos agressores, dos velhos velhacos e dos putos sem criação. 

Sou a única? Talvez este mundo tenha surgido para outro tipo de seres que não eu, aqui serei sempre trucidada pela malvadez e complicação do simples. 

Poderei ser uma experiência do universo para ver até onde chegam almas levadas à exaustão da mentira. 

Não me extingo tão facilmente mas este nunca será o meu corpo nem o meu mundo.
23
Set19

Arrepio

Rita Pirolita
 
 
Sabem aquelas pessoas com quem somos obrigados a conviver por questões laborais mas que nunca deviam ter tropeçado na nossa, já de si, errante vida? Quanto mais desejarmos que sejam nossas amigas, vizinhas ou até conhecidas do café, mas acabam por gostar de nós, porque somos as únicas com quem conseguem soltar uma gargalhada aqui e ali e até sentem uma invejazinha por sermos descontraídas, destravadas e irreverentes como elas nunca serão.  

São aquele tipo de pessoa que é tão oposta à nossa forma de ver e viver as coisas, que em vez de atracção existe repulsa, arrepio e pouca tolerância à sua presença mesmo à distância do horizonte, mais ainda na versão feminina, que tenta fazer concorrência directa aos seres do mesmo sexo, tempo perdido claro, mas também precisa de fazer amigos e não desgruda quando há rambóia ou simples mexerico. 
Mal elas sabem que são o tema principal da bisbilhotice e galhofa nos nossos momentos de descontração.
 
Pela descrição, até parece que me estou a referir a pessoas com comportamentos muito desviantes, tais como assassinos, políticos, palermas, estúpidos, etc. 
Mas não, estou apenas a referir-me a pessoas que para mim são sociopatas e psicopatas encobertos, para esta minha conclusão basta uma pessoa não saber estar sem trabalhar, ser sovina, convencida que é o cúmulo da pontualidade e profissionalismo, não saber falar de mais nada a não ser de trabalho, orgulhar-se de não gozar férias há 2 anos, ser peganhenta ao ponto de falar tão próximo da nossa cara que parece que nos vai passar aquele bafo negro de peçonha dos filmes de terror, para nos rendermos à sua seita de adoração e submissão lambe-botas ao patrão e ao Deus dinheiro, não aguentar uma relação por muito tempo e já quase se ter convencido que está sozinha porque é boa demais, mas continua a deitar a rede a tudo o que mexe e se não põe a hipótese de virar fufa, devia pensar seriamente no assunto e também não pensar mais em mim.
 
Eu trabalho para ganhar dinheiro suficiente para gozar a vida, não me esforço mais até ao próximo momento de necessidade e não disfarço esta relação interesseira com o trabalho. 
O trabalho por mais aprazível que seja é uma obrigação escravizante na visão de uma boémia contemplativa como eu. 
O amor próprio deste tipo de gente só subsiste com os elogios ao seu irrepreensível comportamento laboral e relação de fachada com os colegas, colegas que se forem como eu, escondem atrás de um sorriso amarelo, peninha da criatura que se esfola para mostrar que é a melhor e porque sem essa bajulação não é nada na vida nem põe um pézinho que seja, no adorável mundo da diversão e alegria.

Ainda existe um subgrupo desta espécie que também me põe os cabelos em pé, aqueles que nunca fizeram nada de jeito na vida, aos quais nunca pedi dinheiro emprestado mas a quem as minhas férias fazem muita impressão e são sempre demais!  
 
Ora dito isto, eu gostava de ter nascido já reformada e rica, sem saber que esta gente existe.

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