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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

24
Out20

Outubro-Outono

Rita Pirolita
O mês de Outubro nos últimos anos tem-nos brindado com um Verão prolongado!
Com Outonos retardados não pensamos tanto no Natal, as castanhas assadas não sabem tão bem, custa decidir acender a lareira sem frio suficiente, as mantas ainda alojam naftalina, o musgo e os cogumelos não se deixam ver, arroz doce e aletria, raia, anho ou cabrito no forno, arroz de barro e batatas à consoada, filhoses gordurosas e Santa Claus seboso, ai que belo entupimento do miocárdio! 
Não fosse o mês do meu aniversário e tivesse eu signo de mandona-déspota, virava o mundo do avesso, punha tudo a viver nos trópicos quentes e húmidos, sem trabalhar nem furacões, os glaciares seriam intocáveis e longe da vista,  o frio nunca tocaria osso ou faria pele de galinha, só nos gorgumilos com uma piña colada, os churrascos de rua seriam imperativos, o surf e a praia, casamento todo o ano!  
05
Ago20

Nomes

Rita Pirolita
Os nomes não nos definem e só existem para quem nos conhece e quando precisam de nós, nem sempre pelas melhores razões! Ninguém esquece a mensagem implícita no chamamento das mães pelo nome todinho, até irritava!
Umas têm cara de Susana e chamam-se Anabela, outros têm cara de Rui e chamam-se Luís. 
Podíamos ser chamados pela data de nascimento, o 25 de Dezembro, o Abril 25, a primeira de Maio, estes poderiam ter como segundo nome, Natal, Revolução ou Trabalhador mas seriam a excepção, todos os outros ficavam pelo dia e mês e nada de pôr o nome do santo ou romaria desse dia, se não a confusão era tanta como a dos nomes.  
Corríamos no entanto sempre o risco de no nosso grupo alguém ter nascido na mesma data, aí podíamos recorrer ao ano como alcunha ou último nome. 
Nunca  mais ninguém se desculpava pelo esquecimento do nosso aniversário mas também saberiam sempre a nossa idade.
Enquanto continuarmos a ter nomes vamos torcendo o nariz ao que nos calhou e rindo dos que têm um pior que o nosso.
A norte, Florindo e Joaquim, a sul, Serôdio Pica Milho ou Manuel Chaparro, ilhas, Nemésio ou Anália.
A moda das tias da linha, monárquicas ou pelintras, Maria e Inês ou Martim e Afonso.
Nos bairros sociais de norte a sul não poupam no nome nem pensam no trabalho que vai dar assinar quando as criancinhas crescerem, acumulam 2 ou 3 nomes próprios, juntam o nome de família do pai e outro da mãe, tudo num só petiz desgraçado. 
Anos 70 e 80, Júlia Maria, Maria Armanda, Pedro Manuel Luís, versão anos 90, Cátia Vanessa ou Cláudia Marisa, de 2000 em diante, Leonce, Flôr, Luna
Uma futura mãe que eu conheci desorientada na escolha do nome, estava um dia a dobrar roupa e leu numa etiqueta Made in USA. A filha hoje chama-se Madinusa!!! 
Vá lá não ter posto Matilde, nome de cadela!
Imaginem se tivessem nascido no Brasil. 
Boas sugestões não faltam...
E depois não andem para aí a dizer que eu só quero o vosso mal... 
Aberta Demais de Oliveira
Abias Corpus da Silva
Ácido Acético Etílico da Silva
Alfredo Prazeirozo Texugueiro
Ambrísia Estilingue Morretes
Ana Baiana Meleva Daqui Pratinhos
António Manso Pacífico de Oliveira Sossegado
António Morrendo das Dores
António Veado Prematuro
Ava Gina
Carabino Tiro Certo
Chevrolet da Silva Ford
Colapso Cardíaco da Silva
Defuntina de Souza Cruz
Dosolina Piroca Tazinasso
Elvis Presley da Silva
Espere em Deus Mateus
Eva Gina Melo
Falidora da Fortuna Dopai Ramiro
Faraó do Egito Sousa
Flávio Cavalcante Rei da Televisão
Fodelícia dos Santos
Francisco Zebedeu Sanguessuga
Himineu Casamenticio das Dores Conjugais
Inocêncio Coitadinho
Jacinto Leite Aquino Rêgo
Janeiro Fevereiro de Março Abril
Jean Claude Van Dame da Silva
João da Cú da Luz
João Manuel Boceta Portas
João Sem Sobrenome
Josefina Grosso
Jotacá Dois Mil e Um
Juvenalda Datia Gulosa
Letsgo Daqui
Manuel Sola de Sá Pato
Maria Bastarda Dequem
Maria da Delícia Dazona
Maria José Brochado
Maria Tributina Prostituta Cataerva
Merdolino Mendonça
Metia Paula da Silva
Mijardina Pinto
Necrotério Pereira da Silva
Pernilonguildo Tentofaz Furão
Produto do Amor Conjugal de Marichá e Maribel
Putassa Frescura
Rego Penteado
Remédio Amargo
Rolando Escadabaixo
Safada da Sogra Vitorina
Safira Azul Esverdeada
Salvador das Dores
Sextavado Obtusângulo Reto
Silvio Dubroca
Simplício Simplório da Simplicidade Simples
Última Delícia do Casal Carvalho
Um Dois Três de Oliveira Quatro
Vicente Mais ou Menos de Souza
Vitor Hugo Tocagaita
Zélia Tocafundo
17
Jul20

Deep, deep inside...

Rita Pirolita
Até gosto das redes sociais! 
Não fiquem já de orelha no ar, passo a explicar por exclusão de partes! 
Se as pessoas são uma merda ao vivo e se reinventam e mentem no virtual, quererei conhecer a realidade para ficar mais zangada com a constatação do pior? 
Prefiro mentira vergonhosa e descarada que não me toque e sei não dever acreditar que realidade suja de que fujo com nojo! 
Eu quero lá saber o que as pessoas são na realidade quando não me relaciono com elas e por isso quanto mais longe melhor?! 
Se querem inventar para agradar, força, aprecio mais esse circo imaginado a colorir a vossa aridez!
A melhor maneira de se protegerem é nem se aproximarem de um computador, não é manterem a conta e só irem lá de vez em quando, porque não se lembram do aniversário dos amigos! Basta terem um cartão de crédito e sabe-se logo por onde andam e o que andam a fazer!
Se entregamos os pontos por 8 também vendemos por 80, ou acham que o Zuckerberg seria milionário se não recebesse nada em troca pela informação que traficou?
Muitas pessoas não vão gostar de ler isto, primeiro porque sabem que é sincero e depois porque correm o risco de admitir não serem gostadas.
Só para amar não é preciso razão e à maioria falta tudo, nem razão para odiar, nem inconsequência para amar!
Começam depois a vir à memória os pontapés da vida, os camelos que abandonaram e deixaram a falar para as paredes, as boas pessoas que vocês sempre tentaram ser com tanto esforço e no fundo nunca ninguém mereceu a vossa cândida e desinteressada alma, tão desinteressante na procura de aprovação e reciprocidade, diga-se de passagem.
São sempre demais aqueles que adensam o trauma e medo de futuras entregas. 
Quem abre o coração não deve ficar à espera de esmolas, o amor é uma partilha não uma troca contada!
Poucos são os que dizem não gostar e ainda menos os que lidam bem com o ser desgostado, desamigado ou bloqueado, por isso é que mentimos tanto, na ilusão de sermos aceites satisfatoriamente, se for plenamente ainda melhor.
Até parece que fazem ouvidos moucos do provérbio que não se pode agradar a Gregos e Troianos ao mesmo tempo, se nos desunharmos para conseguir o oposto a essa vergonhosa façanha, é mau sinal, sinal que não temos convicções nem coerência, pelo menos connosco próprios e que andamos sempre com paninhos quentes para manter o seguro ambiente tépido ou tapar com manta de pobre, que não só descobre as pontas como deixa tudo a nu.
A vantagem do virtual é que mesmo a mentira tendo perna curta, pode-se manter, adensar, embelezar ou destruir e mudar para outra, quando bem entendermos. A verdade é uma quimera, somos nós que a moldamos, tal como a mentira.
Há lá melhor maneira de viver o mundo sonhado na realidade de um écran?!...
Fora destes mundos a minha vida é uma realidade solitária, simples e limpa de intoxicações!
21
Mar20

Spirit in the Sky

Rita Pirolita
Altamente recomendável ler este texto ao som da "minha música", é só clicar no video abaixo! 
O moço deu-me cabo da cabeça.
Além de ter mais roupa que eu, é um viúvo antecipado, veste quase sempre de negro.
 
Antes de irmos para uma homenagem fúnebre a uma amiga nossa, que se passou para outro lado qualquer que não este, pediu-me em tom de adolescente desesperado que o tinha que ajudar a escolher roupa e que não tinha quase nada para vestir, armado em gaja. 
Tem péssimo gosto para combinar cores e padrões, neste caso só tinha o preto como escolha e não havendo nada na lavandaria, tudo o que tinha estava disponível.
Já lhe disse que se morrer antes dele, não quero ninguém vestido de negro, só para contrariar a sua viúva indumentária, bem pode ir com bolas e riscas que eu não me importo, não vou ver mas se pudesse até me ria!
Vistam-me de branco ou rosa, dancem ao som brutal desta música e espalhem as cinzas no mar!
I'm an atheist but maybe if someone played this in church, i'd be born again!
 
 
Esta nossa amiga morreu de uma espécie de cancro raro que provoca aparecimento expontâneo de tumores em qualquer parte do corpo, podendo estar numas alturas adormecido e logo a seguir surpreender. 

Viveu mais tempo que os médicos tinham augurado. Algumas vezes fui visitá-la, inclusive no hospital, nunca lamechas, enfermeira de crianças, fazia parte do coro da igreja local e uma das vezes perguntei-lhe se acreditava em Deus e ela respondeu-me a sorrir, "tem dias!"
A cerimónia foi simples e como era de esperar, preparada por ela própria com o padre da paróquia que a acompanhou.
Apesar de eu não acreditar num Deus feito à nossa imagem e num livro escrito pelos homens, deixei-me envolver pelas suas palavras deixadas em discurso, foram de uma sinceridade, teve ela tempo de sobra para planear as exéquias e pensar a morte. 
Estive o tempo todo a conter as lágrimas, porque detesto chorar, choro muito pouco e então à frente de alguém para mim é uma vergonha mas a determinada altura não me contive e pensei eu que até daria uma boa carpideira profissional. 
Projectaram fotos que marcaram momentos de uma pessoa que estava sempre a rir, seguido de comezaina nas catacumbas da Igreja, depois do aperta-mão aos familiares mais próximos, já eu via gente com pirâmides de comida em pratos de papel, sem uma cervejinha ou tinto a acompanhar. Está-se na casa de Deus e aquilo de transformar água em vinho foi só para atrair crentes e vender mais Bíblias.
Não me levem a mal mas eu tinha acabado de sair de uma cerimónia de contenção de lágrima e depois espetam-me com mesas corridas, a transbordar de comida e jarros de limonada...tenham dó, a meu ver não fui à Igreja neste dia para me empanturrar de sandes com maionese, haja respeito e recorde-se a defunta num sítio mais descontraído, uma tasca por exemplo, a bem ver, se as houvesse por aqui, não havendo que fossem todos comer a casa! 
Aqui um funeral já é um balúrdio, ainda ter que dar de comer a gente lambona...Não me parece bem! 
De qualquer maneira a pessoa que se finou, sabia que esta comezaina se ia passar, fazendo parte da tradição por estes lados das américas nortenhas.
Alheia aos hábitos dedicou umas breves palavras escritas aos que estariam presentes neste dia, deixou a ideia que à altura que estivéssemos por ali que por acaso até foi no St. Patrick's Day, o seu próprio dia de aniversário, já ela estaria num sitio tão maravilhoso, que nunca poderia ter imaginado ou sonhado em vida! 
É assim que também penso, como é que a morte pode ser imaginada em vida? Não pode, nem eu quero. 
Se for muito bom do outro lado que me surpreenda, se for muito mau ou nada, nem quero saber! 

PS - O moço para castigo por me ter chateado logo de manhã, ficou com uma bela dor de cabeça ao fim do dia.
Eu calculo que deve ter sido também da emoção, embora se tenha feito de forte e dito que foi de ter conduzido durante 2 horas! Homens...

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