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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

08
Ago20

Atracção

Rita Pirolita
Todos se degladiam pela atracção de turistas, nem que seja a aldeia mais ranhosa e perdida no meio do deserto fronteiriço, sem qualquer vestígio histórico de monta como se os turistas fossem a única fonte de rendimento do país, mesmo em aldeias que não tenham ninguém...
Se calhar têm que começar a criar lugares assombrados com histórias ancestrais de terror, assassinatos sangrentos, pegadas de dinossauro em lajes de cimento ou virgens santas que perderam as cuecas, talvez assim comecem a florescer os extintos negócios locais e daí até alguém pensar em reanimar a indústria, agricultura e pescas, seja um passo!...
Isto sou eu a deduzir na minha inocente tuguice azeiteira!
Mesmo as mais pequenas autarquias, são apetecíveis, não são novidade as acusações constantes de derrapagens de orçamentos ou corrupção, de abandono das gentes em áreas tão fracturantes como a saúde, o ensino e a justiça...
É tudo tão fácil mas fazem todos o mesmo...não fazem nada e comem tudo!
Não têm a noção que além de não saberem disfarçar bem a mentira, o discurso convicto apela ao voto, a imagem é tendenciosa, nem sempre os de esquerda têm que se apresentar de camisa esgoelada sem gravata, quase de jardineiras e as ladys da direita de fato Chanel, quase com kiwis. 
As pessoas não se importam de ser enganadas, até têm mostrado que gostam mas queridos autarcas elevem o nível da coisa e caros eleitores reivindiquem mais requinte e beleza na mentira!
30
Jan20

País de pobres

Rita Pirolita
Filhos de pobres que habitam um país pobre!

Somos assim, vindos de gerações pobres que trabalhavam a terra e pagavam ao médico da aldeia filho de famílias ricas com porcos ou galinhas.
Tinha-se uma ligação aos filhos que não morriam ao nascer, de lucro e não de despesa, dois braços por cada boca.

Passamos a filhos que não trabalham mas comem à custa dos pais, fruto da ânsia de classes baixas, que se esfolaram para ascender, que se envergonham da dureza e pobreza da terra humilde, fazendo do curso de universidade dos filhos o baluarte da sua conquista mas esqueceram-se que doutores e engenheiros encabeçam uma empresa ou indústria mas não a movem sozinha, os patrões serão sempre em menor número. 

Estes pais, no seu egoísmo de novo rico, esqueceram-se que as elites continuam a dominar as profissões nobres e rentáveis, onde pouco se faz e muito se ganha na gestão do império, que os patos bravos tentaram atingir a muito custo, numa desesperada afirmação pela qualidade e acesso às mesmas oportunidades, quando apenas queriam parecer mais nobres e ricos.

A resposta à humilhação de ser pobre é usar a cunha, a corrupção e pontapear outros para que não impeçam o caminho da subida. 

Mas será sempre uma questão de riqueza? 
Os pobres não podiam pagar escola aos filhos, agora que podem dar cursos superiores, os filhos não têm emprego, apenas as elites se continuam a mover à vontade e a explorar, não só os mais pobres mas ainda por cima e mais humilhante, os pobres com cursos, o ensino superior não lhes permitiu mesmo assim, usar as ferramentas para combater a desigualdade sempre assente no poder. 

A ascensão social faz-se por casamento ou profissões pornograficamente bem pagas, como jogadores da bola, idolatrados por darem pontapés na bola ou por influentes cargos políticos, sempre nos meandros da corrupção mas nunca condenados.

Só nos países pobres se deixam passar os grandes desfalques e se rouba uma maçã, ou foge aos impostos, pensando que grão a grão enche a galinha o papo!

Era tão bom que a riqueza não se bastasse a ela própria e não fosse tão adorada e cobiçada! 
Mas a riqueza sabe que cala e compra o conhecimento e este será sempre escravizado em nome da hipocrisia!

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