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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

17
Jul20

Pedras mais pedregulhos

Rita Pirolita
Vou falar de um par de pedras mal enjorcadas que saíram de dentro de uma pessoa. 
Pedras na vesícula que degeneraram numa pancreatite aguda mas tão aguda que alguém ia morrendo. 
 
Imaginem que essa pessoa é o meu pai, ora bem este ser que não é o meu pai, volto a frisar, tinha tanto medo de ir à faca, de agulhas, hospitais e ver sangue em geral que fez tudo e mais umas botas para ver se as pedras se partiam em bocados e mesmo com previsão de dores atrozes, saíam pela uretra em nome da força da gravidade. 
 
Ele era passear pela casa a roer rabanetes crus a toda a hora, ele era beber litradas de chá parte pedra, o famoso Pau d'Arco comprado ali na ervanária do bruxo mais famoso da Rua da Madalena, a que vai dar à Pollux e não muito longe do defunto Braz & Braz. 
Vinha-se daquele estabelecimento com um aviamento de contos de reis que era obra mas também com muita esperança de fugir a um pequeno corte de bisturi. 
Foi isso que acabou por acontecer a inócua ajuda alternativa do se bem não faz mal também não traz, desabou no recurso à medicina tradicional em cortar, tirar e voltar a cozer.
A coisa foi feita de urgência tão urgente que a infecção já estava espalhada pelo corpo que se tornou esverdeado de tanta merda que queria desabafar, fruto de anos de acumulação.
Esta cirurgia foi o culminar de uma vida sem regras alimentares, a devorar tudo o que é bem português em mau, bem regado com vinho, vegetais e fruta nem vê-los durante anos. 
Já eu que sempre fui uma enjoadinha tive logo os primeiros sinais no início de vida, a não gostar dos vulgos gelados e açucares refinados por que toda a petizada se lambia, já naquela altura sem saber era uma weirdo. 
O fim da adolescência também trouxe em factura cumulativa, o enjoo de carne, leite e ovos e agora numa outra fase o enjoo até do cheiro a peixe e quase tudo que seja de origem animal, desde queijo a iogurtes. 
Não sei se foi isto que me manteve afastada de qualquer hospital em que só passei algumas noites por acompanhar alguém em coma alcoólico, mesmo que algum dia esteja aflita com alguma dor, não sei se prefiro aguentar a ir parar às urgências e ficar ainda mais doente com o desespero dos outros e o tempo de espera. 
Qualquer dia com esta minha  frescura morro e pronto, fica logo tudo resolvido. 
Onde eu quero chegar é que não sei o que será melhor, ser sempre saudável que nem um pêro sem sintomas de nada ou dores e depois um dia de repente dá-nos a camueca e podemos ou não ir desta para melhor, fica-se ali a patinar pelos anos todos de folia e exagero ou se é preferível sentir sinais de fraqueza de um certo órgão e atacar logo a coisa de forma homeopática, vai-se fazendo bem em doses diárias e repartidas, uma alimentação mais equilibrada e quando metemos a pata na poça já sabemos o resultado e voltamos a entrar na linha tão depressa como saímos. 
A minha debilidade é a figadeira, confesso, além de ter maus fígados com gente que não gosto e pessoas em geral nunca aguentei comer fritos, manteiga ou margarina ou coisas confeccionadas com muita gordura. 
Venha o Diabo e escolha mas se tivesse a garantia de que podia ser um alarve boémio e quando me desse uma forte escapava recauchutada para mais uma dose, aí dá-va-lhe forte e feio! 
Mas não posso e tenho que aceitar a minha condição.
Quanto às pedras que deixaram de ser propriedade do meu pai, ups, confesso era o meu pai, assim que saíram de dentro dele foram de tal forma admiradas pela equipa médica que o operou que as enfiaram em formol num frasquinho de laboratório e lhas ofereceram.
Lembro-me que por uns bons tempos a dupla rija andou lá por casa em cima de um móvel bem à vista de todos, para serem exibidas aos nossos olhos como sinal de bravura em sobrevivência a tais calhaus e lembrarem acima de tudo ao enfermo ressuscitado que a prática de uma alimentação saudável devia ser mantida até ao fim da vida e continuar sem deixar de fumar era a melhor escolha.
Os pedregulhos eram assim mostrados aos amigos pela sua grandeza como se fossem quase preciosos de tão fatais!
Passado uns tempos desapareceram, escondidos e esquecidos num móvel qualquer e depois, lixo com eles. 
As pedras foram-se, a alarvice descontrolada voltou e o cigarro também!      
12
Fev20

Quem não?

Rita Pirolita
Quem não? 

Sentiu desprezo portas dentro, viu compaixão cega e ajuda oferecida a quem não merecia, abuso de laços de sangue, desrespeito, humilhação e domínio em troca da comida que vai à mesa.
A qualquer movimento dizem que não fazes mais que a tua obrigação que não precisam de saber se simplesmente estás bem, se precisas de alguma coisa mas apesar de não prestares para nada e não mereceres, até te dão os Parabéns todos os anos e telefonam pelo Natal em jeito de missão cumprida. 
Os filhos têm a obrigação de se preocupar com os pais, de lhes obedecer e nunca pôr em causa os seus infalíveis métodos de educação, uma chapada nunca fez mal a ninguém e a violência preenche o dia-a-dia à falta de melhor, num lar sombrio que baste. 
Quando sais de casa não há olhar para trás, não há lugar a lágrimas de saudade que te enfraqueçam.
Ao mínimo pedido de ajuda em passageira dificuldade, vão-te fazer amargar cada palavra de apoio e cada tostão será cobrado, não socumbes por orgulho e segues sem amparo. 
Podia ser eu, a continuar o mesmo tipo de vida mas não, sou eu a contrariar, a evitar percurso tão errante e vicioso. 
Se tivesse rodeada de simples cuidado e bondade seria hoje mais assertiva, livre e menos defensiva.  
Neste caminho que vou correndo, a fugir de gente que me atinja com malvadez e desamor, quem me fez nascer desistiu de viver por cansaço de tanto desleixo e frieza miserável...
Quem ficou tem no meu olhar a acusação e o julgamento da culpa que não sente, com quem tenho que conviver por pena e que pensava eu me fizesse mais forte e melhor, mas apenas me aumenta o nojo.  Não sinto previlégio no sofrimento, não quero ver pena nos olhares, não me é permitida saudade ou luto nem queixa por injustiça, apenas aceitação de uma vontade doente que se cumpriu e me venceu.

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