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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

18
Jul20

Do casamento ao divórcio vai um almoço

Rita Pirolita
Dias atrás almocei em local popularucho, sitiozinho de famílias de fim-de-semana, restaurante de peixe típico de praia, sardinha assada a pingar no pão, choco frito lambuzado de gordura, mosca quase a pousar no pão, cheiro a entre-folhos mal lavados de berbigão e outros cascudos mariscos, vinho à casa, garrafas de azeite escorregadias, alface, tomate, pimento e cebola, salada que mais parece criada numa salina, haja sal na vida e nas artérias, travessas de alumínio barulhentas-inquebráveis, talheres de nações diferentes, pratos nicados ao bom estilo pesado e resistente da fábrica de Sacavém, copos a cheirar a fesquio, sobremesas de babas de animais e doces da mãe, da tia e da avó, ananás de bordas secas e salada de fruta com cereja cristalizada...  
A primeira servidora que abordou a mesa tinha ar de modelo rejeitado, que não queria estar ali a trabalhar porque achava que merecia mais, mas era aquilo ou casa de alterne que talvez estivesse na calha, pelo menos às sextas e sábados à noitinha! O moço observou que também tinha ar de designer de jóias, mais propriamente na especialidade de broches! Ora bem, o que salvou a moça de nos levantarmos e darmos lugar a outros, foi ter ido brochar para outra sala do restaurante, veio em sua substituição um puto com a palermice típica da idade do acne, de barba semeada em dias de vento e de penteado híbrido, entre o jogador da bola do clube do Arranha a Picha à Pescador e empregado de mesa durante a semana no restaurante onde estava. 
Até agora tudo a bater certo. 
A única miúda gira e de ar decente que tanto poderia estar ali a servir como estava a fazer e muito bem, como podia ser gerente da ZARA, discreta, desempertigada e vestidinha com classe, se é que as há, foi a que não nos calhou, por acaso era a filha do dono e tinha um ar normal o que nos dias que correm é o mínimo que já desejo encontrar, gente simples e normal com os cornos minimamente alinhados para se fazerem entender e saberem ao menos uma pontinha do que andam por cá a fazer sem se armarem em pindéricas!
O almoço começou com anúncio de festejo por parte do meu pai, celebramos o divórcio de segundo casamento de três anos, decidido o nó em três dias, decidiu-se a desfeita do atilho em três dias também. 
Alvitrou ele - 'Festejamos porque mereço e porque já fiz quase tudo o que queria na vida, passando pelos estados civis de solteiro, casado, viúvo e divorciado, nada mais resta senão continuar a viver como quero e me vão deixando.'
Confesso que foi um momento de riso para mim, quase a tocar o hilário de um progenitor que sempre fez o que lhe deu na bolha, sem pedir conselhos ou cair em lamúrias, tal como eu casou mas não disse nada a ninguém, só o par tem que saber e ser para se dar o casório de assento A4 ranhoso, de uma penada em menos de uma hora. 
Foi o único momento em que achei que o pai era da sua filha em algum ponto, com o acréscimo de ter tomates para ficar mais uma vez sozinho para lá dos 70, sem mostrar arrependimento, porque o orgulho o impede e porque aos outros tal como a ele, já falha a paciência para lidar com arrufos de amor.
Nestas idades, já sinto eu um cheirinho, seremos mais crus, rijos na emoção, flexíveis no futuro que já não tem muito a perder nem dar a ganhar, o tempo que sobrar, aproveita-se como fim-de-semana prolongado de feriado à quinta ou terça!
Serei eu assim, sem medo do estigma do lar, do abandono de quem não tive nem mantive, porque não cultivei e reguei amigos de longa data, porque não rebentei outros seres afilharados, porque a família me pariu de sangue em sangue sem afinidade ou cuidado próximo, porque os sobrinhos e primos têm outros padrinhos e tios para cuidar, a mim ninguém me tocará por herança ou dedicação, apenas o dinheiro, se o poupar, garantirá tratamento por alguém frio e distante, que não sofrerá com o meu degredo nem eu olharei nos olhos de quem me cuida, com humilhante vergonha de me ser querido, a quem poderia provocar sofrimento por ligação, porque o apego é uma merda de liberdade envenenada pela fraqueza de morrer, seja em amor, comiseração ou compaixão!
18
Mai19

Não tiveram culpa

Rita Pirolita



 
Os nossos pais não tinham culpa!...

De nos barrarem com Nivea que não tinha nenhum factor de protecção, era o que havia e aquela camada branca alguma coisa tapava, quanto mais não fosse os poros.
Passávamos o dia inteiro na praia, ainda não sabíamos que a camada de ozono estava esburacada.

Usaram kilos de sulfamidas e pó-de-talco e pararam depois de serem divulgadas as suas propriedades cancerígenas.

Descobri que as bolinhas de mercúrio não se conseguem apanhar, eu queria confirmar que era um metal pesado, sempre que partíamos um termómetro levávamos raspanete porque eram caros como a porra. 

Empanturravam-nos de comida até não podermos mais nem com um grão de arroz, bebé que nascesse com 4 kilos é que era saudável, gordura era formosura e não havia bullying de roupa ou ténis de marca. 
Eramos todos brancos, pretos e ciganos metidos numa escola pública à porrada no recreio ou na rua. Era o salve-se quem puder, não haviam privilegiados nem coitadinhos.

Atascavam-nos de Sugus, Tulicreme, pão e massa, a desafiar a diabetes e concorrer a celíacos do ano, bebíamos leite gordo e comíamos manteiga pura para estimular a figadeira.

Não bebíamos leite achocolatado mas sim chocolate com leite, Milo, Toddy, Ovomaltine ou Suchard Express mais quatro colherinhas de açúcar em cima.


Até muito tarde, só conheci um tipo de queijo, o flamengo, com a típica casca de cera vermelha que tantas vezes comi e nunca caguei velas daquela cor.

Se nos batiam, era porque merecíamos e se nos queixávamos da professora ainda levávamos mais.

Se acne havia, esperávamos que passasse com a idade, a mesma coisa para as botas ortopédicas, os óculos com pala ou aparelhos nos dentes.

Partir cabeças e ossos, levar pontos e esfolar joelhos...Gente com mais de 40 anos que não tenha mazelas e cicatrizes que doem com a mudança de tempo, não foram crianças felizes.  

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