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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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25
Jul20

Animal de coice

Rita Pirolita
Muitas vezes me pergunto se sou normalmente humana e a resposta cada vez mais se aproxima da anormalidade e aberração associal que sou, não tanto anti-social.
Lá vou eu explicar mais uma vez sem me querer justificar ou desculpar.
Apenas faço constatações do animal que sou, adjectivado e muito bem pela minha mãe, umas vezes de 'mula ruça' outras de 'cabra do monte', pela precoce convicção e muita inquietude e agitação de alma e corpo! 
Na era tresloucada saía para socializar e me sentir normal e integrada, nunca fui de fazer amigos ou mesmo fidelizar conhecidos, saltitava com facilidade de grupo em grupo, nunca ficando ancorada às mesmas caras, hábitos e sítios, sempre foi um atentado à minha alérgica reacção à monotonia e pressão de corresponder às expectativas dos hábitos de jantarzinhos aos fins-de-semana, reuniões todas as noites no café do costume, aniversários e casamentos, batizados e funerais, bem a estes últimos não se escapa com facilidade, muito menos o morto.
Não procurando com quem desabafar, coisa que nunca me assistiu muito, não tinha também com quem me comprometer em confidências e mexericos! 
Esquivei-me assim de dar muita prenda e fazer sala em convívio forçado com hora e arranjinhos marcados, com que tentavam armadilhar a minha livre existência, por já ir ficando para tia e parecer mal ser maluca e libertina até tão tarde! 
Lá fui aproveitando o que me davam de bandeja, com a leviana assunção de que um dia se calhasse e se acordasse para aí virada, até 'assentava' a poeira mas não era meu interesse nem nunca esteve nos meus planos, ter filhos muito menos, esses nem pensar trazer ao mundo que já tenho uma trabalheira louca com o animal de coice que sou!
Tantas vezes altas horas da matina olhava à minha volta, atordoada por música ensurdecedora e pensava o que estava ali a fazer perdida em bebida e gente como eu, que preferia a dormência de noites mal dormidas para que os dias passassem mais alheios à desilusão de estarmos condenados a uma vida de trabalho de merda, com horários fodidos e ainda fodiamos mais a coisa numa espiral desesperante  de prazer nunca encontrado!
Passou-se a adolescência e grande parte da vida adulta em noitadas e agora da gente fujo, até fico doente com marcações seja do que for, não gosto que importunem a minha improgramável quietude!  
Arrasto-me na obrigação de em meia dúzia de vezes mostrar a mim própria que devo arejar a beleza e até ainda consinto um convívio curto, sem jantares ou coisas de monta, um café vá lá, para dois dedos de conversa.
Estão todos bem? Eu também! Até ao próximo ano, lá mais para o final mas sem ser no Natal ou Reveillon, Páscoa, Carnaval, feriados, aniversários, casamentos, funerais...o defunto que descanse em paz e não se incomode em avisar! 
O moço é que ainda me vai arrastando para alguns ajuntamentos, se não fosse ele por mim ficava longos períodos sem falta de gente, quietinha a fazer de conta que não existo! 
Embora faça uma tromba daqui ao Alasca e até chegue a ficar com febre e calafrios quando ele começa com combinações, lá acabo por ir e ser a mascote ou anfitriã da festa! 
Afinal sou um animal de palco e não tanto um bicho do mato!

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