Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

Contos e Descontos

09
Ago20

Já sou canadiana também...e depois?

Rita Pirolita
A cidadania neste país dos ursos, neve e desolação, que o Deus dos esquimós conserve tudo isto no devido sítio de origem, para que não se espalhe, custou-me cinco miseráveis anos da minha vida, de frio ou muito calor, que eu vivo para o interior das pradarias da agricultura, com explorações imensas, acres de canola a perder de vista e campos de um dos maiores desastres ambientais, a exploração de petróleo, as famosas oil sands de que ninguém fala, por ser um país próspero e de primeiríssimo mundo para onde todos pensam que querem vir...até um dia baterem cá com os costados! 
Eu sei que tenho que ter em consideração que a maior parte da emigração é forçada na origem e não desejada no destino, pessoas que abandonam autênticos paraísos de beleza mas que são infernos de fome e pobreza. 
Eu sou uma privilegiada vim de um país lindíssimo, para mim o mais lindo do mundo e para os lados dos Açores não poupo elogios, ainda relativamente seguro, quase nunca assolado por catástrofes naturais de monta, aliás, os únicos que provocam a maior desgraça e morte lenta do meu povo são mesmo os ladrões dos políticos e dos banqueiros!
Não deixo no entanto de me pôr na pele de muita gente menos bafejada pela sorte. 
A minha cerimónia de entrega da cidadania foi feita numa sala com mais 84 pessoas de quase todos os cantos do mundo, todos mais escurinhos, aliás, na sala haviam mais 2 brancos além de nós, uns de turbante que não são obrigados a tirar por alegarem razões religiosas, imensos miúdos, muita desta gente vem de famílias tradicionais e conservadoras e ter filhos no Canadá dá para ficar em casa um ano com um bom rendimento. 
Os próprios que conduziram a cerimónia eram emigrantes...
O Canadá teve originalmente Índios, os canadianos são todos emigrantes mas alguns consideram-se mais canadianos que outros, vá-se lá saber porquê, se é pelo tempo que já levam aqui ou pelas gerações?...Por esse prisma os Índios deviam ser mais respeitados!
A senhora que fez o discurso, que fomos avisados previamente para ouvir com atenção e nos levantarmos à sua chegada, deu-nos uma lição de moral, sobre a aceitação deste grande país que acolhe gente de todo o mundo, blá, blá, blá...muitas vezes altamente qualificada, para fazer o trabalho que os que já emigraram há mais tempo não querem fazer. 
Só esta última parte é que a senhora se esqueceu propositadamente de dizer! 
No final a palradora palestrante, indignou-se com a falta geral de jubileu na sala na obtenção de tal mérito, advertindo que tínhamos que festejar e agradecer muito esta etapa.
Agradecer a quem? Apesar de estarmos em época natalícia, ninguém nos deu nada de graça! 
Muitas pessoas que lá estavam tinham feito duas ou mais horas de caminho, porque vinham de fora da cidade para obter um papel A4 que fará deles cidadãos de plenos direitos e deveres, que dará acesso a assistência ou tratamento médico quase gratuito, que dá direito a votar mas também a ir preso se puserem a pata na poça.  
Via-se que era gente de trabalho, muitos deles engenheiros ou professores que andam a recolher lixo ou a fazer limpezas.
Pela cor da pele habituados a climas mais quentes, vê-se que passam muito mal com o frio extremo por estes lados do mundo. 
Gente que passou cinco anos de sofrimento para obter este papel e pensar que muitos entram directo com estatuto de refugiado, difícil de provar, aproveitando-se assim de regalias sociais. 
Eu sei que o mundo é injusto para os justos mas eu também não fiz mal a ninguém para estar no meio disto.  
14
Jul20

Nem de lá nem de cá

Rita Pirolita
Costumo deleitar olhar e alma com televisão made in Madeira ou Açores.
Magazines culturais, de costumes, de festas e eventos religiosos. 
Sambas importados não e muito menos meninas de traço rude e cabelo oxigenado das américas do norte e latinas, essas se dispensam pela distância de hábitos e desfile de modas de além-mar, de lantejoula ou cetim agarrados a curvas em demasia, por isso deixo já de falar delas, mesmo fazendo parte da paisagem no verão das ilhas!
As notícias são de lá e por lá ficam, dadas com timidez cândida, sem contaminação, só a eles pertencem, só a eles dizem respeito com todo o respeito pelas do mundo. 
Se vivem sem guerra, longe da desgraça mundial, porque não evitarem o contágio?!
Existe poder informativo acima de qualquer palhaçada espectacular. 
Se têm programas pirosos? Se calhar, não vejo nem conheço mas aqueles que falam pelas gentes, são a delicia de ouvir sotaque recatado de boca mais fechada, conhecimento sem invenções ou circo de turismo. 
Almas habitantes das ilhas não se podem sentir perdidas nem na terra onde poisam o corpo nem no mar que nunca será seu, pela imensidão de ligar outros solos.
Em todos os locais de Portugal há uma rua Direita, da Igreja ou da Sé e uma praça Central, ali não será excepção mas a rua Direita pode não ser tão directa como isso. 
Mal sabiam as moçoilas na ansiedade de se livrarem da insularidade ao agarrarem-se a um continental, que se estavam a afastar da simples quietude e não do atraso ou monotonia, que iam mergulhar num mundo caro demais para o engano!
O isolamento pode desesperar e enlouquecer mas também protege da insana invasão. 
São estes piratas de barco fundado, feito de montes de preta pedra, de hortenses e esterlícias, que falam da terra em  permanente desterro orientado na imensidão do oceano, que se sabe Portugal e não ilha-país como tantas há por esse mundo fora.
Pedaço de nação que já foi o único que nos restava, resistente Adamastor a investidas espanholas de nos tirarem pedaço em terra-continente. 
Ilhas de refúgio real, de escritores e loucos artistas, prodigiosos poetas e prosistas de linguajar denso e polposo-sumarento.  
Se atrasados são estes, eu que não sou gente nascida lá nem muito menos sou de cá, será que me deixam ser de lá?...
 
22
Abr20

Náuticos

Rita Pirolita
O moço sempre gostou de desportos náuticos e agora com mais tempo livre que o trabalho está mais brando, passa algum tempo a ver videos no YouTube dedicados ao tema, eu de vez enquando lá vou deitando o olho mas confesso, algumas vezes até fico enjoada de tanto balanço, mesmo estando em terra com o rabo bem assente no sofá, outras vezes fico a rebentar de orgulho, quando passam pelos Açores, paragem quase obrigatória para quem atravessa o Atlântico e dizem maravilhas de tudo, desde a comida, à paisagem, passando pelas suas gentes. 
Bem, mas o reparo que queria trazer a este texto é o seguinte, spesar de não perceber nada de timonice em águas profundas, que me faz impressão não ver o fundo às coisas, fico impressionada com a grandeza e aparato dos catamarans e a beleza dos marinheiros e marinheiras que se juntam em casalinhos muito bem resolvidos com a vida, que gozam de uma elegância e ar saudável de fazer inveja a qualquer um, elas sempre loiras, Barbies à vela, acompanhadas de um bom motor a bordo, de tronco defenido, cabelo comprido e olhos azul-mar ou verde-alga, que valha-me São Neptuno! 
Ele é viagens para as Fiji, para o Hawaii, para a Austrália, enfim, rotas de muitos dias, com alguns abanos e avarias pelo meio mas nada de monta, que morram todos à fome ou comidos pelos tubarões, as refeições são regadas por bom vinho, que nunca falta a bordo, eu que sou uma enjoadinha se fosse a bordo passava o tempo todo deitada a vomitar! E vinho? Nem ver a garrafa, quanto mais cheirá-lo!
Não acho nada mal que gente gira faça estas viagens, com ou sem patrocínio mas têm que levar sempre muito dinheiro na carteira e além do mais ter uma conta bem recheada em terra. 
Como estava a escrever, não acho nada mal espalharem tanta beleza em alto mar, a questão é, como é que eu e aqui o miúdo, somos um casal tão giro, feliz, comunicativo, cúmplice, muito dado à folia, aventureiro...e o único barco e respectivo dinheiro para o sustentar que algum dia vamos ter será de papel e não me venham dizer que é por eu enjoar!...   
12
Fev20

Do Canadá para o Hawaii

Rita Pirolita
 
Por esta altura já todos os que me lêem, mais os que me conhecem e a quem eu disse que vinha viver para o Canadá, sabem que ando por terras frias como o carago!
Esta história, não inventada, não tem nada a ver com o frio mas pode ter a ver com as suas consequências, quiçá na contracção do cérebro de alguns portadores do que resta dele, que resulta em danos de diálogo e conhecimento mas muito humor, valha-nos ao menos isso!
Em quase todos os sítios a posse ou condução de um veículo exige um seguro, uns fazem-no outros não e habilitam-se a coisas menos simpáticas, aqui garanto-vos que convém ter, já em Portugal se fores brasileiro?...
Apesar de ser caro como a porra, o que pago aqui por mês dá para 9 meses em Portugal mas adiante que eu não sou de me chorar para angariar peninhas, já há muitas por aqui de pato e ganso, animais protegidos por estas bandas mas assim que atravessam a fronteira com os Estados Unidos para fugir ao congelado inverno, são mortos por caçadores e não é à fisgada, vos garanto!
Numa tarde fria mas solarenga, o moço dirigiu-se à nossa seguradora para suspender a cobrança do seguro automóvel por um mês que iriamos passar em Portugal, já que é tão caro, podíamos estourar o dinheiro em putas e vinho verde no nosso lindo recanto, tipo jangada de pedra do Saramago mas com dispensa de trazer Espanha colada a nós, que para férias longas nunca precisei de reboques!
Para ver coisas bonitas e não ouvir gente com sotaque de baba e língua grande demais para a boca que tem, fico em Portugal e com sorte a nação desliza até aos Açores e não gasto um balúrdio de avião!
Como estava a contar, o meu querido moço foi atendido por uma simpática moçoila que lhe tratou logo do cancelamento ali ao balcão, que eles aqui parecem muito despachados mas é só para disfarçarem que não percebem nada do que estão a fazer e que são pouco desenvolvidos da moleirinha, embora exponham os diplomas todos na parede, daqueles cursos de aperfeiçoamento tirados enquanto vão ao WC. 
Continuando...
A menina para ser simpática excedeu-se nas perguntas e penetrou na intimidade do meu gajo, como sempre fazem aqui, vivem todos hibernados em casa mas quando te encontram em locais de obrigatória interacção, que não uma casa quentinha de putas, aqui é tudo forçado com a desgraça do frio, fazem-te perguntas indiscretas ou seja são desequilibrados dos cornos e isso reflete-se nas relações sociais que são falsas como Judas e plásticas como a comida! 
Mas isto não tem nada a ver com as drogas e o álcool que estão quietinhos no seu canto, a não ser apenas e só quando lhes tocam. 
O álcool dá mau feitio e mau hálito mas a erva dá estupidez, maluqueira e cheiro a merda e peidos que me enjoa deveras, quando atendo alguém neste estado nauseabundo, pergunto logo para ver bem se não pisou merda lá fora, porque traz mau cheiro, recebo mais trombas de volta para as quais me estou a cagar! 
Não fumassem como eu faço ou metessem mais tabaco na coisa e misturassem com chamon, sempre disfarça com aquele cheirinho a incenso!   
Só para deixar aqui um exemplo de vizinha maluca e bisbilhoteira que são, uma vez fui ao banco levantar dinheiro para comprar um carro usado, embora me apetecesse comprar um Subaru novo para estourar em piões, a menina no banco perguntou-me qual a razão porque estava a levantar aquela quantia, que não era nada de especial diga-se de passagem e eu respondi tipo Obama I don't care, 'Because I can'! Saí do banco com o MEU dinheiro e ela ficou com as trombas bem amarradinhas atrás do balcão!
Caramba, ainda não consegui contar a parte melhor da história do moço e o texto já vai com uma tromba de elefante como daqui a Marte!
Mas a propósito das perguntas indiscretas e voltando à Martha norte americana do seguro, como a justificação do meu moço para o cancelamento temporário do seguro foi por motivos de viagem a menina feita simpática armada em esperta perguntou logo se era em trabalho ou lazer, lá está mais uma vez, deves ter muito a ver com isso, coisa que o moço lhe fez entender com muita ironia, coisa em que é muito bom, a gozar com a cara de quem se arma em parvo, respondendo que as suas viagens eram sempre por prazer e em lazer, à grande, sem olhar a gastos, por acaso é mentira, porque as viagens mais bonitas que já fizemos foi sempre nas alturas que quase não tínhamos dinheiro e uma delas foi à Austrália por 2 meses....a dormir em tenda e carros alugados, dois marmanjos grandes como a porra a dormirem numa tenda recomendada só para um, mas foi a mais barata e leve que encontramos na Decathlon e que conseguimos meter numa mochila de 35 litros, juntamente com meia dúzia de t-shirts, calções, bikini, saco-cama, escova de dentes, um bom casaco e um bom par de botas para caminhar, que já iam enfiadas nos pés!
Não dá para tudo, às vezes para ir onde sonhamos temos que abdicar de alguns confortos, que para mim são desafio e aventura e não digo isto à pobre, divertimo-nos como nunca no local à face da terra onde há mais bichos por metro quadrado que te podem matar em segundos! 
Abdicamos também de ter filhos para puder viajar, isto é o que digo a toda a gente, mas a verdade é que nunca os quis ter, os dos outros são giros o suficiente para eu os tolerar não por muitos segundos.
Além de sairem muito caro na criação e de mais tarde se transformarem inevitavelmente em adultos palermas, íamos ser acusados de brutal desleixo, por os expormos a perigos desnecessários em viagens tão radicais! 
Assim, todos os pais falsamente orgulhosos, porque já não podem devolver à origem ou livrar-se dos montes de carne, pêlo, unhas e com sorte algumas células cerebrais, o mínimo para sobreviverem, que me desejam uma ou várias gravidezes para me calar o pio e tirar o gozo, ficam a falar para o cuzinho do babuíno e a passar férias lá dentro de casa, cá fora na varanda, no jardim, no Fórum Almada, a fumar ganzas e a apanhar escaldões na hora do cancro na Fonte da Telha ou a assar sardinhas na Ponta do Mato, que até se lixam com um F bem grande!
Ora bem, a menina ao deitar o olho à ficha de cliente, viu que já tínhamos acumulado alguns cancelamentos e aposto ficou mordida de inveja, sim que eles aqui também sofrem do mesmo mal português, que por acaso não passa quando emigram, além de que só tiram duas semanas de férias por ano, gozadas  à bruta, a enfardarem e a embebedarem-se nos resorts all-inclusive, arregalam logo a pestana quando alguém goza mais tempo que eles, porque arranja trabalhos sazonais, com todos os prós e contras que isso acarreta mas nada é perfeito e o que quero levar no papo são recordações de gozo e não de obrigações ou dever cumprido, porque não tenho missão nenhuma nesta porra de sítio que é a terra, só quero é viver, não fazendo mal a nada, não me pondo a jeito para que me façam mal ou esgueirando-me como enguia do mal que me queiram fazer! 
Não sei se já escrevi em alguma altura, se sim volto a repetir, a minha filosofia de vida é, não sendo rica para fazer népia e ocupar-me às vezes a fazer de conta que vou salvar o mundo, coisa que nunca faria porque não tem salvação, apenas trabalho para pagar as coisas que gosto e uma delas é viajar para sítios remotos com muita natureza e pouca gente de preferência, para não encontrar meninas como esta do seguro e se as há aos molhos por esse mundo fora, que gostam de dizer que trabalham muito para seguir uma carreira mas depois vai-se a ver, são umas frustradas infelizes e mais grave ainda, são quase sempre gordas em dieta vitalícia, revolta e depressão constantes e nunca saberão o que andam a fazer até ao fim da puta da vida que arranjaram, merecem e pagam até ao último cêntimo e minuto!
Bem, voltando à vaca fria, que aqui são todas mas não precisavam de ser burras também, dando origem a um animal híbrido e estranho como a porra, a moçoila ao olhar para o nosso cadastro automóvel, sem acidentes nenhuns, que não somos como aqueles que conduzem bem, batem é muito, viu que andávamos a laurear a pevide demais para o seu gosto e da maioria dos canadianos, para quem o emigrante recente, porque eles são todos um bando ancestral de emigrantes colonizadores da pior raça, que parece foram todos à cona à prima, tem que ser um desgraçado tal, que se deixe humilhar por trabalhos de merda e salários a condizer!
Para esconder a frustração e inveja, a secretária pindérica dos seguros perguntou sobre as viagens e bem à canadiano pobre, que tem algum dinheiro mas vai sempre para Cancun ou Varadero por ser barato e fica fechado na segurança do resort, fazendo uma excursão de 10 horas de autocarro para ir ver umas pedras caídas, que os guias inventam que os antepassados não foram escravizados e construíram tudo aquilo de boa vontade aos fins-de-semana e feriados, naquela altura já havia respeito pelos direitos dos trabalhadores e nas horas vagas a 'obrigatoriedade de trabalho comunitário voluntário', os turistas norte americanos acreditam, os europeus como têm mais tempo registado de história, são mais difíceis de enganar com estas balelas que os latino-americanos contam e com as quais se devem rir para dentro, com aquela dentuça e cabeçorra em cima de um pescoço que não existe, em troca de umas boas gorjetas! 
A menina, ainda na senda de ser falsamente simpática de sorriso amarelo em riste, abriu a pestana, contraiu o olho do cu e arrebitou os mamilos, não sei, não estava lá, isto já sou eu a inventar, quando o moço disse a palavra mágica, Hawaii e mais ainda...been there 6 vezes.
Aviso já que quando fomos acampamos algumas vezes e muitas outras dormimos dentro do carro, se na Austrália o podes fazer sem ser importunado, no Hawaii não é permitido e em todos os estacionamentos não podes permanecer mais de 24 horas, é claro que à noite andávamos a fugir à policia e aos guardas dos parques, refundidos em estacionamentos de bairros residenciais, com os mangustos como única companhia a revolverem os caixotes do lixo ou a dormirmos à porta do McDonalds para poder usar o WC para o chichi e higiene matinais!Já agora vou fazer uma breve resenha gratuita do que é o Hawaii, não têm de quê!
É um local muito cobiçado não só como meca dos surfistas mas também por veraneantes emproados como golfistas e noivos japoneses, que fazem questão de ficar em tudo o que é hotel com a designação Luxury, Diamond ou Platinum, como os havaianos não são estúpidos e devem ter aprendido alguma coisa com a esperteza madeirense e açoriana que emigrou para lá aos magotes, dando também origem ao tradicional ukelele, uma espécie de cavaquinho português, estava eu a escrever, então os havaianos em qualquer buraco espetam com a classificação que dá brilho à coisa, quanto mais blink blink melhor mas aviso já que é tudo caríssimo, tanto a viagem seja de onde for para lá como a estadia. 

A praia que tanto se vê em filmes e anúncios, Waikiki em Honolulu, é uma autêntica merda, uma língua de areia que com a maré cheia quase desaparece, atravancada entre uma orla de hotéis a perder de vista, uma areia suja de tanto turista e bebedeira dos luaus, minha querida areia branca da costa alentejana, muito gajo de cabelo queimado e gajas de mama silicone tipo Bay Watch, com flores de plástico à volta do pescoço, muita puta de rua gira e lavadinha, muito sem-abrigo porque está sempre bom tempo nestas ilhas, as ondas são marrecas de velho para principiantes, estas tépidas águas têm aquela adrenalina, aquele picante de terem tubarões misturados lá pelo meio, mais uma vez, minha rica costa alentejana de água fria e revolta, mais linda como não há no mundo! 
Se querem ver alguma coisa de jeito, passem a cartada de Pearl Harbor, em tempos de paz e relax não se quer saber de guerras e visitem antes os vulcões adormecidos Mauna Kea e Mauna Loa, este último tem um observatório onde podem ver bem as estrelas e alguns planetas e ambos têm neve no cume e tantos japoneses, que só apetece atirá-los monte abaixo à biqueirada, não percam na Big Island também, o espectáculo da lava incandescente do vulcão Kilauea, cenário único e incomparável principalmente à noite e onde eu me aproximei tanto para ver o espectáculo que no chão escaldante derreti a sola das sandálias que levava!
Ora bem, a menina depois de engolir em seco, por tanto desejar ir ao Hawaii mas acabar sempre com os costados escaldados pelo sol da piscina cheia de mijo e cloro, que até pica nos olhos, num qualquer resort perdido no México, para ser ainda mais falsa na simpátia e a pensar que fazia boa figura, vomitou a seguinte observação: 

Deve ser cansativo conduzir até ao Hawaii?...

Introduzo aqui um som de bombo e pratos, cabum tchim, o moço arregala os olhos e aperta o olho do cu num esforço desumano para não se cagar a rir, depois de cancelar a coisa, sai porta fora, pega no carro, sem ideias de ir até ao Hawaii sem me levar, ai dele que faça isso, ainda por cima bem refastelado no Dodge que temos e entra em casa a lutar por respirar entre soluços e dores de barriga de tanto rir, na tentativa de me contar este elucidativo diálogo, não sobre as maravilhas de um bonito arquipélago perdido no meio do Pacífico, abençoado por Deus e estragado por tanto turista mas sobre a capacidade humorística daquela rapariga, desperdiçada atrás de um balcão de seguros, nem sei se merecia ter aquele emprego com tamanho empenho em espalhar parvoíce! Se calhar a senhorita só tinha feito a formação relativa a seguro automóvel, não a de barcos ou aviões, normalmente usados para chegar a ilhas!  
O que vale é que vivemos num país democrático e se a selecção natural permite a existência e integração de deficientes, tão ou mais válidos que os comuns e normalizados mortais, porque não a de ignorantes profundos e atrasados mentais também? Bem hajam por fazer rir! 
16
Mai19

Portugueses pelo Mundo e Hora dos Portugueses

Rita Pirolita

 

 
Sempre gostei muito de ver estes programas, fazem-me sonhar e acreditar que os portugueses são pessoas de sucesso para qualquer lado que se virem. 

Incrível, o nosso sangue lusitano de descobridores corajosos e fofinhos, que não mataram, não roubaram o ouro nem violaram a liberdade dos povos que colonizaram, ao contrário dos espanhóis, ingleses, alemães, franceses e holandeses, esses malandros, impetuosose chacinadores!
Lá levamos doenças que ceifaram a vida de muitos nativos, mas disso não tivemos culpa, já nos estava no sangue. 

Realmente os portugueses são únicos e esta singularidade manteve-se até aos nossos dias, ora vejamos.
 
Portugueses Pelo Mundo:
Esta crónica lusa vai aos mais variados locais, desde Paris ao longínquo oriente, com quem sempre tivemos uma relação fresca, até oferecermos literalmente de bandeja, Macau aos chineses, mas isso é outra história! 

Este programa televisivo faz uma breve resenha de como os portugueses trabalham e aproveitam as poucas horas de lazer que têm, em locais tão diferentes como Londres ou o Butão.

Em cada episódio temos pelo menos três histórias sofridas de vida, as equipas de filmagem saltitam de Paris para o Bangladesh, no segundo a seguir já estão no Japão, passam as reportagens a fazer isto, a um ritmo alucinante, como se estivessem numa máquina supersónica. 
Não está mal feito o alinhamento, não senhor, muito radical, fresco e jovem.

Mas eu 'tô' aqui é para falar da vida sofrida destes bravos portugueses. 
A idade dos visados anda sempre entre os 20 e os 40 anos, época mais produtiva das nossas vidas, a parte que mais me fascina é que toda a minha gente faz o que gosta, pessoas realizadas nas suas profissões que não emigraram por necessidade e desempenham cargos tão importantes para o avanço da humanidade, como DJ na Índia, leitora em voz alta de textos de Camões no Egípto, chef gourmet de asas de libelinha roxa às riscas no Liechtenstein...

Enfim, uma parafernália de profissões impressionantes, prometedoras e às vezes até de alto risco. 
Em Portugal nem existem cursos nestas áreas, por isso ainda deve ter sido mais difícil para esta gente, serem estudantes-trabalhadores fora da sua pátria. 
Na Índia deve ser difícil, com aquele calor e humidade!...

Os nomes de família desta gente, que acredito não serão fictícios, por não ser jornalismo de investigação, são bonitos e sonantes mas não me diziam nada ao início, até que, num raro momento de actividade cerebral, pareceu-me que os portuguesinhos seriam talvez filhos de banqueiros, embaixadores, donos de redes de hotéis...
Sou sincera, não me parece que estes portugueses tenham tido a vida facilitada por serem filhos de quem são, não tem nada a ver de certeza!
 
Este programa é tão isento que deixa sempre a ideia de um retrato fidedigno de vidas reais e a coragem de viver além e sem fronteiras!!!
 

Hora dos Portugueses:
Pelo que tenho visto, o magazine não é tão Maria vai com todos como o anterior, mais na onda conservadora, anda por países de origem anglo-saxónica, Canadá, Estados Unidos, Austrália...a perpetuar o apego a Salazar, o continuar da tradição e admiração a Fátima, ao fado e futebol. 

A vida no campo continua a ser uma referência que mantêm, trazida de um país pobre, principalmente os Açorianos que são mais que as mães para esses lados. Deixaram as vacas nos socalcos e agora dedicam-se aos bois que correm em liberdade por herdades planas a perder de vista. 

São todos ricos ao estiloTexano. 
Elas são de um loiro tipicamente português e aparecem maquilhadas ao estilo novela Mexicana. 
Toda esta mescla de estilos só mostra que são 'open mind' e se adaptaram bem demais às tradições do país que os recebeu de braços abertos.
 
Meus amigos, eu sei que todos estes personagens existem, mas não representam a maioria. 
Eu também conheço outra realidade menos feliz, a dos portugueses que chegam a estes países sem nada e os primeiros a acolhê-los e explorá-los são os compatriotas que já lá estão de peito inchado e barriga cheia.
Muita gente chega, desilude-se e volta, ganham tanto como gastam. 

Se querem ter uma casa maior do que precisam, um carro que gasta tanto como um avião e estão dispostos a ser escravos destes bens materiais?…Emigrem. 

Se querem ter uma casa à medida da família, um carro à medida do país e do preço do combustível, usufruir de boa comida, sol, praia e amigos sem gastar muito dinheiro, que o sol ainda é de graça, fiquem.

Se tiverem o curso de engraxador e forem filhos de algum diplomata, podem ir para onde vos apetecer e até podem levar um balde para apanhar mais seja do que for!
12
Mai19

Romarias e procissões

Rita Pirolita

 

 
 

No verão em Portugal não há cantinho que não esteja em festa, não há forma de escapar a cascas de melão deixadas para trás para engorda de moscas e abelhas, garrafões de vinho, bôlas de sardinha, chouriço, pão de ló, bagaço, Bolicaos e refrigerantes.

Os bombeiros na companhia dos cabeçudos são presença indispensável.

Quando era mais nova e não tinha mais nada para fazer nesses dias de canícula religiosa, se não ficar a assistir à procissão, quietinha à sombra para fugir de 40 graus ao Sol, lembro-me da presença habitual na banda de um bombeiro que não tinha um braço mas o outro tocava por quatro, ia de um lado ao outro do bombo com pujança e afinco. 

Das varandas, decoradas orgulhosamente com mantas acetinadas, os crentes pobres atiravam moedas e os emigrantes notas de ‘dola’ ou franco bem abertas, para toda a gente ver o quanto davam na sua boa fé. 

Os santos nos andores tinham cabelo preto cacheado e vestiam púrpura, miúdos arrastavam-se cansados na comunhão com camisas de renda até às orelhas, até hoje não sabem que mal fizeram para tal sacrifício de desidratação e dor de pés.

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub