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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

09
Ago20

Já sou canadiana também...e depois?

Rita Pirolita
A cidadania neste país dos ursos, neve e desolação, que o Deus dos esquimós conserve tudo isto no devido sítio de origem, para que não se espalhe, custou-me cinco miseráveis anos da minha vida, de frio ou muito calor, que eu vivo para o interior das pradarias da agricultura, com explorações imensas, acres de canola a perder de vista e campos de um dos maiores desastres ambientais, a exploração de petróleo, as famosas oil sands de que ninguém fala, por ser um país próspero e de primeiríssimo mundo para onde todos pensam que querem vir...até um dia baterem cá com os costados! 
Eu sei que tenho que ter em consideração que a maior parte da emigração é forçada na origem e não desejada no destino, pessoas que abandonam autênticos paraísos de beleza mas que são infernos de fome e pobreza. 
Eu sou uma privilegiada vim de um país lindíssimo, para mim o mais lindo do mundo e para os lados dos Açores não poupo elogios, ainda relativamente seguro, quase nunca assolado por catástrofes naturais de monta, aliás, os únicos que provocam a maior desgraça e morte lenta do meu povo são mesmo os ladrões dos políticos e dos banqueiros!
Não deixo no entanto de me pôr na pele de muita gente menos bafejada pela sorte. 
A minha cerimónia de entrega da cidadania foi feita numa sala com mais 84 pessoas de quase todos os cantos do mundo, todos mais escurinhos, aliás, na sala haviam mais 2 brancos além de nós, uns de turbante que não são obrigados a tirar por alegarem razões religiosas, imensos miúdos, muita desta gente vem de famílias tradicionais e conservadoras e ter filhos no Canadá dá para ficar em casa um ano com um bom rendimento. 
Os próprios que conduziram a cerimónia eram emigrantes...
O Canadá teve originalmente Índios, os canadianos são todos emigrantes mas alguns consideram-se mais canadianos que outros, vá-se lá saber porquê, se é pelo tempo que já levam aqui ou pelas gerações?...Por esse prisma os Índios deviam ser mais respeitados!
A senhora que fez o discurso, que fomos avisados previamente para ouvir com atenção e nos levantarmos à sua chegada, deu-nos uma lição de moral, sobre a aceitação deste grande país que acolhe gente de todo o mundo, blá, blá, blá...muitas vezes altamente qualificada, para fazer o trabalho que os que já emigraram há mais tempo não querem fazer. 
Só esta última parte é que a senhora se esqueceu propositadamente de dizer! 
No final a palradora palestrante, indignou-se com a falta geral de jubileu na sala na obtenção de tal mérito, advertindo que tínhamos que festejar e agradecer muito esta etapa.
Agradecer a quem? Apesar de estarmos em época natalícia, ninguém nos deu nada de graça! 
Muitas pessoas que lá estavam tinham feito duas ou mais horas de caminho, porque vinham de fora da cidade para obter um papel A4 que fará deles cidadãos de plenos direitos e deveres, que dará acesso a assistência ou tratamento médico quase gratuito, que dá direito a votar mas também a ir preso se puserem a pata na poça.  
Via-se que era gente de trabalho, muitos deles engenheiros ou professores que andam a recolher lixo ou a fazer limpezas.
Pela cor da pele habituados a climas mais quentes, vê-se que passam muito mal com o frio extremo por estes lados do mundo. 
Gente que passou cinco anos de sofrimento para obter este papel e pensar que muitos entram directo com estatuto de refugiado, difícil de provar, aproveitando-se assim de regalias sociais. 
Eu sei que o mundo é injusto para os justos mas eu também não fiz mal a ninguém para estar no meio disto.  
30
Mar20

Heidi, o avô dela, Pedro e o cão São Bernardo

Rita Pirolita
Por motivo que a vós não vos diz respeito e a mim não me apetece partilhar, estive à entrada do Parque Nacional de Jasper, sítio pipi de estância de ski e alojamentos de montanha, como se fossemos vizinhos da Heidi, do avô dela, do Pedro e o cão São Bernardo, sim aqui também os há e convivem bem com os gigantes malamutes, huskys e outros patudos grandes e peludíssimos!
Eu sei que a Heidi era dos Alpes Suíços mas isto por aqui é igual, então coberto de neve parece que nunca saímos do mesmo sítio e o c@r@lho do frio é o mesmo, qual Truman Show!
Como já disse não interessa porquê mas estive a poucos quilómetros da entrada do Parque, alojada num hotel que é um verdadeiro tesourinho deprimente, em modo canadiano. O modo piroso americano já todos conhecemos, quanto mais não seja dos filmes que nos impingem.
A cultura por aqui não é muito diferente mas tem alguns pormenores que merecem atenção à altura.
Começando pelos empregados que são todos índios, simpáticos qb, talvez até demais para um hotel quase motel de beira de estrada, de passagem para os que querem ir fazer ski ou snowboard mas não têm tanto dinheiro assim, pagam o forfait e livram-se de dar balúrdios por alojamento com pé na estância! 
Lá me vou armar em Eça de Queiroz, de descrições chatas mas não relações incestuosas que não tenho irmãos, sou uma cabra filha única, desmamada bem cedo que detesta gente caprichosa, mimada, Drama Queen e mimimis!
A arquitectura exterior é prego e racha, meia bola e força, como todas as casas aqui.
Tudo é feito em madeira, não há cá design personalizado ou de autor, é para o que serve e nisso até nem desgosto da atitude, mais vale assim que gastarem balúrdios em mariquices e depois sai uma bela merda que muita gente não sabe como nem consegue usar, não aprecia e ainda se perde no acesso aos quartos ou restaurante porque é tudo um labirinto, fruto de devaneios criativos do designer, que normalmente é paneleiro e maluco, que faz parte do lobizinho de outros tantos paneleirões e tias, que remodelam casas e jardins e ficam loucos com a mistura do moderno e antigo vitoriano, dos espelhos e dourados à jogador da bola! 
Devem andar todos a comer no mesmo sítio, para terem gostos tão próximos!
Que culpa temos nós na equação para levar com as frustrações e traumas do artista, pagos a preço de ouro, num espaço mal concebido, mal iluminado e mal aproveitado, tudo em mau e sempre a largar a lã todinha, tipo prato gourmet comido de dedo mindinho esticado e a ser enrabado ao mesmo tempo?...
Deixamos o exterior do alojamento, igual a tantos outros que abundam por aqui e no interior temos uma recepcionista índia que em vez de tailleur, imagino-a melhor de pena na cabeça e vestes coloridas, de mão na boca a fazer uau uau uau, como saudação de boas vindas e convite para mais tarde dar umas baforadas no cachimbo da paz, ali no cantinho da sala ao lado da mesa de bilhar. 
A alcatifa é bicho que prolifera por todo o Canadá, numa estagnação de tempo, para grande tristeza minha, encarquilhação das unhas, arrepio de todo o couro cabeludo e restante penugem corporal, além da electricidade estática e do ar condicionado, que me põem doente a toda a hora!
As cores são de uma monotonia para boi dormir até morrer.
Só para que não se riam sem acreditar, em muitos bairros, a planta das casas é toda igual e a cor também é exigido que o seja, o moço já disse que se vivesse num bairro destes, teria dificuldade em encontrar a sua própria casa e corria o risco de ir parar a casa alheia, que se fosse o lar de uma vizinha boazuda e gira nem tudo estaria perdido!...
Quanto a isto estou descansada porque vivemos num apartamento e vizinhas giras por aqui e arredores é coisa que não abunda, existe para troca muito camafeu e fufa, se alguém estiver interessado...
Ora bem, detida nas cores ainda me apraz observar que as paredes são de tom cocó, de cinza a castanho, pode existir um azul cinza ou um rosa cinza mas tudo muito apagadinho, já quase a desmaiar com falta de cor. 
O bar, salão de jogos, sala de pequeno-almoço, almoços, jantares e reuniões, é um e o mesmo local, decorado com as mesmas cores deprimentes e alcatifa coçada de tanto aspirador barulhento. 
Abundam molduras tortas e cheias de pó, ou se calhar nem tanto assim mas insistem no à média luz te vi, à média luz te amei e foi à média luz que à merda te mandei, que dá um ar sujo, porco e peganhento a tudo. 
As fotos variam entre vaqueiros e jogadores de hóquei, uma mesa de bilhar a um canto jaz triste com passado de grande movimento alcoólico e tacadas, vending machines em quase todos os cantos além de café e micro-ondas.  
Para meu espanto, que não sou de cá, à saída desta sala ouço água a correr e vou a ver, deparo-me com um lago interior claro, porque lá fora tudo congela, com água limpa e quatro peixes lá dentro, VIVOS a rabear e a olhar para mim à espera de comida, pormenor de monta, uma luz vermelha sai do fundo negro do lago-tipo-banheira-de-bebé.
Parece que estou numa viagem de LSD ao mundo dos motéis perdidos no meio do nada, onde todos os dias entram putas e saem dealers mortos!
Perto deste hotel existe um supermercado com prateleiras muito organizadas e empregadas simpáticas e bem dispostas, tanto que até estavam agarradas à barriga de tanto rir, enquanto uma delas me registava as compras, dirigindo-se a mim também ao contar a história de um cliente que vive na zona e apareceu para pedir um refund de uma galinha que tinha comido e lhe tinha causado alucinações, a senhora não podendo disfarçar mais o riso, chamou o gerente para resolver a misteriosa galinha aromatizada com erva. 
Afinal estamos no Canadá, sítio de maluqueira certa e séria!
Para que não pensem que sou mentirosa aqui deixo fotos deprimentes mas reais.
Sim, estive lá e ao pequeno-almoço às 6 da manhã estava a comer waffles congeladas, porque tive medo de as meter na torradeira por estarem a pingar, depois deixei de ser tão parva e agarrei-me a um muffin a pingar gordura, senti-me mais parva ainda. 
Desisti e bebi um café a saber a mata-ratos, dei um murro no peito e lá fui eu toda lampeira, preparada para a loucura do dia!
Estive o tempo todo a perguntar a mim própria, que c@r@lho faço eu aqui, num sítio desolado e congelado? Figura de quem bate bem da bola não é de certeza!


Banheira dos peixes!


Mesa de bilhar abandonada e triste, de notar o bom gosto nas cores e padrões contemporâneos!
31
Mai19

Os artistas, esses malucos

Rita Pirolita
 

Até hoje, o discurso que mais ouço vindo da boca dos artistas, mais especificamente os actores de teatro, é que precisam imenso do apoio do estado para sobreviver, isso é o que as pessoas normais fazem, trabalham e recebem em troca o 'apoio' para que trabalharam, o ordenado. 

Por oposição, nunca os ouvi dizer que se tivessem falta de trabalho e precisassem de comer, iam para trás de uma caixa de supermercado ou limpar escadas. 
Uns tiraram cursos no Conservatório, outros no Chapitô, outros andaram a passear por Londres e Estados Unidos e até serviram às mesas para pagar o estupefaciente, lá fora ninguém os conhece, não parece mal.
Acham mesmo assim, que são mais que os outros e queimaram mais pestanas que um engenheiro ou um médico? 
Os médicos têm sempre trabalho na área, porque são necessários e nem toda a gente consegue ver sangue sem desmaiar, por isso nunca precisam de ir limpar retretes, a não ser que sejam da India e emigrem para o Canadá para acabar a conduzir um táxi ou a fazer limpezas, o que já não é mau do ponto de vista do país que os acolhe, que fica de peito cheio por dar trabalho a desgraçados que fazem o que os canadianos não querem fazer, sem reconhecerem e aproveitarem a sua formação de origem. 
Os que se auto-denominam canadianos, são um bando de emigrantes que sempre desrespeitaram os verdadeiros autóctones, os índios. Mas isso é outro circo.

Quase todas as outras pessoas que tiraram cursos ditos normais, se sujeitam basicamente a fazer o que aparece para sobreviverem, debaixo de pressão social e deprimidos de tanta frustração. 
De fora ficam os jogadores da bola, políticos, banqueiros, Igreja e milionários, calam-se que nem ratos por trás da riqueza e não ligam a criticas e julgamentos porque fazem orelhas moucas às vozes da pobreza, da qual se alimentam e lhes enche os bolsos.

Muitos ainda, têm o descaramento de dizer que até nem queriam ser artistas, nem nunca sonharam com tal carreira mas que alguém insistiu tanto que eles lá aceitaram por favor e empurrados até acabaram por gostar. 
Ora, estas declarações são verdadeiros insultos para quem tem talento e anda uma vida inteira a sonhar e a fazer de tudo à espera que lhe saia a sorte grande de ser escolhido. 

Tal como não podemos ser todos médicos também nem todos podem ser artistas mas a maioria são-no por um acaso feliz, pertencem à família certa.
Os artistas gostam muito da ribalta, das purpurinas e da triste nostalgia de uma casa repleta de quinquilharia que coleccionaram ao longo dos golden years, onde depois dão entrevistas que cheiram a mofo, acompanhadas do queixume da baixa ou inexistente reforma, do abandono, do esquecimento...
Eu também gostava de trabalhar pouco, ganhar muito e reformar-me cedo!
Meus amores, só uma ínfima parte da população é conhecida mundialmente ou mais modestamente nos seus países de origem e para serem reconhecidos e lembrados com agrado, têm que saber abandonar o palco na hora certa e evitar fazer figuras tristes como fez a Amália, ao cantar até morrer quando devia ter parado quando deixou de soar agradavelmente aos nossos ouvidos e quando já mostrava um esforço penoso em fazê-lo. 
Quanto ao parco rendimento?...Quem não come por ter comido, não é morte de perigo e sempre podem ter a sorte de ir passando os dias na Casa do Artista ou sair-vos a sorte grande e comer, dormir e cagar por lá até morrer.

Voltando ao coitadinhismo dos subsídios pedidos em nome da cultura para alguns encherem o papo, não são os artistas que se querem sempre distinguir pela sua imaginação, criatividade, capacidade de adaptação, trabalhar de alma e coração?...
Porque é que tudo depende tanto de dinheiro? Já para não falar que são sempre os mesmos que recebem os apoios e fazem as novelas e não me venham com tretas que são os únicos que são bons, até podem ser mas também pertencem a grupos onde se movimentam muito à vontade, um deles são as bichas ou gays como vos aprouver chamar-lhes, contra os quais nada tenho a não ser vantagens porque sou mulher e posso levar no sítio que eles levam e mais um, e chupar no que eles chupam, mas isso também não é para este circo. 
Ora, as bichas lá se 'cobrem' umas às outras mas quando se zangam também ficam doidas como as mulheres, que são umas belíssimas cabras entre elas a toda a hora e ainda pior quando se zangam ou roubam maridos e namorados às amigas do lado, é vê-las deitar fel da língua e fumo das orelhas. 

Então o verdadeiro artista não é um entertainer pro bono do povo, um pobre  sonhador, um boémio como o Bocage...este romantismo já não vos atrai nos tempos modernos??? Querem todos ser comunistas-capitalistas a fazer a milésima reposição do Rei Lear e matar o Rui de Carvalho de cansaço em pleno palco? Andar a fazer merda sem o mínimo de qualidade, como um cocó de cão numa galeria de arte ou num qualquer museu, que roubou milhões aos bolsos dos contribuintes para ser construído?  
 
Meus amigos sou pintora, já fiz exposições por convite, vendi alguns quadros, tive algumas encomendas, sempre me imaginei a viver da arte e pelo menos em condições normais, sempre poderei criar até ao fim da vida, mas se não sair de casa, ninguém me põe comida na mesa, nem me compra roupa nem que seja na Primark. 
Ninguém me vai impedir de sonhar mas serei eu artista ou farei alguma coisa de jeito? Pelos elogios parece que sim, vi gente ao meu lado fazer menos pela arte e ter mais louros e fama, se mereciam??? Pelo menos estiveram no sítio certo, com hora e encontro marcado com as pessoas certas. 

Os famosos são conhecidos por serem bons no que fazem?...
Todos dizem que a arte é subjectiva e que só vêem os reality shows quando fazem zapping. 

Se não vivo da arte, não lutei o suficiente para que isso acontecesse? Se calhar não quero que isto seja um trabalho e sim um prazer, distração e divagação e talvez por aceitar isso não me sinta frustrada. 
Devemos lutar por fazer o que nos dá prazer mas nem sempre nem nunca isso acontece e menos vezes ainda, corresponde a sustento que se veja.
 
De qualquer maneira, quando ouço os artistas cagões a fazer o peditório choradinho em nome da cultura e não é a cultura das alcagoitas, imagino logo que são pessoas de famílias remediadas ou até abastadas, porque nunca tiveram que mexer o rabo para ganhar para comer e digo-vos uma coisa, de barriga vazia ninguém cria ou aprecia a criação mas sonha muito, nem que seja com um lombo de porco no forno, acompanhado do respectivo cheiro. 

Eu, sortuda que nunca passei fome, quando vos ouço a repetir a K7, fico logo com a cabeça na Lua e o pensamento voa para bem longe da vossa mesquinhez terrena. 

Eu é que sou a verdadeira artista, sonhadora sem precisar de subsídio!!!  

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