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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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Contos e Descontos

14
Dez21

Pobres e pobretes

Rita Pirolita

E a conversa surge como a história de uma sardinha para 4 ou 6, todos falam, sabem quem a passou mas ninguém que vivesse até ao momento viu ou sentiu para dizer de voz que uma sardinha da ponta da boca até ao final do rabo era chupada até ao tutano da espinha, os olhos, a escama, as entranhas...

Os pobretes falavam de pobres ainda mais miseráveis, de copo na mão e costelas alancadas no balcão da tasca de vinho entranhado, borra que tinge língua, dentes calcinados de cigarro de mortalha, iam falando de sóbrios a ébrios, o ordenado ia-se em moedas batidas para a rodada, só mais uma para o caminho dizia Jacinto, respondia Clarindo que Jacinto vivia na porta juntinho à tasca, 3 passos e meio e estava na soleira, mais meio e chegava ao sofá. Jacinto tinha filha freiruda e Clarindo casamentuda, a primeira dava filhos e não queria fazê-los a segunda rezava todos os dias para que o Senhor lhe inchasse a barriga não deixando ela de fazer a sua parte mas má sorte talhada só inchava com gases e arrotos que dizia serem de possessão a libertar-se para dar lugar a gémeos que viriam ainda nesta vida! Nada acontecia e o casamento ia de esperançoso a sombrio sem a presença de um choro de rebento ou gargalhar de petiz.

A Marília casada confessava baixinho à Lucília freira o desespero e o anseio quase perdido de parir fosse o que fosse, rapaz ou rapariga que viesse ao mundo rápido que mãe já o era em tantos sonhos. Decorriam rezas com afinco aos fins-de-semana em casa de Lucília entre jogatana de cartas e uma ou outra ginja que mal não faria ao útero, tirava as cãibras da barriga das pernas e preenchia os peitos. Uma semana antes do Natal havia bisca a quatro marcada para a tarde, sentaram-se Marília e Lucília uma em frente à outra com sinais combinados e as irmãs Meireles a fazerem oposição, começaram as cartas a bater na mesa, ao início ainda timidas entre acepipes de peixinhos e mini-pretzels, um dedo de ginja, outro de licor, um bagaço, um medronho e a emoção crescia como se o dinheiro rolasse em apostas de vida ou morte, lá fora o sol foi caindo na sombra das cortinas e antes do último raio se apagar Lucília soltou um ai suspiroso que foi crescendo para afrontamento, agarrou-se à beira da mesa mas depressa tudo caiu com ela, cartas voaram, copos derramaram e Marília e as irmãs deram um salto de ajuda que de amparo na queda já não foram a tempo, chamavam pela freira com chapadinhas na cara, gritaram Acudam, acudam! rua abaixo mas Lucília não se deixava acordar, de olhos fechados de cansaço só a sua barriga começou a ter vida, inchou de 3 meses de gravidez em 3 segundos e de repente parou sem se esvaziar, foi declarada sua morte após uma hora e as 3 mulheres choraram a perda, o padre teceu elogios à jovem defunta e foi a enterrar. Marília visitava a amiga na morada eterna sempre chorosa e cheia de saudade, tinha a coitada partido de barrigona, o médico disse que os mortos às vezes incham, acumulam gases e líquidos que com o falecimento já não sabem ocupar o lugar certo no corpo. Passados 6 meses e uma semana mandou Marília rezar a última missa que tinha encomendado à alma de Lucília, antes de ir para casa passou na campa para um adeus mais duro e real, iria a Madrid a uma clínica de fertilidade de um médico que diziam só com o olhar e uns bons trocos fazer milagres, estava Marília a levantar o joelho do chão quando ouviu a terra que cobria a amiga a rachar, parecia que ia brotar um vulcão, seria um nabo ou coisa maior, uma abóbora? Não podia ser, as abóboras não nascem debaixo da terra e muito menos em segundos se fazem rechonchudas, que seria então que tanto se agitava ali debaixo? Que não fosse um rato, antes uma toupeira, todos sabiam que bichos conssumiam o corpo que já não tinha alma! De repente Marília vê 5 dedinhos de uma mão rosada e com refegos no pulso, a sacudirem a negra terra do cemitério,  arregalou os olhos e por instinto armou-se em parteira de terras, com delicadeza mas decidida deu a mão àquele ser e ajudou-o a respirar fora da humidade bafienta, veio atrás da mãozinha um corpo de bebé, chorou com lingua empapada, Marília correu para a pia da igreja e ali lavou o nascido de fresco, deu depois conta que logo o baptizou com tanta reza e pedido a Deus! O filho desejado e não prometido mas oferecido por um ventre morto que o alimentou só para a fazer feliz, seria um filho da lama, das raízes e da escuridão das terras!

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