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Contos e Descontos

Autora esporádica de contos e descontos escritos a tempo inteiro

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28
Abr19

Palanque da noiva

Rita Pirolita

Dona Mariquinha tinha a loja de noivas mais requintada, na Lapa e vindos dos arredores muitos passavam em frente à montra de sonho-nuvem, no interior havia um palanque que accionado por um pequeno interruptor debroado a dourado, rodava como caixa de música as puberes princesas rodeado por uma meia lua de espelhos, todas as casadoiras sonhavam girar naquela bolacha de madeira, elevada do carpélio rosa-seco que abafava o chão.
Certo dia tiveram marcação da menina Matilde, bisneta dos viscondes de Alfaia, virgem ainda no odor, aperaltada de noiva subiu ao redondo e pequenino palco e a empregada abismada de boca mongolóide com tamanha elegância de corte vindo de Paris, tocou desajeitada no pequeno botão que rodaria teatralmente a bela ansiosa, porque carga de água não se sabe, o mecanismo descontrolou-se, parecia uma pá de helicóptero, apanhado desprevenido o corpo magricelo desequilibrou-se em aparatoso embate contra os espelhos que se partiram estrondosamente, um pedaço em forma de punhal alojou-se decidido na tempora da ruiva cabeça, sedas, tafetás, entertelas, giz macio de alfaiate, áspero tule, bruxas de alfinetes, toucados, grinaldas e véus, laços e ligas...tudo respingado de sangue.
Assim, a noiva que antes de casar já fez viúvo solteiro, foi a enterrar sem lhe conseguirem tirar a expressão escancarada da tamanha surpresa ao ver-se morrer na prova do vestido!
Dona Mariquinha mergulhou na tristeza de mil viúvos e sete mil noivas abandonadas em altar, doou todos os vestidos escapados da sangria às noivas de Sto. António, o que restou queimou e debandou para Bragança, a tratar da tia Deolinda, solteirona de profissão e rica antes de nascer, passou a loja ao farmacêutico Albino das Neves, seu primo afastado da Galiza que montou negócio de pastilhas e elixires, óleos, poções e emplastros.
Desapareciam da farmácia de quando em vez ligaduras, tinturas, álcoois e sulfamidas, houve até o Sr. Parreira, cliente habitual do óleo de figado de bacalhau por anemia que se lhe pespegou antes da concepção, dizia ele, coisa dos antepassados que não tinham dinheiro para figado cru, que chegou a avistar um certo véu de neblina ali pela zona do corredor central que dava para o pequeno laboratório das traseiras, onde se preparavam em miligramas pomadas e unguentos, seria pó-de-talco?...
Cada noiva de Sto. António que levou vestido de figurino da cidade oh lá lá foi caindo em desgraça, defuntas, definhadas, abandonadas ou viúvas sem tostão.
Esta história que vos conto existiu pelo menos no mundo das núpcias...

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